As velhas carpideiras vestiam luto. Sob a fraca luz das lamparinas via-se o rosto de quatro rapazes, não chorosos; apenas tristes. No centro da pequena casa sob o véu de renda branca, repousava Maria Domingues da Silva. O ano era 1966. O local: seringal Costa Rica, às margens do rio Abunã.
Manoel Domingues da Silva não chorou quando sua mãe morreu. Seus três irmãos também não choraram. Seu pai se foi da mesma forma, da mesma maleita, em silêncio.
A casa de paxiúba, coberta com folhas de bananeira, ficava à margem direita do Abunã. A canoa com remos, a lamparina luxuriante e o fogão à lenha preenchiam o cenário desse solar.
2006. Lar dos Vicentinos. As lembranças vêm dedilhadas por uma nota de saudade. Manoel Domingues da Silva caminha lentamente até a capela, senta-se. Suas mãos descrevem um desenho sinuoso no ar, trêmulas apóiam o queixo enrugado. Ele não é o mesmo de 1966: os cabelos perderam o viço, o sorriso respinga doses sobejas de enfado “Enquanto eu não morrer, gosto um pouquinho da minha vidaâ€, e silencia.
1966. Os anos de chumbo, os festivais, o iê-iê-iê da Jovem Guarda, a arte pop de Warhol e Lichtenstein, a efervescência de um mundo que se movia, mas para onde?
Manoel se movia. Às cinco horas da manhã, sob chuva ou sol, ele tomava seus objetos e partia para o trabalho - cortar seringa era sua profissão. Voltava à tarde, corpo moÃdo, olhos semi-despertos, apenas querendo uma rede para aconchegar sua alma.
Nas festas não havia o bode expiatório, sobrava sempre para o porco a remissão de tão haustos banquetes. Os violões, as sanfonas, a poeira subia no meio do salão improvisado. Ninguém saÃa até o último crepitar da fogueira.
2006. Lar dos Vicentinos. Manoel está sozinho. Os três irmãos morreram. Nunca teve filhos. Deixo-o da mesma forma que o encontrei: sentado num dos bancos, as mãos entrecruzadas, um sorriso de mármore despenca da boca hiante. Os outros senhores seguem a mesma postura.
“Seu Manoel, qual foi sua maior aventura?†pergunto despretensioso e ele me responde “Não tenho nenhuma aventura, só a minha vida!â€, como se viver fosse um mero ato de banalidade.
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