Estava numa modorra relaxante a prometer-lhe uma noite de um sono restaurador. Ah! Nada como os lençóis tépidos a acariciar-lhe o corpo numa estação invernal! Teria lindos sonhos com borboletas multicores adejando girassóis em campos verdejantes... Nem mesmo lhe incomodava o dedo nervoso do marido teclando os canais da televisão, como se a procurar uma programação jamais existente, ou, caso existisse, os roncos sempre lhe tomariam a dianteira.
Uma lembrança repentina de um fato consumado tomou de assalto o marido. Não quis esperar o dia seguinte para relatá-lo à esposa e sequer previa o grau de interesse que pudesse ter para ela. Mas os vários dias decorridos, desde que dele tomara conhecimento carrearam-lhe um sentimento de urgência. Tocara levemente no ombro da esposa, que não reagiu. “Amor, amor, está acordada?” – que pergunta inoportuna, incongruente! “Hum, hum, hum? Ainda sem noção espaço-temporal. A pergunta seguinte a tirou por completo do estado de obnubilação: “você tem um primo chamado Dioclécio?” – É verdade que o eufemismo nunca foi muito a sua prática – disso sabia a esposa, mas...
Dioclécio? Tenho, sim! – respondera-lhe a esposa de modo peremptório, num misto de querer apreender o porquê da pergunta e a necessidade de retomar a modorra introdutora do sono severamente interrompida. “Então, tinha, porque ele morreu!
Simone Moura e Mendes
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