Sobre o “jeitinho” e o “complexo de vira-lata"

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Luiz Geremias · Curitiba, PR
8/2/2011 · 1 · 0
 

“E aqui eu pergunto: quem é disciplinado neste país? Eu próprio respondo: ninguém. De resto, se vamos tirar do brasileiro a indisciplina, que é uma das suas mais fidedignas características nacionais, ele perderá muito do seu charme, do panache”.
Nelson Rodrigues

Basta ler um jornal ou assistir à imprensa televisiva que penso: esse pessoal está pensando que o mundo ideal é aquele habitado por robôs. Todo o tempo, o tom é de censura a tudo aquilo que não anda estritamente na linha, “como deve ser”, como se o ser humano fosse um boneco de corda, ou devesse ser.

A palavra “impunidade”, por exemplo, é repetida insistentemente por muitos jornalistas e, por conseguinte, por muitas pessoas que estão fora da tela, que acabam, em grande parte, escorando seu pensamento pelas mensagens midiáticas, repetindo isso sem pensar muito. Tudo indica que punir quem comete erros ou quem não anda estritamente na linha é a solução para a boa qualidade de vida. Certamente o é, numa civilização de autômatos.

Há, porém, um tempero que deve ser posto nessa conversa. Em primeiro lugar, não somos robôs ou bonecos e, assim sendo, cometemos erros acima da conta se tomado em conta esse parâmetro. Todos, sem exceção, descumprimos normas básicas de convivência, enganamos e mentimos, não cumprimos todas nossas obrigações nem amamos o próximo como imaginamos que deveríamos. Isso é bom? Certamente não, se considerarmos a lógica “democrática” e “cidadã” da imprensa. Mas, tem inegavelmente seu lado positivo.

Se, ao invés de ficar apontando erros, enganos, malversações ou pecados, pudermos abrir um pequeno espaço de pensamento para pensar o que representam as manifestações que declinam do modelo aceito e oficializado, certamente aprenderíamos mais e poderíamos viver numa realidade bem melhor.

Em primeiro lugar, é preciso entender que toda e qualquer contravenção está moldada pela regra desrespeitada e que, acima disso, porém, está o humano, que, principalmente se falamos do brasileiro, é essencialmente insatisfeito e efetivamente candidato a inúmeras falhas e afrontas às leis.

Há um motivo histórico para isso. A filósofa Fernanda Carlos Borges escreveu um livro chamado “A Filosofia do Jeito”, no qual conta que o tal “jeitinho brasileiro”, essencialmente opositor das normas impessoais da democracia europeia, tem origem exatamente no momento em que ocorre o processo de modernização industrial do Brasil. É que, naquele momento, as relações sociais, que antes eram estruturadas pela pessoalidade, começam a se modificar e se voltar para a impessoalidade – imparcialidade, segundo a autora.

A proposta “moderna” chega, assim, ao país e a grande imprensa, desde então, muito embora pareça ser frequentemente pouco impessoal ou imparcial, passa a adotar essa ideologia. De dedo em riste, a cordialidade brasileira, significada pelas relações pessoais, é acusada pela mídia de todo e qualquer mal, indo desde a corrupção política até os favorecimentos diversos que ocorrem, e sempre ocorrerão, nesse e noutros níveis. Oculta-se, porém, que as relações “modernas” também são pessoais, tão ou mais do que as cordiais, apenas são marcadas por um discurso de impessoalidade que é estratégico para todo e qualquer poder. Não é à toa que existe o dito, muito usado em política: para os amigos, tudo; para os inimigos, o rigor da lei. Tomando isso em conta, o jeitinho é bem menos hipócrita.

Mas, de certo modo, essa postura midiática é sustentada por algo que Nelson Rodrigues chamou de “Complexo de Vira-Lata”, que é uma espécie de vergonha de ser brasileiro. Essa vergonha está atada à noção de que somos muito pessoais e cordiais em nossas relações, o que significa um atraso, que somos, desse modo, um povo inferior ao europeu, absolutamente imparcial e frio. É realmente, um sentimento de inferioridade que parece acompanhar a subjetividade nacional e que a imprensa é o seu principal veículo, em vez de nos ajudar, fazendo-nos pensar se, afinal, somos piores que o chamado “mundo civilizado”, por não sermos iguais a ele.

Nelson Rodrigues nutria uma verdadeira admiração pelo brasileiro e tentava nos fazer ver que esse complexo é estúpido. Para ele, o brasileiro vive com intensidade, enquanto o europeu faz uma imitação da vida. É o que afirma no texto “Um Escrete de Loucos”, escrito em 1962, logo após a vitória brasileira na Copa do Mundo realizada no Chile.

“Aí está: no velho Mundo os sujeitos se parecem como soldadinhos de chumbo. A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul americanos. Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana.”

Mesmo que recuemos diante de tanta paixão, que a tomemos com cuidado e prevenção, é preciso pensar o quanto o Brasil, ou qualquer outro lugar do mundo, dá ensejo a práticas criativas que não necessariamente estão de acordo com os melhores princípios democráticos, principalmente se pensarmos que a democracia é apenas uma estrutura de poder, não pode ser um molde de produção de um humano ideal. E nunca é demais lembrar que um dos princípios democráticos é a abertura de espaço para a manifestação de todo e qualquer cidadão. Se tomarmos apenas o idealismo da proposta democrática, se ficarmos acusando quem não consegue se manifestar segundo as regras – na verdade, quem é pego fazendo isso, pois todos o fazem, vide a Fábula das Abelhas, de Mandeville – não entenderemos nada e acabaremos promovendo uma forma de vida pobre e infinitamente burra.

Cabe lembrar, novamente, que a contravenção está condicionada pela regra contrariada e que, mais que tudo, divergir, “fazer o errado”, é uma mensagem, uma forma de manifestação que ensina a todos os membros de uma cultura, que há tópicos e aspectos não satisfatórios nas regras, normas e leis, quando não são elas por inteiro que causam justificada insatisfação. Em suma, que há muitas coisas que devem ser repensadas e outras tantas que precisam mudar com certa urgência.

Além do mais, quem desrespeita um limite está, sem qualquer dúvida, afirmando a importância desse limite e, se deve ser tratado como tal na medida da punição, também precisa ter reconhecida a sua concordância fundamental com o que é desrespeitado. De certa forma, está contribuindo para a melhoria das leis, normas e regras diversas e, assim, dando também sua contribuição para a melhoria da cultura em que vive e, em última instância, reforçando a estrutura democrática que deve lhe garantir espaço de expressão dentro de seus canais. Se esse espaço não existe para todos, como ocorre na nossa realidade, há que se tolerar mais as manifestações fora dele. Afinal, como dito, elas ocorrem no grande espaço da cultura humana e, se tivermos humildade, podem ensinar algo.

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