O sinal
Lá estava ela. No mesmo local na mesma hora. A manhã se iniciava e ela ainda permitia lutar. A idade já adentrava a primavera da vida, mas a necessidade não deixava fugir de sua insistência. Suas palavras, interminavelmente ditas, restavam-lhe uma interpretação antilúcida de uma verdade não alcançada. O movimento sincronizado de suas calejadas, mas finas mãos, transpareciam o real significado de sua ação.O sorriso nunca correspondido, mas sempre refletido nos vidros de proteção, permitia em sua imagem o medo mito da pobreza. Em cada passo dado, em cada palavra proferida, seu estado neutralizado pela estética impositiva desfazia a função do sonho adormecido. A vigilância hiperbólica de suas atividades criminalizadas permitia-lhe um posicionamento verticalmente inferior, diante da punição inserida no cotidiano seletivo no seu e de seus companheiros de sinal.De carro em carro, de vidas em vidas, aquela realidade aparentemente sediciosa, testemunhava solitariamente o único dos insanos entendimentos camuflados pela caridade exercida.
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