Quem sabe o que é ser mulher?

1
Carla Pereira da Fonte · Rio de Janeiro, RJ
1/4/2014 · 0 · 0
 

Como ousam os homens em falar em nosso nome sobre nossa natureza! Como ousam ao me obrigar a me fazer representada, diagnosticada, regulada por quem não me conhece (ouvi dizer que nem Freud entendeu as mulheres...)!

E me pego tendo que agradecer ao ditador por permitir a mulher brasileira o direito de votar em qual deles irá comandar nosso destino coletivo... ainda que liderados por mulher, o comando sistêmico é masculino.

Absurdo maior ainda é o de impor seu sistema monetário, de terras e títulos eurocêntrico a nós, tupiniquins, caboclos, nativos naturais da terra. Pertencemos a Terra, privados dela.

Falo em causa própria, da violência que sofro a cada momento em que me sinto, e me sinto, escravizada. Vendendo meu tempo de vida para fazer volume em festa de bacana, pra encher a cara de espumante e sair na foto. Tudo isso custa caro. Funcionária pública concursada, cargo que ocupo por mérito positivista, legítimo e legal (em estágio probatório).

Essa é a consciência que me guia. Mulher mais ou menos. Mas no anonimato da fila: mulher. Invariavelmente em minha trajetória de vida me vejo interpelada sobre minha sexualidade. Pessoas queridas confidenciam-se ao me perguntar, com a mesma naturalidade com que a vizinha do banco da frente no trem puxa conversa de casal. Como se eu não cobrasse consulta.

Preconceito. Nunca me senti ofendida por evidenciar os romances que vivo, sinto-me sim, ofendida por ser mulher, consciente das vantagem que diversos homens tiraram de meu serviço e de meu trabalho, valendo-se de mim para isso, constrangendo-me a cumprir determinada função, dividindo os trabalhos de forma desigual no direito, na matemática, para respeitar a tradição escravocrata, desumana.

A repressão sexual oprime o feminino de forma flagrante, a tradição garante a permanência persistente, resistindo a evolução da consciência coletiva... os privilégios que filhos homens tem diante das filhas na sociedade de tradição bíblica é Lei. A dominação material dos maridos e a expectativa que tem do comportamento ideal da mulher como um ente humano atencioso, cuidadoso, concentrado, fiel, dócil, domesticável, que tudo aceita, concorda e compreende.

Ser Mulher é tudo isso e mais alguma coisa.
Ser homem pode ser tudo isso também.

É fácil ao olhar participante perceber a sedução reprimida, o cio disfarçado, toques de pele evitados na vida real, sucesso nas bilheterias do cinema. Na infância, quando corpos tornam-se proibidos e estigmatizados, aprendemos a esconder o corpo sexual, definir a indumentária correspondente a cultura urbana que te identifica ideologicamente de modo a estar assexuados em público, ou melhor dizendo... frígidos.

O erotismo é tolerado quando fidelizado, monogâmico e heterossexual, mesmo assim com ressalvas e recomendas. Todas as outras possibilidades de relacionamento sexual humano existem vagando entre a loucura e o assédio, o justo e o direito, a fantasia e a representação, na invisibilidade, contaminando todas as consciências por cumplicidade, tolerância, cansaço e acomodação.

Macho. Muito macho. Desde criança exibo minha atitude masculina diante da vida que, somada a expressão feminina, na medida em que o feminino acontece em mim, confunde e contraria nossas relações familiares, nosso meio doméstico, mesmo quando comercial e profano.

Saindo da invisibilidade diante da sociedade, agora é preciso saber lidar com a conotação sexual das relações humanas, reveladas quando se fala de homossexualidade por força de sua definição. A repressão sexual está em xeque, constrangida, fóbica: _ Como responder a curiosidade das perguntas das crianças quando querem saber sobre homossexualidade e ao mesmo tempo conservar o padrão de repressão que nos trouxe até essa nossa admirável sociedade humana?

Não me sinto menos mulher por estar preferencialmente com mulheres, mas sim por não ser mãe. Ao menstruar deixei de ser criança, tornei-me mocinha. Transar não causou em mim o mesmo impacto, embora tenha amadurecido minhas relações humanas, pessoais...

Há um equívoco muito grande em considerar que com o ato heterossexual a moça perde a virgindade tornando-se mulher... isso só acontece ao parir.

Ser anormal é para poucos... Amadureço diante das novas gerações na relação com meus sobrinhos quando experimento o ser tia: mãe sem tensão.

Sobre a obra

Reflexões sobre a condição de mulher, homosexual, na cultura dominante.

compartilhe



informações

Autoria
Carla da Fonte
Ficha técnica
Carla da Fonte
Downloads
152 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados