Makmalbaff, Fellini, Truffaut e a metalinguagem

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Bob Redins · Vitória, ES
17/9/2006 · 110 · 1
 

Atravessando as areias do Afeganistão, nos perguntamos em que área cefálica Makmalbaff nos quer inserir, já que A Caminho de Kandarar poderia ter sido uma ficção e, nada além disto. Mas, o envoltório da culpa nos aproxima, ao invés de nos distanciar deste mundo árabe, proposto pelos ardis do cineasta iraniano.
Assistindo ao filme, pode-se dizer que tudo seja uma ficção em nome da sétima arte, porém, arquivando o noticiário e fundindo histórias da vida como ela é, podemos olhar para a tela, e nos depararmos com o mundo vivo. A ficção – antes aprisionada no deleito esperançoso – transmuta-se em formas ilegíveis e faz com que nós, enquanto espectadores do mundo dirigido sejamos confundidos pela inserção a todo instante do efeito documental.
É claro que Makmalbaff não quer nos confundir, muito pelo contrário, tenta simplificar a todo instante o que é o cinema, dialogando com o espectador de uma forma simples e direta. Não adianta esperar desse cineasta o caligarismo, e sim, refletir sobre até onde o cinema é dissecado de nossas vidas.
Contudo, vemos que às vezes, o cinema não é puro artífice, e sim, um aglomerado de esperanças e incertezas que criam na tela a dúvida sobre o que real e o que é ilusório. A respeito disto, temos também outro filme marcante sobre o tema realidade vs. ficção, ou alguém não se lembra da bela Jacqueline Bisset na sublime arte de representar a realidade? La Nuit Americaine não é se não, a magnitude de Truffaut ao propor que a grande arte de representar poderia ser se não apenas a certaine justice de que o cinema, não é nada mais do que um show de Moliès.
Representando bem o seu papel de diretor, François Truffaut nos leva aos bastidores do cinema, mas nada que se compare ao que Fellini fez em Entrevista, pois, se nesse filme francês você sabe que o diretor está interpretando ele mesmo, no filme italiano você nem se quer se lembra que isto é um filme, assistindo Fellini e sua trupe de primeiro escalão, Marcello Mastroiani e Anita Ekberg, como se fosse um documentário sobre os profundos diagnósticos fellinianos. O que separa Truffaut de Fellini é a capa ilusória que este último consegue jogar sobre os nossos raciocínios, em que em nenhum instante pensa-se que o filme é sobre o livro de Kafka, mas sim, sobre a difícil arte de se fazer uma obra-prima.
Por falar em bastidores de obras cinematográficas, Makmalbaff também não deixa que seus filmes escapem ao tema, propondo como desajuste imaginário o singular Salve o Cinema, em que logo no início o diretor desmascara sua intenção, sejam bem-vindos ao próprio filme. Este filme, que conta à trajetória de atores e atrizes tentando um papel no próximo filme de Makmalbaff é desconcertante para alguns, impensável para os crédulos no cine-arte. O diretor interpreta um papel, enquanto os candidatos vivem vidas inexoráveis, com isto, cria-se uma dualidade ininterrupta entre o que é real e ficção, fazendo na realidade, com que o filme seja um documentário sobre a representação do ser humano diante do desconhecido mundo cinematográfico.
Entretanto, não pense que o cinema sobreviva de suas metalinguagens, pois, se os diretores estão a todo instante buscando uma resposta para o que enfim é cinema, é porque ao propor visões sobre a vida em suas ficções, eles estão apenas construindo um imaginário, mas para isto, nada melhor do que entender o que se quer propor. O Guido de 8 ½, e o Ferrand de A Noite Americana, são nada mais do que seus diretores tentando desnivelar a produção cinematográfica, e fazer com que o cinema não seja habitado apenas por construções sensoriais.

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Bob Redins
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Saulo Frauches
 

Bob,
Classificar uma colaboração como 'cinema-video' no banco de cultura dá a entender que você publicou um filme seu - pois o espaço é voltado para produtos culturais como músicas, poesias, livros, etc.

Como o que você fez é um texto sobre cinema, fica a sugestão de mudar a classificação para texto de não-ficção.

Para mudar/editar, é só clicar no lapisinho amarelo que aparece ao lado do título. Você precisa estar logado.

E você poderia colocar tags como 'cinema', 'Fellini', etc para as pessoas interessadas no assunto acharem seu texto mais fácil.

Que acha?

abs!

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 14/9/2006 19:58
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