Nome: Zé. Sobrenome: do Ponto de Ônibus. Ãrvore genealógica: indecifrável. A tez transparece o mosaico de etnias que compõe seu DNA de brasileiro com b minúsculo, minúsculo pelas derrotas impostas ano após ano por um ente chamado destino; para poucos sinônimo de fortuna, para maioria, de fatalidade. Na mão direita ele carrega uma pasta de couro preta, envelhecida, de alças enferrujadas e que exala um pitiú infinito, a bolsa assenta com a calça marrom desbotada e a camisa creme de gola puÃda e sem os botões das extremidades da manga, mas lhe falta tanta coisa na imensa solidão da metrópole, que um botão a mais ou a menos não fará diferença alguma. Uma gravata com detalhes esotéricos folga em seu pescoço, pois já basta os apertos que a vida dá.
17:33 minutos. Ele chega virtualmente esbaforido no ponto de ônibus. Olha o relógio. Os ponteiros estão parados. Tira o celular da cintura. Acabou a bateria. A solução, como sempre, é recorrer ao vizinho:
_Que horas são?
_Dezessete e trinta e seis.
_Pôxa vida, perdi meu ônibus. Passa antes das cinco e meia.
O interlocutor não responde e ele continua o monólogo:
_O abestado do meu chefe tá um saco. Tomou um corno lascado. Foi viajar, sabe, e a mulher caiu na bagaceira do Clube Municipal. Dizem que a dita cuja foi encontrada lá no beiradão, três dias depois e até o tucupi de cachaça. Pode? Mas eu acho é bom, pois tô pegando abuso daquele sujeito. Tenho culpa se acocharam a mulher dele?
O interlocutor balança a cabeça, em sinal de desaprovação.
_Ainda bem que não sou chefe. Mas não tenho culpa do problema dele e ele quer descontar em mim, não é...
Sem despedida, o vizinho interrompe a construção da frase interrogativa com uma carreira desabalada para adentrar no seu ônibus, que já chegou apinhado ao ponto.
_Tchau, amigo. Lembranças à famÃlia.
Alguns passos adiante dentro da proteção urbana...
_Tá vendo aquele que estava do meu lado?
A jovem morena de cabelos pretos e belos olhos verdes responde automaticamente um reticente sim.
_Ele é muito arrombado. Meu amigo de velhos carnavais. Vou te confessar que ele está até me devendo dinheiro, mas como sei que precisa, nunca cobrei. Bebe muito. A mulher é hipertensa. O filho drogado. Mas ele é gente boa. Gente boa meeermo!
A jovem continua vidrada no pequeno horizonte, tentando antecipar-se à chegada do ônibus e assim evitar a confusão na porta de entrada. De quando em vez concorda sem nem saber realmente o que Zé está falando, até que finalmente chega a condução que dará um alento à sua vida, atenuando o sofrimento diário:
Mas Zé é insistente, como reza aquela famosa mensagem motivacional e nacionalista: “sou brasileiro e não desisto nuncaâ€, e continua sua sina na parada de ônibus, abordando mais um passageiro:
_Viu aquela que saiu do meu lado? Ela é muito chibata, né?
_Trabalha comigo. Tivemos algo no passado, mas hoje temos só uma grande amizade. Ela veio com arrumação pra cima de mim, mas entendeu que eu não iria me separar de minha esposa.
Ele compra duas balas de hortelã pra tirar o amargo da boca e oferece-a ao novo interlocutor, que recusa gentilmente a oferta:
Ainda assim, Zé continua falando ao vento naquela parada lotada.
_Esse é o nosso trabalho e a nossa vida, feita de pequenos momentos, dessa bala de hortelã que adoça a nossa boca e dos esporros que tomamos dos nossos injustos patrões. Mas não há de ser nada, pois quando chego em casa tenho o sono dos justos, acarinhado pela minha amada esposa que me espera com um sorriso nos lábios e um copo de café na mão. Café preto e encorpado filtrado num coador de pano, das antigas. E na sala encontro meus curumins sentados à mesa fazendo dever de casa e de seus lábios saem um sorriso de alegria ao ver o pai, que eles dizem tanto amar, e eu acredito piamente, retribuindo com um abraço bem apertado e com o pão quentinho que trago debaixo do braço, após um dia inteiro de labuta. Imediatamente a minha filha tira meus sapatos, o filho livra-me da pasta pesada e a minha esposa aquece meus pés com água morna, massageando-os com gel de eucalipto e bota a rede no armador. Que mais posso querer de Deus, meu amigo?Que mais posso querer? Olha para o meu bolso, olha pra aqui pro meu bolso. Estou levando um saco de bombons para os meus filhos e no caminho sempre colho uma flor para a minha esposa. Aprendi com meu pai. Ele sempre tratava bem a minha mãe e meus irmãos, pois cria na famÃlia como acreditava na vida. É por eles todos que este ponto cheio e esses ônibus lotados valem a pena. A vida pela vida, o sacrifÃcio por algo maior, pela perpetuação daquilo que chamamos de raça, e nós, todos nós que estamos nesse ponto de ônibus lotado nos sacrificamos dia a dia para mover o mundo, para que a terra gire e nos multipliquemos como pediu Deus, ou Jesus, não estou bem certo de Quem foi, mas tenho certeza que está na BÃblia Sagrada.
O interlocutor não responde. Tão somente acena com a cabeça, concordando com ele, menos por acreditar naquela realidade e mais por que, àquela altura do campeonato, não cabem julgamentos ou análises sobre a realidade e a vida alheias.
E assim um a um os passageiros seguem as suas trajetórias, restando, no inicio da madrugada, tão somente os prédios cinzas, vazios e suntuosos da Ponta Negra e a iluminada fachada do Hotel Tropical, o Largo de São Sebastião a Orla do São Raimundo, a Avenida Djalma Batista e o Parque do Mindu, restando, também, o solitário Zé do Ponto de Ônibus, nesse instante envolto na solidão da urbe, pois não tem pra onde voltar e assim só lhe resta manter-se naquela parada, depois de tentar por horas a fio fazer parte de algo, fingindo esperar uma condução fictÃcia com itinerário idem, que o levaria para um lugar inexistente, para um lar que não se encontra em lugar algum fora de si mesmo, tentando dividir com a multidão as agruras do dia a dia e trocando confidências e comentários com os mais próximos: reclamando da vida e do governo, elogiando a educação e o respeito de filhos que quiçá existem, discorrendo sobre a suposta esposa que o aguardava em casa, criticando a postura de uma empresa fictÃcia que lhe negara o aumento desejado e a promoção merecedora:
E então, após encenar por horas a fio, o ermo Zé do Ponto de Ônibus, que já perdeu tudo na vida, até o nome de batismo, cansado e sem ter pra onde ir, tomba seu frágil corpo vazio no banco frio do ponto de ônibus, e sonha até o amanhecer com os filhos fictÃcios, com a esposa idem e seu lar harmonioso construÃdo sobre a brisa, acompanhado apenas pelas varandas vazias dos prédios altos, acinzentados e escurecidos pela noite de estrelas pequenas e grandes que pairam no céu azul e só acordará pela manhã, cedo, recebendo nos ombros as vassouradas risonhas de um suposto insano, que talvez esteja feliz e regozijado por encontrar na urbe mais uma invisÃvel tragédia, tal qual a sua.
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