Eu, homofóbica

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Carla Pereira da Fonte · Rio de Janeiro, RJ
31/1/2012 · 1 · 1
 

Num lindo amanhecer de domingo, não resisti ao chamado do sol que coloria minha cidade com sua luz outonal e fui para rua caminhar de mãos dadas com meu grande amor. A mente me distraia hora perdida em lembranças do passado, para depois saltar para um futuro idealizado. Tudo colorido dentro e fora de mim. Subitamente despertada no agora um contentamento lúcido de me saber amada, abençoada por uma saúde perfeita, uma vida num mundo perfeito, me encharca.
Com o coração livre, num ímpeto espontâneo de retribuição, com um retumbante EU TE AMO já na ponta da língua... calei. Desconsertei: um rapaz passava bem ao lado de minha mulher amada e a remota idéia de que poderia ouvir minha declaração de amor me fez parar. Amor censurado, reprimido, homofóbico...

Certamente essa eu já habitava em mim desde tenra idade. Entrou em mim nos cultos da igreja talvez, ou nos programas de entretenimento da mídia de massa, quem sabe? Em sala de aula, em piadas constrangedoras, em conselhos e críticas todas bem intencionados que continuo polidamente escutando daqueles que me querem bem... não importa.

Importante é que dei de cara com o ser homofóbico falando dentro de mim, em minha cabeça, tolindo minha espontaneidade, reprimindo meu coração, limitando minha expressão de amor e alegria. Agora, identificado, me ponho a me curar dessa doença.

Penso que todo o debate em torno da homofobia tenha me ajudado a identificar essa doença em mim. Que bom, então. Críticas são boas a medida que despertam as pessoas para ações inconscientes dando a elas a possibilidade de mudar.

Mas, e quando a possibilidade de mudança não existe? Quando um preto é criticado por ser preto? Quando uma mulher é criticada por suas características femininas (nosso cheiro, nossa emocionalidade, nossa ternura...) inatas? Será crítica ou será repressão? Num ambiente de críticas constantes como se integrar sem ceder, adoecendo a natureza autêntica em prol de um comportamento artificial que produz pretos de cabelo esticado, mulheres mão de ferro e homossexuais heteroizados...

Identifiquei a doença em mim, agora procuro me curar, enfrentar a fobia que sinto em revelar meu puro eu, livremente, num lindo domingo de sol nas ruas da cidade em que nasci.

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_ Que a sabedoria divina que me faz como sou, perdoe meus momentos de rejeição de minha própria natureza e continue vibrando amor em mim, que me fortaleça, me traga a cura e receba minha GRATIDÃO!

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alcanu
 

Há de se gostar de quem quiser, mas sem exageros, ó pá !
Entre quatro paredes, ok, faça o que quiseres, mas ao vivo e em cores, pensai no trabalhão que deu eduucar minino curtir minina e agora essa puta zona !
Dentro do quarto e com a porta devidamente fechada...
ui, ui, ui !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 1/2/2012 16:40
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