A dúvida!
Eis a coisa, presente, brotando com sua capa negra do íntimo menos conhecido, na hora mais imprópria. E o pior: sem ser convidada!
_ Ô, Dona Dúvida! É, você mesmo! Psiu! Presta atenção, estou falando com você!
_ Que foi, moleque?
E ainda me chama de moleque logo no momento que tenho que decidir se caso ou continuo solteiro e convicto. Mas mantive a serenidade digna dos maduros e indaguei:
_ Como se atreve a colocar em xeque minha vontade de casar e ter filhos, de construir uma história com a pessoa que am...
_ Besteira!
_ O quê?
_ Esse papo de casamento já venceu - disse a dúvida com ar de sabedoria. Hoje em dia, no máximo, juntam-se os panos!
Estanhei a veemência com que a dúvida marcou sua opção. E também o palavreado, mas só depois as coisas ficariam claras. Ela insistiu:
_ Nos tempos modernos, globalizaram-se as relações. Todo mundo é de todo mundo!
_ Como assim? E a família tradicional?
_ Como você é antigo! Imagina só que você está passeando no shopping com sua namorada e passa do seu lado “aquela” loira, linda, cheirosa, maravilhosa. Solteiro você poderia dar meia volta e, no mínimo, descolar o telefone dela.
_ Mas minha namorada é linda, cheirosa e maravilhosa. E também está loira – retruquei.
Mas como a dúvida tinha vindo sem ser chamada é claro que ela não iria desistir tão facilmente.
_ Tá bom! Mas você já pensou que casando você perderia o direito àquele futebol de terça-feira, aos pagodes de sábado à tarde, aos jogos na casa do seu compadre...
_ Minha namorada é muito “tranqüila”!
_ Agora! Quero ver depois que vocês casarem, tiverem filhos e os catarrentos começarem a berrar nos seus ouvidos, consumirem montanhas de fraldas e papinhas, e os médicos diagnosticarem que sua conta corrente está sofrendo de “falta de fundos” e blá, blá blá, blá blá...
Percebi naquele momento que, definitivamente, alguma coisa estava errada. Todas as vezes que a Dona Dúvida apareceu – e não foram poucas! – ela tinha sido convidada a dialogar e contrapor argumentos no intuito de clarear a realidade. Dessa vez, entretanto, ela tinha “dado as caras” num momento totalmente inoportuno e sem ser convidada, falando horrores e sem a parcimônia de outrora. Desconfiei que havia algo errado. Olhei-a fixamente e ela mais uma vez advertiu:
_ E toda a probabilidade de você construir o império que sempre sonhou desaparecerá quando ela lhe abandonar e virar as costas para você!
Dizendo isso, ela virou e pude perceber que por baixo da capa saía a ponta de um rabo. Um rabo. Do capeta.
Aí tudo fez sentido.
Rapaz,
Não sei se por descuido ou pressa, ainda não tinha lido você aqui
neste overmundo. E olha que leio bastante, principalmente os mineiros. 1º Porque em Minas, quem não é contista é poeta, quando não as duas coisas.
2º Porque sou Mineiro.
Você é assim, mais uma boa surpreza.
Abraços.
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