Muro, Mural e Resistência Armada.

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Zemh Teixeira · Belo Horizonte, MG
23/6/2009 · 3 · 1
 

Muro

Não faz muito tempo, que já o mundo inteiro, muito bem integrado sorriu ao ver cair o “muro de Berlimâ€. Excetuando os casos extremos de segurança, qualquer muro que cerque pessoas, com as suas atividades, igualdades e opiniões, nos lembra “Cidade-Estadoâ€, frequentes no período proto-civil da nossa civilização. Um muro é muitas vezes mais do que uma instituição. É preciso que admitamos a existência de muros reais e intelectuais, agora digitais. Podemos ir a favor ou contra, o soerguimento de um muro real, ou mesmo digital. Não creio que “muro†de qualquer espécie, seja uma invenção, antes porém, credito a sua origem a descoberta, já que “obstáculos†podem ser encontrados com uma certa facilidade na natureza. Um Muro é um marco, um obstáculo, uma demarcação, uma certeza, um registro, uma tranquilidade, uma tristeza. Até agora só pensamos no muro físico, material. Então precisamos caminhar para o lado da idéia e isolarmos para análise, por um momento um possível “muro digitalâ€, (e isso no sentido de “eletrônico†ou do aprisionamento e uso do Eléctron, acrescentando também o porque do não uso do termo virtual, que embora bastante aplicado, pelo menos para nós, de língua portuguesa tem outro significado). O conservadorismo é uma espécie de “muro da consciência†não é verdade? Como também o é, o dogma religioso, a ideologia partidária, os postulados científicos, filosóficos e até artísticos. Se observarmos o que está acontecendo com todas as culturas, principalmente as pobres no sentido de dotadas de “organismos de preservaçãoâ€, como a nossa, é de dar dó. A comunidade européia elabora neste momento um “Programa Artístico para a Europaâ€, veja bem, não é um “programa cultural†para a “região antes do marâ€. Isso demonstra que por lá, já começaram a separar arte de cultura, tecla que começamos a bater aqui, já há alguns anos. Infelizmente no Brasil isso ainda não passou do “discurso rasoâ€, de bons entendedores, no entanto ainda sem “força políticaâ€. Neste ponto, podemos falar então, da “construção das mídiasâ€, como um “muro digitalâ€, embora estejam mais para “ondaâ€.
Confusão
Praticamente ninguém aprofundou na “questão cultural da civilização brasileira†e vemos bons acadêmicos nos seus erros escolásticos e ultrapassados, ainda falando em “cultura popular e cultura acadêmicaâ€, esquecendo-se que com a formação e pesquisa, o que acontece na academia, é a produção de melhores profissionais e melhores “produtos†e serviços, mesmo conceituais. Tudo isso, que chamaríamos de ciência, junto a arte, a religião e a filosofia, (e hoje, vale lembrar: - cada uma com os “seus diversos ramosâ€, já que a cada dia esmiuçam mais o negócio), essa construção intelectual, acontece em um espaço de vida, manifestação e realização das pessoas e seus projetos, chamado “Culturaâ€, que na prática é único e não divisível. E querem justificar a “arte popular†ou “manifestação cultural popular†como “folcloreâ€, algo “depreciado e quase sem valor culturalâ€, como se o que tivesse valor nesse universo fosse só a sua “praxisâ€. Acaso já estão produzindo cultura hoje? Ou estão sob o nome de “folclore contemporâneo†registrando o uso doméstico de microondas, celulares, e-mail, e internet, ou sob o título de “cultura oficial governamental†a queda “outro dia†do Skylab, ou da Apolo XIII, ou “cultura oficial empresarial da sociedade civil†à queda do 447? ou ainda as mundialmente reconhecidas realizações do nosso presidente proletário? Ou apenas chamam estes avanços, à despeito de suas inúmeras influências no pensamento dos homens de “história contemporânea da civilização ocidental no período pós industrialâ€? e a arte, em um “nicho muito especialâ€, “pós belo, romântico e racionalistaâ€, de “mortaâ€, “objetalâ€, “operacional recurso de intervenção sócio culturalâ€, como se “tudo o mais†não fosse? Quando confundimos, não entendemos a arte e desamparamos toda a cultura e valorosas tradições, agora solapadas pelas “facilidades†a que à frente me refiro. Digo valorosas, porque quando reconhecem “lá fora†um artista, a priori pela sua criatividade, reconhecem ali uma “determinada maneira de pensarâ€, lógico, própria da sua cultura, do seu “mundoâ€, das suas tradições. Mas reconhecem arte, não cultura. Mesmo que assim denominem. Reconhecem “cultura†quando passam por aqui. A cultura é uma instância mais ampla, o produto primeiro de uma sociedade, nas suas épocas e se demarca inicialmente pelos hábitos, cujo primordial identificável é a fala, provinda da necessidade de socialização para sobrevivência...Pela sua manutenção, ou seja pela manutenção da sociedade, é que surge a cultura, que tem na arte e em inúmeros outros comportamentos e práticas demarcado o seu “perfilâ€, seu tipo, seu retrato.
