Não entendia porque ficava tantas horas virtualmente ligada aquela casa, se virtual fosse a palavra certa, o que ocorria era uma total entrega, corpo e alma, mais alma do que qualquer outra coisa. O que poderiam pensar os amigos Pedro, Paulo e Rufino diante daquela mensagem animal? Ninguém se alvitrava a convidá-la para sair dali, seria indelicado da parte do atrevido, falar então com ela, romper o silêncio, muito menos. Trafegava aborrecida em seu olhar na sala de estar, na cozinha, nos corredores da pensão, tudo transpirava seu indelicado estado de ser. Delfino foi corajoso ao enfrentar a fera, avaliou o espaço e investiu sobre aquela fortificação com uma arenga enérgica, ela hostil, nem olhares, despejou rápidos passos sobre os ladrilhos da sala e atirou o corpo friorento no banco do jardim, ficou estática confundindo-se com as flores, porém muito mais com os espinhos. Do primeiro do bom dia apenas, foi o bastante para que semanas ficasse ali estática, absoluta no seu submundo de névoa e solidão.
Dias depois, quem sabe, não sei como precisar, Paulo saiu por entre as figueiras extremamente calmo, matutando a maneira mais estranha de se aproximar, pegou o estilingue e viu rapidamente a trajetória certeira da pedra desviar-se com o vento. Pulou involuntária de perder-se por entre os baluartes de concreto que interligavam o velho muro. Que alma ingrata pensou. O terceiro Pedro pegou a correr desesperado saltando feito um tigre sobre uma presa inerte, o que ela se ouriçou os pelos e armou-se em defesa, mostrando os dentes afiados.
Minha mãe do alto da janela gritou asperamente.
_ Deixa a gatinha em paz menino!
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