Não sei se me olhas, agora, sob esta abóbada uterina, claudicante e claustrofóbica. O certo é que te vejo letárgica, na imensidão do teu espaço Ãnfimo. Se não me atrevo a avançar sobre o teu tronco como um louco e sanguinário é porque não te atreves a me olhar nos olhos. Sequer moves as partes delgadas para jogar teu bote aéreo e certeiro, para depois sair em disparada tateando brechas para abrigar a tua casca repulsiva.
Das paredes desta cave, no lusco-fusco embrionário em que nos encontramos, brotam periféricas figuras em relevo, toscas, como tocos que são, a apontar seus dedos retorcidos, acusatórios.
Não há saÃda, como não há espaço para compartilhar em harmonia. Só pode haver um: o vencedor, posto que sejam inimigos naturais. Não há predação, contudo, tudo não passa de um processo de afirmação da posição que ocupamos no espaço.
Eu estou aqui e isso é mais do que eu posso suportar. Este não é o meu lugar, não posso compartilhar contigo as minhas fraquezas. É certo que não te importas, nem sabes o que sei; nem sabe quem és ou o que sou para ti. Todavia, cá estamos a nos perceber como presença indesejável.
Enquanto rastejas, inquieta, eu sou obrigado a curvar-me no máximo das possibilidades do meu corpo para evitar o contato. Sufoco e arregalo os olhos para antever teus objetivos, para mapear teus caminhos e, deliberadamente, fugir para dentro de mim, reduzindo espaços, encolhendo pensamentos, calando a voz.
Minha vingança é que não te deixo todo o espaço, tu ainda me tens e isto te incomoda, eu sei. Eu vi com que precaução elaborou teu plano de fuga, ou de ataque, quem sabe das táticas que formam a tua estratégia de eliminação.
Eu também tenho meus planos. Tenho método. Na insuficiência da memória elaboro, invento a partir do que tenho. Essa é a minha marca. Meu instinto me protege e minha cabeça me lança para frente como uma catapulta medieval. Eu sou vaso de guerra, flecha riscando o ar frio da manhã. É…
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