40 anos depois, A guerra dos mundos é recontada

Livro reconta “o dia em que os marcianos invadiram a terra”, ou São Luís
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Zema Ribeiro · São Luís, MA
15/1/2012 · 28 · 0
 

Não foram poucas as vezes em que adentrei o Bar do Léo e dei com sua presença, a elegância de um Vinícius de Moraes, o cachorro engarrafado amarrado na coleira, o abraço efusivo de Parafuso vinha cumprimentar-me, feliz senha. Às vezes dividia a mesa com ele; às vezes ocupava outra, onde ele cedo ou tarde parava, nas suas idas e vindas ao banheiro ou outra andança qualquer no recinto, onde ambos nos sentimos em casa. José de Ribamar Elvas Ribeiro ganhou o apelido Parafuso ainda no colégio: um dia o diretor passou pelo corredor, olhando para dentro da sala de aula e o viu sapateando sobre a mesa do professor. “Carrapeta era mais apropriado. Eu estava dançando. Parafuso, você bota ele ali, ele morre ali, enferrujado. Dizem que apelido só pega se você se zangar. Eu nunca me zanguei e esse pegou”, relembra.

Entre várias outras histórias que conta está a de A guerra dos mundos, transmitida pela Rádio Difusora, em outubro de 1971, prima menos conhecida da famosa transmissão da adaptação do livro de H. G. Wells por Orson Welles, cineasta que viria a se tornar mundialmente famoso com o clássico Cidadão Kane, tido por muitos como o melhor filme de todos os tempos. “É um filme paidégua”, define Parafuso, que também contará a história dA guerra dos mundos em um livro de memórias, em fase de revisão. “A história já está contada, mas não posso deixá-la de fora”, diz.

Em 1898, H. G. Wells publicou A guerra dos mundos, encerrando a trilogia iniciada com A máquina do tempo (1895) e O homem invisível (1895). Quarenta anos depois, em 30 de outubro de 1938, véspera do dia das bruxas americano, para comemorá-lo, Welles levou ao ar uma adaptação radiofônica da mesma história. Em 31 de outubro de 1971, um dia depois de a Rádio Difusora completar 16 anos, era a vez de a história ganhar uma versão maranhense. A diferença: a população dos Estados Unidos que chegou a ouvir o programa na CBS, à época, sabia tratar-se de uma obra de ficção, e “qualquer semelhança é mera coincidência”. No Maranhão, o programa se passou por ficção justamente para não ser censurado pela Polícia Federal, pois, se fosse anunciado como jornalístico, fatalmente seria retirado do ar.

“Difusora, ficção científica baseada em Orson Welles”, anuncia a vinheta, de vez em quando. O detalhe é que ela foi colocada depois, toque de gênio de Parafuso, espécie de Garrincha da sonoplastia, driblando a censura e a ditadura vigentes – a censura prévia havia liberado o programa, em um provável cochilo do funcionário da Polícia Federal.

O Jornal Pequeno de 31 de outubro de 1971 estampou na capa a manchete “O fim do mundo do Bacelar”, alusão ao, na época, proprietário da rádio que veiculou o tal “apocalipse”. O Imparcial, na mesma data, cravou em sua capa: “Ficção científica alarmou a população”. O episódio ficou nas lembranças de quem o fez e ouviu, depois caindo no esquecimento.

Somente em 2004 o professor Ed Wilson Araújo jogou luz à questão: o artigo O dia em que os marcianos invadiram São Luís, publicado no quarto número do jornal da Rede Alfredo de Carvalho, redescobria o acontecimento. Foi por conta dele que o inglês John Gosling dedicou um capítulo à Guerra maranhense em Waging the war of the worlds [Jefferson and London: Mc Farland &; Company, 2009], algo como “Travando a guerra dos mundos”, em tradução livre No entanto a versão maranhense dA guerra dos mundos foi ignorada em Rádio e pânico: a guerra dos mundos 60 anos depois [Insular, 1998], organizado pelo pesquisador Eduardo Meditsch.

Mas a história fantástica só teria versão definitiva com o lançamento de Outubro de 71: memórias fantásticas da guerra dos mundos [Edufma/Fapema, 2011], organizado pelo pesquisador Francisco Gonçalves da Conceição, jornalista, doutor em Comunicação e Cultura (UFRJ), professor do Departamento de Comunicação Social da UFMA. Eduardo Meditsch, autor do livro com o lapso citado, assina o prefácio.

Outubro de 2011, 40 anos depois do fato, Gonçalves e sua equipe de alunos-pesquisadores contariam a história daquela manhã de sábado: os ouvintes esperavam o tradicional Difusora Hit Parade – programa também conhecido como São Luís Hit Parade ou simplesmente Paradão do Rayol, em óbvia alusão ao nome do apresentador – que trazia as 24 músicas mais tocadas da semana. A certa altura, o locutor começa a narrar uma suposta invasão alienígena à Terra, em particular à capital maranhense e seus arredores, o Campo de Perizes, única saída da ilha por via terrestre.

