Em 5 de janeiro de 1979, uma patrulha da brigada militar alvejou, pelas costas, um motociclista de 17 anos. O ato desencadeou a única revolta de motoqueiros contra o regime militar. O fato foi transformado em ficção por Leandro Malósi Dóro.
Abaixo o primeiro capÃtulo. O restante se encontra no PDF.
Há poeira dentro do cano das torneiras de ferro que ardem ao sol
Gustavo desamassa, com um martelo de borracha, o escapamento de uma CG 125, 1978, gerando estrondos que chocam como metal em seus ouvidos. Dá cada martelada com a convicção de que exerce a profissão correta: mecânico de motos.
Observa a rua em frente à oficina. O sol que se reflete nos paralelepÃpedos faz seus olhos verdes lacrimejarem. Com a mão e o braço, limpa o suor do rosto sardento, ainda com poucos pêlos, à maneira que viu outros mecânicos fazerem.
A seca persiste há quarenta dias em Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul.
Seu chefe na oficina conversa, ao telefone, com o irmão, que é subversivo, dizem os vizinhos. Por ser motoqueiro e cabeludo, Gustavo também é denominado subversivo, pelos mais velhos. Porém, desconhece por que o irmão de seu chefe luta para acabar com a ditadura militar. Nunca viu nada diferente de generais sendo escolhidos pelo Congresso Nacional. Tinha três anos de idade quando houve o Golpe Militar de 1964. Agora, aos 17, pensa na profissão, na namorada e na moto recém adquirida.
- Chefe, terminei a CG. Posso ir?
- Tudo bem, Gustavo. Amanhã venha às oito e meia.
Lembrança desnecessária. É seu terceiro mês de trabalho nessa oficina. Seu primeiro emprego. Chega sempre antes de serem abertos os portões, mesmo agora, fevereiro. O salário de auxiliar de mecânico permite pagar as parcelas de uma Gilera 125 cilindradas, ano 1972. Seu pai aceitou que a comprasse, mesmo o filho sendo menor de idade.
Gustavo liga o chuveiro da oficina, mas não há água. A seca gera racionamento. Troca o macacão por jeans e camiseta limpas. Dá a partida em sua moto. O bramir do motor parece um riso que ecoa dentro do capacete. Irá para casa e depois vai se encontrar com Luciane, a namorada que conheceu há uma semana, em uma festa do Clube dos Motoqueiros.
Transita por entre edifÃcios de dois a quatro andares, alguns recém-pintados e outros velhos e de decoração empobrecida, entre ruas onde pessoas passeiam, conversam e cumprimentam umas à s outras, ao final de tarde bucólico de cidade distante das praias.
Dá uma volta completa na praça em frente a Catedral e passa diante dos dois únicos cinemas. Na rua Morom, acena para Rodrigo, presidente do Clube dos Motoqueiros e amigo de infância, que está em frente a loja de eletrodomésticos onde trabalha como vendedor. Ambos sorriem com igual ânimo do último sábado, quando foram com as namoradas à grande boate da cidade, o Escadão.
Gustavo dobra a esquina, rumo à Avenida Brasil.
As veias das têmporas latejam. Vê uma batida policial à sua frente. Há uma viatura, um fusca, na avenida, com policiais analisando documentos. Perderá a moto, se souberem que ele é menor de idade. Desvia pela XV de Novembro. Seu motor ecoa pela cidade sonolenta naquele final de tarde sem nuvens.
Uma sirena.
Os policiais o perseguem. Gustavo dobra a esquina. A moto trepida pela irregularidade dos paralelepÃpedos da rua. A viatura surge no retrovisor. Freia a moto diante de um lento caminhão de melancias. Manobra à direita. Ruma para casa, a duas quadras dali.
O sol ofusca o motoqueiro, que sente a testa oleosa de suor. Vendo aquela luz cegante, ouve tiros. Seu braço direito e o peito formigam, esquentam e ardem.
Desequilibra-se. A moto rodopia até a calçada, jogando-o para o outro lado da rua. Cai quase em frente à casa dos pais. Sua cabeça quica como bola de basquete. O céu, antes azul, avermelha-se. Mais no PDF.
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