Turismo é Cultura
Quem deve reconhecer a nossa cultura primeiro somos nós, com todos os nossos aparelhos, depois o turista interno ou externo e sua colaboração em caixa. Nisso reconhecemos que “turismo é realmente culturaâ€. Vale lembrar, que tratados internacionais que por natureza constitucional têm força de lei no Brasil, não são e nunca foram respeitados, mas adoçados com as leis de incentivo e outros tímidos investimentos.
Facilidade
Esse espaço único, chamado cultura vem, com o advento da facilidade do transporte de informação, e a sedução dos aparelhos eletrônicos, com suas diversas formas de mensagens e informações, se tornando “por demais múltiploâ€, e com isso perdendo qualidade. Infelizmente, por parte do poder público, são poucos os agentes, departamentos e instituições de fato, gabaritados para preservar a cultura. O que na prática acontece é confundi-la com a arte. Um sem número de “professores insatisfeitosâ€, “técnicos políticos†e funcionários públicos menores, lotam os “departamentos de cultura†das prefeituras e governos estaduais do Brasil, como se a cultura fosse algo menor. Basta notar o que aconteceu recentemente no âmbito da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, que valendo-se da “participação popularâ€, marcada em reuniões sem quorum, destituiu um órgão da administração pública direta, SMC, uma secretaria, para criar uma Fundação, órgão de administração indireta. Isso é “folclore oficial contemporâneoâ€. Enquanto preocupam-se com as suas políticas e parcos reconhecimentos e recursos, o mundo desemboca na vida do cidadão e é manifesta a perda cultural referente “e acelerada†da nossa época. É ainda impossível não falarmos do esquecimento delegado aos saraus de poesia e literatura, as rodas de anedotas, piadas e contação de causo, os bailes populares, os pequenos festivais, o carnaval e as quadrilhas, (que por aqui não são oficialmente cultura), as serestas e serenatas, as comidas e outras tantas manifestações que perecem por falta de atenção adequada, enquanto confundem isso com aquilo. Precisam valorizar uma e preservar outra e para isso é preciso órgãos e pessoal gabaritado e específico.
Arte
Quando falo de arte, falo antes de tudo, de uma instituição universal, um expoente da civilização, falo da arte profissional, cirúrgica, como demonstra ao mundo o Cinema Brasileiro, novelas, a obra literária de alguns, muitos músicos, alguns pintores, alguns nichos do teatro e alguns artistas não-músicos e contemporâneos como Vic Muniz, etc. Toda cidade tem artista profissional, grande ou pequeno, conhecido ou ainda por revelar-se, que vive da arte, respira arte, convive com o mercado e com a sociedade de maneira “não-diletante†e conta através do seu trabalho, da cultura da sua região.
Enquanto o poder público interpreta isso como “cultura†ao invés de pelo menos ver aí “inovações a serem preservadasâ€, (e digo “inovações†porque dependerá de um determinado ângulo de “classificaçãoâ€, onde deve se levar em conta época, origem, local, significados, valores sociais e tudo o que sabemos...exceto política), mas enquanto erra o poder público, as facilidades à solapam.
Público e publicação
Verdade é, que apesar das leis de renúncia fiscal para incentivar a cultura, e dos bilhões nisso gastos, pouco da cultura foi valorizada e preservada e, também nem tudo da arte que de fato, demonstra nossa cultura, ai se revelou.
Segundo dados do IBGE, do senso realizado no ano 2000, tabulados pelo MINC, (Ministério da Cultura), a “culturaâ€, é responsável por quase 8% do PIB e dos postos de trabalho deste país. (Vale lembrar que confundem arte com cultura, chamando de cultura o que é em quase 100% dos casos arte). Ou seja distinguem a “instituição social culturaâ€, pela sua manifestação arte. Não sabem mas todo o PIB do Brasil é o resultado da sua cultura, própria e universal, da sua civilização. A participação da arte nisso, é algo ainda desconhecido, mas creio que chegue a 20%, de PIB e de postos de trabalho, digo profissional, engajado. Por exemplo: não se vende nada, nenhum produto ou serviço, cujo rótulo, e cujas propagandas no rádio, no jornal, na internet ou na tv, não disponham de arte, de artistas, servindo à ciência, à indústria de mercado...e cujos benefícios ao PIB sejam conhecidos e calculados. Os artistas da mídia, reproduzindo comportamentos “ditos de épocaâ€, influenciados pelos anunciantes que pagam as contas, retornam “seus tipos†à “roda da culturaâ€, influenciando a vida das pessoas, como faz a televisão, induzindo-as naturalmente e especialmente ao comportamento e ao consumo.
