O TRATO
A notícia de que Talas de Marrano caíra enfermo, e parecia definitivo, não despertou em ninguém nas redondezas da fazenda onde ele morava o natural espírito caritativo dessas ocasiões. Houve sim uma expectativa de ver ratificado um trato ajustado entre o fazendeiro e Satanás.
O rico solar da fazenda Galarim, de vasto rossio e umbrosas mangueiras, foi pequeno para conter a multidão em sequiosa vigília enquanto durou sua agonia.
O desejo de comprovar se o diabo cobraria a sua parte no trato — o corpo e a alma de Marrano — fazia a todos inquietos com a demora.
Jamais fora segredo — e o próprio Talas de Marrano detalhava a quem quisesse ouvir — o acordo que o transformara de pacóvio em réprobo da noite para o dia. A transação mefistofélica previra o enriquecimento imediato e o conseqüente usufruto das divícias por longo tempo, sendo plenamente efetivada após o cumprimento de algumas cláusulas consignadas, aquelas que garantem ao fautor não ser debalde o investimento no pupilo. O esforço do aprendiz em disseminar maldades, ora executando desafetos, ora humilhando e expugnando os desvalidos de suas poucas posses, foi apenas o prelúdio do novo caráter e a prova de que o trato era para valer; e foi uma ação tão fulminante que o tornou temido e odiado numa fração pequena de tempo. Satisfeito, Satanás resgatou imediatamente a palavra empenhada, mirando lucros no porvir. Daí em diante tudo se arranjou maravilhosamente bem: as fazendas de gado, os vastos canaviais, os engenhos que não paravam de produzir açúcar e as lucrativas messes sem fim, que — paradoxalmente — pareciam favorecidas pelas mãos de Ceres. O repentino enriquecimento foi uma manobra desairosa aos olhos judiciosos da maioria, e isso lhe granjeou desconfiança e segregação permanentes pela perda dos poucos amigos e o crescimento da legião de inimigos. No entanto, se adaptou bem à nova realidade, afinal nem mesmo as potestades malignas têm a plenitude para engendrar mercês livres de efeitos colaterais. Ademais, a inópia da vida privada era compensada com sobra pelos negócios públicos bojados de esplendor, permitindo isso abdicar de outros prazeres sem queixa; importavam-lhe nessa nova fase apenas a multiplicação do pascigo para os rebanhos — cujas vacas pariam crias aos pares; as searas que medravam igualmente nos chavascais e nos campos ubérrimos; e a produção ilimitada do açúcar mais doce da região, que atravessava os mares para invadir às toneladas os mercados americano e europeu.
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Narrativa serena, segura, compreensível - boa de se ler.
Parabéns!
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