O grande sonho da minha vida era ser advogada, mas não tinha condições de arcar com a faculdade de Direito, tampouco podia pagar um cursinho pré-vestibular para que pudesse me ajudar a alcançar tal meta.
Até novembro de 2012, era menor aprendiz num grande banco e fazia o 3° ano do Ensino Médio à tarÂde na Escola Marie Curie, onde eu tinha uma bolsa integral pelo fato da minha mãe trabalhar na escola como secretária da direção.
Depois, trabalhei com contrato tempoÂrário na loja de departamentos Berdinazzi. Eu queria juntar dinheiro para pagar um bom cursinho. Para isso, abri uma conta poupança no banco. Em pouco tempo, percebi que o valor acumulado só daria para pagar as apostilas, o uniforme e o material.
Pensei em voltar a trabalhar para pagar o cursinho, mas desisti, porÂque o curso de Direito é um dos mais concorridos da UFES e para passar, teria que me dedicar integralmente e se trabalhasse, não teria tempo para estudar. O pior de tudo é que eu não podia tentar as cotas na federal, porque estudei em escola privada.
Quando tudo parecia perdido, com meu tablet na mão, vi no Facebook que o cursinho Gabaritado, campeão de aprovações e o mais caro de Vitória, estava com as inscrições abertas para o concurso de bolsas, de 10 a 100% de desconto, de acordo com a pontuação do aluno.
– Taà o caminho rumo à UFES – disse.
Depois de tomar um demorado banho de meia hora, leÂvar mais uns dez minutos para me arrumar e mais quinze para procurar meus documentos e pô-los na bolsa, estaÂva pronta para ir ao cursinho fazer a inscrição.
Fui ao ponto, na Avenida MaÂruÃpe, para pegar o ônibus rumo ao Gabaritado. Fazia um calor causticante naquela tarde. O ônibus 184(Jardim da Penha-Rodoviária) que passa em frente ao cursinho chegou e entrei nele.
O trânsito estava muito lento. Houve um acidente automobilÃstico envolvendo um caminhão da Brahma e uma piÂcape Dodge RAM naquela avenida. O trajeto, feito em menos de quinze minutos, seria feito em trinta. Já passava de 13h30min e o ôniÂbus ainda estava no local do acidente, me deixando anÂgustiada.
Rapidamente, chegaram as ambulâncias do SAMU e do Corpo de Bombeiros para socorrer as vÃtimas do acidente de trânsito. Por sorte, os envolvidos no acidente só tiveram ferimentos leves e em vinte minutos, os agentes da Guarda Municipal normaliÂzaram o fluxo de trânsito.
– Graças a Deus! Agora eu vou conseguir chegar no cursinho – falei.
Nesse momento, embarcou Hugo, um jovem vendedor de doces dentro do ônibus. Ele falou:
– Boa tarde, senhores passageiros. Sou ex-presidiário e por isso, não consigo emprego em lugar nenhum. Eu poÂdia tá matando, tá roubando, mas tô aqui trabalhando honesÂtamente vendendo bala dentro dos ônibus. Uma paçoca na vendinha custa 25 centavos. Mas na minha mão, sete paçocas saem por real. Uma jujuba na vendinha custa 50 centavos, mas na minha mão, cinco jujubas saem por 1 real. Quem puder me ajudar, eu agradeço.
Vários passageiros se comoveram com a história do vendedor, inclusive eu, comprando-lhe os doces.
– Eu sei que é pouco, mas é o que eu posso ajudar – resÂpondi, olhando para o vendedor com um sorriso, acariciando-lhe as mãos e dando o dinheiro.
– Obrigado. Deus lhe pague – respondeu Hugo, admiraÂdo e recolhendo o dinheiro.
O ônibus seguiu normalmente seu itinerário para Jardim da Penha. Saltei do ônibus e entrei no cursinho. Fiquei espantada com a quantidade de pessoas que vieram pagar a taxa de inscriÂção, preencher a ficha de inscrição e entregá-la na secretaria.
Na fila, encontrei uma ex-colega de escola que não via há muito e que também estava na fila para a inscrição. Era Anne Louise, 18 anos, uma loira com feições de boneca, 1,55 m, olhos azuis da cor do mar, cabelo preto, batom vermelho, perfuÂme amadeirado, brincos de argolas, rÃmel nas pálpebras e brush no rosÂto. Tal como eu, ela não tinha condições de pagar -um cursinho e por isso queria uma bolsa no Gabaritado.
- Ei, Anninha, quanto tempo!
– Nossa, Roberta. Eu também não te vejo há uma cara! O que tem feito da vida?
– Por enquanto tô sem fazer nada. Vim aqui pra fazer a inscrição no bolsão. Quero tentar Direito, mas eu tô sem graÂna pra pagar um cursinho e por isso, vejo no Gabaritado uma oportunidade de realizar meu sonho.
– Eu quero fazer Medicina. Meus pais não têm condições de arcar com um cursinho e eu, muito menos. FalaÂram pra mim que o Gabaritado era muito bom e decidi fazer o bolsão.
– E sua mãe, já tá melhor?
– Ela morreu. Quando a gente achava que ela tava curaÂda, o câncer voltou devastador. Deu metástase, se espalhou pros outros órgãos e ela não resistiu.
– Meus sentimentos, que Deus a tenha em um bom lugar.
Anne Louise começou a chorar e disse:
– Penso em mamãe em tudo o que eu faço. Vaso ruim não quebra mesmo. Por que o destino tem que ser cruel com as pessoas que a gente mais ama?
– Não fica assim, querida. Um dia você vai superar essa dor – respondi, abraÂçando e afagando Anne Louise.
Chegou a minha vez de entregar a ficha de inscrição na secretaria do Gabaritado. Para mim, foi um alÃvio sair da fila, que estava enorme. Depois, chegou a vez de Anne Louise entregar sua ficha. Antes de sair dali, perguntou pra mim:
– Beta, me passa seu Facebook e seu WhatsApp.
– Passo sim, Anninha. Só preciso de um papel – responÂdi.
– Aqui tá o papel – falou Anne Louise, entregando o papel.
Escrevi o endereço do Facebook e o número do meu WhatsApp e entreguei à Anne Louise.
– Anninha, foi um prazer te ver, mas tenho que ir. Um beiÂjo – disse, abraçando e beijando Anne Louise.
– Um beijo, Beta – respondeu Anne Louise, com abraço carinhoso.
#cybervendetta, a sexta obra do escritor Maxwell dos Santos e escrita em primeira pessoa, aborda a chamada pornografia de revanche, que consiste na publicação não autorizada de fotos Ãntimas com o objetivo de provocar humilhação, através do relato feito pela adolescente Roberta, vÃtima de seu amante Márcio, inconformado com o desprezo.Com a publicação, o autor faz o debate acerca da privacidade na internet e abordar os efeitos devastadores da vingança pornô na vida das mulheres.
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