Os governos precisam se lembrar que sim, “a arte cria e a cultura preservaâ€, ou melhor: -“precisa preservarâ€, o que deve ser preservado. Mas se partirmos para uma pseudo valorização da arte e esquecermos da cultura, acabamos por criar um “elo perdido†no nosso museu. É preciso reconhecer a arte como “expoente significativo, semiológico, pictográfico†da cultura, mas que ‘a arte†não é “a culturaâ€, mas o retrato dela. E preservar a cultura como nossa construção de identidades, de tradições, de comportamentos, de entendimentos, de conhecimentos, inclusive é preciso considerar ai a chamada “cultura contemporâneaâ€, que amanhã “será do ontemâ€. Isso só tem sido feito de “maneira menorâ€, à despeito dos valores que representa. Todos sabemos que apenas “uma certa elite artísticaâ€, das leis se beneficiam e pode então publicar os seus trabalhos. O grosso da cultura ainda espera maná.
Agentes culturais:
- O é todo o cidadão, mas defendo que artistas gabaritados, historiadores e pesquisadores qualificados é quem deveria cuidar da cultura no âmbito do estado. Recenseá-la, classificá-la, fomentá-la dando a conhecer os seus inúmeros números e suas qualidades. Isso o mercado não fará, na amplidão necessária, ainda mais em um país desse tamanho. O mercado continua selvagem, apesar da sua aparente domesticação. Outra coisa que permanece selvagem é o ambiente político, que na nossa forma de democracia participativa, (que reconhecemos que é um avanço), mas ainda na sua melhor aplicação, permite o uso da “participação popularâ€, para justificar as políticas dos administradores, que pelos seus agentes, “engessam†reuniões, conselhos e comissões. E os políticos se esquecem que a central de inteligência americana, estabelecida oficialmente no Brasil desde início dos anos 90, tem missão de investigar os negócios de armas, de corrupção eleitoral e privatização.
É preciso que um certo olhar da sociedade, financiada pelo governo produza, o “folclore de hojeâ€, para o mundo de amanhã. Neste caso, isso só é feito e consagrado através da arte, uma “certa arteâ€, com “certos artistasâ€, que precisa utilizar-se da pesquisa, em profundidade real, “em campo†e não acadêmica “de gabineteâ€, mas utilizando-se de recursos técnicos cátedros, -para retratar para preservação-, o “mundo brasileiro†de hoje.
Mural
Há um grande mural, muito útil no sentido de nos proporcionar informação, mas muito perigoso no sentido de solapar uma cultura, esse recurso é múltiplo e chama-se “midiatizaçãoâ€. De uma sociedade pós industrial e de comunicação, passamos à uma sociedade “midiáticaâ€, de informação e “funcionalmente desinformadaâ€, “quase analfabetaâ€, onde as qualidades de inúmeros recursos disponibilizados pela indústria, cujo consumo é democratizado pelo mercado, acabam por agir como uma “bola de cristal†sobre a cabeça do usuário, perturbando o seu entendimento de mundo e de época, iludindo-o com um falso momento presente, que a cada dia é mais fluido e nisso mais e mais massificando-o em um pseudo estado Zen. É preciso o estabelecimento de “muros concretosâ€, inclusive digitais, afim de que o esteio da cultura, que nos permite identidade, seja mantido e com isso a civilização brasileira com as suas características peculiares se estruture para este milênio que já há quase uma década se nos abre. Se olharmos a rede de comunicação à nossa disposição, TV aberta, Rádio, Celular, Internet... veremos que a possibilidade de resistência ai também, no próprio “malâ€, já se encontra “armadaâ€, precisamos mais e mais, fazer um outro uso desta rede, não nos esquecendo de nos reciclar, com os nossos afins. É encontrando que nos reciclamos.
Recapitulando:
-Existem muros impostos pelo progresso. Há como transpô-los. Existe um grande mural chamado “rede de mídiasâ€, (onde se inclui os diversos aparelhos de transporte de informação, aparelhos digitais, satélites e celulares), que permitem uma integração muito positiva entre todas as tribos da aldeia global. Fundamentalmente isso é um bem. De uma forma geral, é uma coisa positiva mas questionável, no sentido em que pode influenciar demasiado uma cultura, o que é também um bem, se observarmos “um certo nivelamento necessário às épocasâ€, mas que pode vir a ser um mal no sentido de “destruição pela massificaçãoâ€, das características locais e regionais na qual se estribam e se estruturam uma sociedade. É neste mesmo recurso, “Midiáticoâ€, que consiste a possibilidade de “colocarmos em marchaâ€, a nossa “resistência cultural contemporânea local†e regional, uma vez que essa rede já se encontra pronta. Restando ainda lembrar um fator técnico importante: - hoje em dia, é muito necessário a nossa “reciclagem sócio-cultural†“dentro da nossa culturaâ€, e isso fazemos quando nos encontramos.

