É impossível dimensionar o que o advento do celular fez com as obras de ficção. Pago pra ver quantas vezes “Fulano (Falando no celular)” apareceu nos roteiros de cinema e televisão na última década.
Por mais de trezentos mil anos nos comunicamos cara a cara, olho no olho, e agora de repente podemos ficar online em qualquer lugar e falar com o Japão, o Cazaquistão e onde o Judas perdeu as pregas. Já até prescindimos do aparelho, como previram Clark, Gibson e outros, e o ponto no ouvido quase não aparece.
Outro dia, numa festa, vi um cara gritando e gesticulando no meio da muvuca. Na hora pensei que fosse louco, mas logo me disseram que falava pelo ponto ultra-sofisticado que tinha no ouvido.
Numa cena de telefone o ator interage consigo mesmo, e nem todos são convincentes. Há inclusive um novo filão em holywood, que é o roteiro do “celular-bomba”. Mais de meia dúzia de filmes já foram feitos seguindo a seguinte estrutura macabra: um desinfeliz atende a celular e alguém fala: “To aqui com uma arma apontada pra cabeça da sua mulher e da sua filha e vou estuprar e matar as duas se você não fizer isso-e-isso-e-isso.” O celular é o vírus, a porta para a maldição e o sofrimento com a qual ele interage por duas horas de projeção.
Juro que já vi, em mesa de boteco, mesa com dez pessoas e as dez falando no celular com outras pessoas. Ninguém se entende ou todo mundo se entende perfeitamente bem? Juro que não sei. E juro não jurar mais nada.
Se você vai ao teatro ver um clássico, um titã falando com o outro no espaço exíguo de um palco, e sabe que as pessoas esclarecidas da classe média desligaram os seus celulares, fica devidamente instalado num útero quentinho e intrigante.
Mas ainda pago ver uma releitura realista e contemporânea de Édipo Rei, por exemplo:
CREONTE - Não venho aqui te insultar Édipo, nem para reprovar teus antigos erros. Mas vós, tebanos, se não respeitais a criatura humana, respeitai ao menos a chama sagrada do sol, que tudo anima! (Toca o celular): Só um minutinho que é importante... alô! sim, sim, pode confirmar. Manhã eu passo no banco e acerto isso. To fazendo uma elucubração filosófica. Tchau. (De volta para Édipo): Ocultai esse homem, imediatamente, no interior do palácio; só entre parentes é que há sentimentos de piedade ao ver e ouvir os males dos que lhes são caros....
ÉDIPO – Pelos deuses! Grato me é te ouvir, e surpreende-me a tua generosidade com o maior dos criminosos etc etc.
bom seu texto.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 7/10/2008 20:12Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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