A máquina de escrever seguia implacavelmente o seu itinerário. No canto superior da escrivaninha estavam sobrepostos Dostoiévski, Mary Shelley e Franz Kafka. Nihil parava de vez em quando o seu ofício, bebia um gole de vodca, sorvia um trago do cigarro e recostava-se despretensiosamente sobre sua cadeira. Depois recomeçava o texto. O crec-crec da máquina era o único som audível no pequeno cubículo. O escritor parecia está em transe. Os dedos não paravam. Da tez escorria uma gota de suor.
Nihil, apesar de jovem, mantinha o hábito antediluviano das máquinas de escrever. Suas histórias eram fracas, inconsistentes; contudo, considerava-se um escritor.
O crec-crec continuava. A história ia tomando forma. Subitamente Nihil ouviu uma voz. Andou pelo quarto, foi até a porta e nada! A mesma vozinha renitente começou de novo, só que agora mais forte:
“Você é o culpado!”, disse em tom acusador.
O escritor levantou-se sobressaltado julgando ser tudo aquilo resultado da bebida. Observou cada recanto do quarto, cada fresta; mas tudo permanecia como sempre estivera: toda a mobília recolhida à sua mudez eterna. Sentou-se de novo. O rosto convulsionado, as mãos frias e trêmulas.
“Você é o culpado!”
“Quem me acusa? De que sou culpado?”, retrucou Nihil, tentando recuperar o fôlego.
“Acuso-te do destino que me coubeste. Da lamúria, da minha dor, da solidão que eu não almejava sentir. Em suma, recai sobre ti o peso da minha vida e agora hás de pagar o quinhão que me deves!”
“Pagar... mas quem é você?”
“Ora, ora Nihil... sou tua criação!”
“O quê?”
“Sou o teu personagem!”, disse a voz, com uma nota de sarcasmo.
O escritor deixou cair uma barulhenta gargalhada. Depois se calou. Ficou longo tempo olhando para a folha em branco.
“Meu personagem?”, indagou Nihil.
“Sim!”
“O que você quer de mim?”
“Quero que você sofra!”
“Mas isso é ilógico! Sou criador e você criatura. Você só existe porque eu te criei”, sentenciou o escritor.
“Você tem certeza disso?”, alfinetou o personagem.
“Sim, tenho!”, respondeu Nihil.
“Está vendo aquela janela com vitrais?”
“Sim, estou.”
“Tente abri-la.”
“Mas isso é ridículo!”, retrucou o escritor.
“Abra-a!”, insistiu o personagem.
Nihil levantou-se. Olhou para a janela. Nunca lhe ocorrera antes que uma coisa tão simples quanto abrir uma fechadura fosse soar tão aterrador. Ficou longo tempo refletindo sobre a singularidade da questão.
“O que poderia haver além daquela janela comum, senão o mundo lá fora?”, pensou.
O escritor segurou o ferrolho. Lentamente foi destrancando a janela. Quando a abriu por completo nada viu, a não ser uma tenebrosa escuridão.
“Rá! Rá! Rá! Rá!”, o personagem não conteve o riso.
“O que significa isso?”, indagou Nihil.
“Significa que você também é um personagem... Rá! Rá! Rá! Rá...!”
“Não, não pode ser! Eu tenho uma vida...”
“Claro que você tem uma vida! A vida que alguém imaginou para você!”
Votei Aquinei! Ótimo o seu texto! Crativo! Parabéns!
raphaelreys · Montes Claros, MG 19/1/2008 07:38Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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