At. Zemh
Artista, ensaísta, gestor, analista e articulador cultural, especialista em cenografia e serigrafia.

Lua minguante, Outono do ano em que farei meu 45º aniversário
Terça 16 de junho de 2009 12 :00hs – Calendário gregoriano.
Ano Tormenta Elétrica Azul, Décima Oitava onda encantada do Vento Branco. Kin do dia: Semente Elétrica Amarela.

Pc. BHz. MG. BR. Zemh zenbhz@gmail.com


Sobre a obra

Resistência Cultural
Em um universo onde muita gente boa, ainda confunde arte com cultura, a "maçã" que fez com que Eva (sensualidade), induzisse Adão (discernimento), às delícias que se contrapõem às construções; Encontra-se ainda à solta. Agora na forma da midiatização, dispõe merecidamente à humanidade, inúmeras maquininhas de comunicação de sons, imagens e textos, contendo "todas" as informações, dispostas sem nenhum critério de fronteira intelectual, massificando inúmeras culturas, solapando as sociedades com o "digit-analfabetismo", uma vez que pouco conhecimento é daí elaborado em meio à tamanha difusão de conceitos proporcionada. Então são produzidos "muros na consciência", que pelos próprios recursos "murais" desta rede, devem pela resistência cultural serem demolidos, preservando as identidades.

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informações

Autoria

Autor:
Zemh Teixeira
Artista,ensaista, gestor, analista e articulador cultural.
Pesquisador esotérico, hermetista, gnóstico e humanista.
Ficha técnica
1- Cultura.
2- Arte Contemporânea.
3- Turismo (Cultura e turismo).
4- Reciclagem social.
5- Midiatização.
6- Psicologismo.
7- Abstração dramatizada.
8- Civilização brasileira.
9- Resistência Cultural.
10-Gestão de Arte e Cultura.
11-Reflexões do autor.
12-Bibliografia: Nenhuma.
13-Notas
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Cláudia Campello
 

todos os movimentos de transformaçao partiram dos artistas...
pela arte e só pela arte podemos vislumbrar um amanha melhor.
gostei do seu artigo......
que a nossa poli-titica mude.........e logo!!!

bjs♥;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 5/7/2009 17:47
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