O fantástico ganhava tons reais, dada a credibilidade do rádio àquela altura – quando televisão era “coisa de poucos ricos” –, com flashes ao vivo, entrevistas com especialistas e a sonoplastia de Parafuso. Outros “envolvidos”: José de Jesus Brito, o Sérgio Brito (roteirista); Manoel José Pereira dos Santos, o Pereirinha (direção técnica); José Marinho Raiol Filho, o Rayol Filho (locução); e José Faustino dos Santos Alves, o Jota Alves (repórter) – este morria durante a transmissão, conforme previa o script do programa, escrito por Brito a partir de matéria que ele leu na Ele &; Ela sobre o episódio americano. Detalhe: a mãe do repórter não havia sido avisada e podia estar ligada no programa de rádio mais ouvido da época enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Todos estão vivíssimos e dão longas, detalhadas e engraçadas entrevistas ao projeto que virou livro, publicadas na íntegra, mantendo os coloquialismos e mesmo as contradições entre umas e outras lembranças.

Para Kamila de Mesquita Campos, uma das pesquisadoras envolvidas na feitura do livro, estas entrevistas, realizadas entre 2005 e 2006, foram o momento mais marcante do processo: “Os relatos deles nos proporcionaram uma viagem não só aos bastidores do programa, mas ao rádio na década de 70 e à sociedade maranhense da época como um todo”, relembra. Ela, como os outros pesquisadores, nunca tinha ouvido falar nA guerra dos mundos até receber de Francisco Gonçalves a sugestão de pesquisar o tema, formando um grupo, orientado por ele, com Aline Cristina Ribeiro Alves, Andréia de Lima Silva, Elen Barbosa Mateus, Karla Maria Silva de Miranda, Mariela Costa Carvalho, Rômulo Fernando Lemos Gomes e Sarita Bastos Costa. À época, estudantes, hoje todos formados em Jornalismo ou Relações Públicas.

As entrevistas nos levam a descobrir que a ideia era festejar o aniversário da Difusora, ganhar audiência e demonstrar o poder do rádio. Lida a sinopse da adaptação radiofônica americana, Brito acresceu detalhes maranhenses à trama, apresentando sua versão da história. O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, nascido no abril anterior à fundação da Difusora, recorda aquela manhã: “As imagens que residem na minha memória são de uma manhã de sábado, mamãe ocupada com os afazeres domésticos e o nosso rádio ligado, numa cômoda feita de caixote de madeira, transmitindo o programa que era o mais ouvido em toda ilha. Lembro-me do desespero que tomou conta dela e do rapaz ouvinte/curioso que naquela manhã não saiu de casa e ficou com o ouvido coladinho nas notícias, tentando traduzir para ela, a todo momento, o que estava acontecendo. Ele (eu) também envolvido pelo clima de pânico e certo de que o final dos tempos estava chegando e que iríamos todos, literalmente, ser reduzidos a pó. Muito choro e desespero e até a possibilidade de nos atirarmos do alto do mirante da Travessa da Lapa, lá do bairro do Desterro. Lembro do noticiário da morte de Jota Alves, nas proximidades do aeroporto do Tirirical ou dos Campos de Perizes, não sei precisar agora. Da minha irmã Graça, a princípio gozando da gente, para depois associar-se ao clima de terror generalizado na família, mas lembro de alguma coisa que não casava com a minha curiosidade de menino inventor, que no momento também não sei precisar. Acho que foi a sintonia com alguma outra emissora, cuja programação não batia".

Parafuso lembra um pito que levou: “Eu fui esculhambado por um pastor protestante que fazia um programa na rádio. Ele chegou lá e disse: Seu Elvas, Seu Parafuso, não se faz uma coisa dessas!”. A pesquisadora Karla Miranda lembra o depoimento de uma tia, ao saber de seu envolvimento no projeto: “Ela lembrou que minha avó ficou preocupada e pensou com quem e onde iria morrer. Minha avó queria reunir toda a família e, por isso, pensou se iam morrer no São Francisco ou no Monte Castelo [bairros ludovicenses, próximos ao Centro]".

Para quem não lembra ou, como eu, nem existia em 1971, o livro traz encartado um CD com o áudio do programa. Está quase tudo lá: Parafuso chegou atrasado à rádio e o único gravador da emissora, usado para registrar tudo o que ia ao ar, por conta da censura em voga, ficava trancado na sala do sonoplasta. Das músicas do hit parade são tocados apenas os trechos iniciais, por conta da duração do programa – a coisa toda demorou cerca de três horas, entre o início do susto e o exército invadir a sede da Rádio e TV Difusora, não permitindo que a programação fosse ao ar aquele dia.

*Essa matéria foi editada e faz parte da edição nº 4 da Revista Overmundo.

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O professor Francisco Gonçalves autografa Outubro de 71 durante lançamento. zoom
O professor Francisco Gonçalves autografa Outubro de 71 durante lançamento.

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