Roraima é mesmo uma miscelânea de ritmos. Ainda sem uma identidade musical que a identifique, a cultura roraimense vai pegando carona nos estilos que tocam pelos quatro cantos do paÃs.
Do nordestino forró, ao sertanejo do Centro-Oeste, com passagens pelo pagode carioca e pelo rock mundial, a sonoridade da música roraimense vai ganhando contornos cada vez mais diversificados.
Um pouco desta identidade musical de Roraima está reunida no CD Canta Roraima, lançado em fevereiro. São 18 composições inéditas, resultado de uma seleção feita entre 42 inscritos na I Mostra de Música Canta Roraima, ocorrida em dezembro. O disco reúne uma miscelânea de estilos, indo do forró ao sertanejo, passando pelo rap, o reggae e o romântico.
Um dos destaques é a música Wazanda'awyin (lê-se uazandauan), de Cristino Pereira dos Santos. Toda cantada na lÃngua wapichana, etnia a qual o compositor pertence, a música é uma espécie de cantiga de ninar, um acalanto em homenagem à s crianças do Coral Canto IndÃgena, criado e mantido por Cristino.
"Quando fecho os meus olhos, vejo um lindo amanhecer. Com muitas formas, desenhos e cores, toda a terra vestida e flores. Vejo a paz namorando o arco-Ãris, estrelinhas tocando o meu chão. Passarinhos cantando juntinhos, rodopiando a voar contramão", diz a música em sua tradução para o português, cantada pelas crianças do coral.
Por tratar-se da primeira música gravada na lÃngua wapichana, Wazanda'awyin foi escolhida para representar a sonoridade de Roraima no Festival de Música Cidade Canção (Femucic), que acontece em Maringá (PR), em maio deste ano.
As raÃzes indÃgenas também estão presentes em Mulher de Roraima, do Ãndio wapichana Kennedy Raimundo Thomas.
Mas o ecletismo do CD Canta Roraima não pára por ai. A turma do rap também se faz presente com a música Hora do rush, de Diogo Gomes e Laullimã Conceição.
Mantendo o estilo crÃtico e ao mesmo tempo educativo de algumas letras de rap, a música faz um alerta para a prevenção de acidentes de trânsito. "Se liga! Confira, é só um aviso. Na BR-174 só tem carro batido. Um bom motorista não precisa correr. A segurança no trânsito quem faz é você", diz um dos trechos da música.
A influência dos ritmos nordestinos está presente na música Galopando, de Joemir Guimarães. Paraibano de Campina Grande, mas radicado em Roraima há mais de 20 anos, Joemir é um dos únicos a integrarem o disco que já atua como profissional, já tendo dois CDs gravados, além de participação em quatro coletâneas.
Outro que já está na estrada há algum tempo é Jataà D'Albuquerque, também paraibano que escolheu Roraima para morar há cerca de 15 anos. Ele participa com a música Beirando a solidão, que faz uma mistura do regionalismo nortista com um pé nas raÃzes nordestinas.
No mesmo estilo segue o sanfoneiro e compositor José Ribamar Carvalho, que faz de seu xote Deixando o Norte uma espécie de "triste partida" para aqueles que um dia vieram morar em Roraima e precisam partir por algum motivo. Mizael Lima, como seu forró Estrada livre, e Antonio Lira, com O Amor é lindo, completam o acervo de influência nordestina no CD.
Ainda merece destaque o reggae Os últimos serão os primeiros, do estreante compositor Pablo Josué Machado, de apenas 17 anos. Vindo do Rio Grande do Sul, Pablo trouxe na bagagem a influência do reggae que já cultivava nos pampas, e aqui se juntou à banda Guy-Bras, que já está na estrada há quase 10 anos difundindo o ritmo em Roraima.
O estilo regionalista de Abdon Menezes está em duas faixas do CD: Olhos D'água, interpretada por ele mesmo, e Pescaria, na voz de AdÃlia Menezes. Abdon compõe há mais de 30 anos e já uma de suas músicas gravadas pelo forrozeiro Flávio José.
Quem também compõe há bastante tempo é LÃdia Vasconcelos. Em seu acervo particular constam mais de mil composições inéditas, em vários estilos, todas no anonimato. Em Puro Brasil, LÃdia presta uma homenagem aos artistas de Roraima, citando alguns destaques da cultura local.
O disco ainda traz duas faixas instrumentais: Flores, de Cristino Pereira, interpretada pelo violino de Ana Paula Oliveira, e Damoringa, dos músicos Pedro Linke e Renato Costa, que utilizam vários instrumentos de corda e percussão, alguns de fabricação própria.
Completam a coletânea, o romantismo de Te quero, de Richardson Fernandes, Jardim de estrelas, de Alexsandro Moreira e Jaime Martini, e Outras canções, de Elienai Menezes.
Se o CD canta Roraima não conseguiu identificar um ritmo caracterÃstico do Estado, pelo menos comprovou a tese de que Roraima é um grande caldeirão cultural, conseqüência de sua formação recente e de influência genérica.
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