PAULO CÉSAR

1
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ
27/4/2010 · 2 · 0
 

- Pois aí, naquele exato momento, dava meia-noite. Então o amigo do meu primo segurou o braço da velha, assim, como eu tô segurando o dele, e perguntou pra ela: “A senhora não tem medo de andar sozinha a esta hora da noite aqui em frente ao cemitério ?†Cês sabem o que ela respondeu ?
- Não ...
- O que que foi ?
- “Isso é preocupação dos vivos, meu filho !†- com uma voz rouca que parecia vir dos infernos. Depois, deu um clarão e ela sumiu ! Olha, eu conheço o cara, é do tipo certinho, que não conta mentira. Inclusive nem acreditava nessas coisas do além. Eu fico todo arrepiado só de lembrar.

Os meninos tremiam de medo ao final de cada história que Paulo César contava. Porteiro antigo de um dos prédios, gostava de reunir a garotada de vez em quando, depois das dez, pra contar por pelo menos uma hora os causos de que tivera ciência. Os personagens eram invariavelmente amigos de parentes, ou amigos de amigos. E havia sempre uma lição de moral implícita nas narrativas. Algo do tipo “Não deboche nem desafie o sobrenatural.â€, ou ainda “Não faça mal aos outros, que tudo volta.†Naquele dia, a plateia insistia para que ele continuasse. Mas o homem estava particularmente cansado. A limpeza da caixa de gordura do velho edifício o deixara exausto. Não era função sua, nem papel de porteiro. Mas um acerto com o síndico garantia-lhe algum dinheiro extra por certos serviços pontuais.

- Deixa pra outro dia, eu tô mortinho hoje.
- Vai, Paulo César, só mais uma, pô.
- Tá legal, tá legal. Eu já contei pra vocês a da carta, da menininha que viu o índio ?
- Não, num tô lembrado ...
- Nem eu ...
- Então conta, vai.
- Bom, o negócio é o seguinte. Era uma menina que devia ter uns cinco, seis anos, afilhada de uma comadre minha, lá de Vila Pacata. A avó tinha um xodó por ela que era um negócio. Quando a avó morreu, a menina ficou uns dez dias de cama, tinha que ver só.
- Morreu de que, Paulo ?
- De qualquer coisa, de velhice mesmo. Teve umas doenças, aí ficou fraca.
- Ah, tá bom.
- Num interrompe ele, pô.
- Então, num bastasse a desgraça - todo mundo gostava da velha, eu mesmo tive a oportunidade de estar com ela umas duas ou três vezes, uma doçura - os pais da menina tavam passando por uma situação muito apertada. Não tinham dinheiro pra nada, nadinha. O marido tinha perdido o emprego, e a mulher quebrava o galho cozinhando uns troços pra fora. Bom, todo mundo sabia que a velha tinha umas economias, tava sempre comprando uma lembrança pra neta, fazendo uma presença em casa, um agrado que fosse. Quando a filha foi acidentada, ela é que bancou tudinho: remédio, radiografia, médico. Aí então que uns dias depois da morte os pais da garota começaram a procurar nas coisas da falecida pra ver se tinha algum dinheiro guardado, qualquer coisa. Mas não acharam coisa alguma. E aí o pai e a mãe da menina não sabiam mais o que fazer, não tinham grana pra comprar nem comida. No sétimo dia, depois da missa, a menina começou a ter umas visões. Era um índio alto, forte e carrancudo, que ficava só olhando pra ela. No começo, os pais acharam que ela tava é impressionada com a morte da avó. Mas o índio continuava aparecendo, a menina morrendo de medo, chorava, e eles não sabiam mais o que fazer. Até que resolveram levar ela num centro, ali perto mesmo, que a avó costumava frequentar. Centro de nível, linha branca, sabe ? Assim que a menina entrou, o dirigente, que incorporava o preto velho, falou: “Ô minina, qui tu tá fazendo cum esse baita índio grande do teu lado ? Chegui mais pra nóis cunversá !†Aí é que os pais viram que não era loucura da cabeça da filha, que tinha mesmo o tal índio. E o preto velho falou que o índio era protetor dela, pra ninguém se preocupar que era do bem. E tinha mais: o tal índio ainda tava trazendo uma mensagem da avó, que só a menina podia ouvir. Foi então que o preto velho puxou a menina pra perto, colocou a mão na sua cabecinha, e a menina começou a chorar, a abrir o berreiro.
- Por que que ela tava chorando, Paulo César ? O preto-velho não era do bem ?
- Claro que era, mas é que a menina tava vendo e ouvindo a avó morta, que tava ali, naquele instante. Mas só ela que podia. A avô tava igualzinha no enterro, abatida, cara de morta, mesmo. A menina, coitada, quase que num aguentou. Mas aí foi passando o medo devagar, ela foi ficando mais calma. Então ela falou pros pais da tal carta.
- Que carta era essa ?
- A carta que a avó, pressentindo que tava chegando a hora, escreveu pra família. Mas aí, antes que deixasse com a filha, veio a morrer. E na carta tava tudinho ali: quanto ela tinha, aonde que tava, uma poupancinha e tudo... Até umas joias de família.
- Pô, que beleza. Se deram bem.
- Essa história foi legal, mas num deu medo ...
- Mas foi maneira.
- E a menina, viu o índio de novo ?

Paulo César iniciou outra história e se despediu em seguida, sob protestos. Gostava de criar um suspense. Infelizmente, nunca veio a terminá-la: desencarnou poucos dias depois. Era um crioulo alto e magro, boa praça. E sabia se virar como poucos. Ninguém soube explicar como é que ele podia ter se metido naquela briga de botequim. Se é que se meteu, pois às vezes a confusão é que vem atrás da gente. Faz cinco anos que ele se foi, e ainda não voltou pra contar como é que é a vida do outro lado. Entretanto, deixou profundas saudades nas almas de todos aqueles meninos.

Sobre a obra

Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".

compartilhe



informações

Autoria
André Calazans
Downloads
530 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 5 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados