A TEMPESTADE - LEGIÃO URBANA, 1996(EMI).

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PENHA DE CASTRO · São Luís, MA
24/7/2013 · 0 · 0
 

A TEMPESTADE OU O LIVRO DOS DIAS- LEGIÃO URBANA, 1996 (EMI).
"O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus", esta citação de Oswald de Andrade, substitui as tradicionais frases "Urbana Legio Omnia Vincit" (Legião Urbana a tudo vence) e "Ouça no volume máximo", sempre presentes em todos os álbuns da Legião, a razão da insólita mudança só foi compreendida mais tarde com a notícia da morte do líder da Banda, Renato Russo. “A Tempestade ou o livro dos dias” é a carta de despedida do maior nome do Rock Nacional dos anos oitenta.
Depressivo e melancólico, a Legião despeja tristeza, mágoa, solidão e angustia em quase todas as faixas do disco. Ainda que tente passar uma mensagem de otimismo e esperança, os sentimentos de abandono e revolta falaram mais alto na percepção criativa do compositor Renato Russo, que respinga suas dores físicas e emocionais nas canções do álbum.
A principio a ideia era a de se fazer um álbum duplo com as canções que sobraram para o disco posterior, “Uma outra estação”, que foi lançado após a morte de Renato Russo.
O líder da legião, por alguma razão desconhecida, com exceção de em “A via láctea”, não quis gravar a voz definitiva nas faixas, ficando apenas a voz guia. Apesar de imperceptíveis as diferenças técnicas, é provável que ele tenha tido a intenção de sublinhar a canção que revelava a sua real condição de saúde. A espera da morte: “um anjo triste perto de mim”, “E quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima”; a indignação ante a falta de esperança: “ quando tudo está perdido sempre existe uma luz, mas não me diga isso.”; a ironia ante a sensação de abandono:“E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça, não me dê atenção mais obrigado por pensar em mim”, e a angústia revelada: “Queria ser como outros e ri das desgraças da vida ou fingir está sempre bem, vê a leveza das coisas com humor”.
Em “Dezesseis”,Renato Russo fala em tom moralista aos jovens que desperdiçam suas vidas, contando a estória de um adolescente que morre em uma acidente suicida durante um pega.Sugere um misto de arrependimento pelos excessos com a tristeza e a saudade dos que ficam.
“Leila” é uma canção do cotidiano, fala do dia-a-dia de uma mulher independe que lida com seus trabalhos e cuida sozinha dos filhos, algumas sacadas do Renato Russo, dão o toque de humor que tempera com leveza o ar depressivo do disco: “E você diz daquele seu jeito:- Ai, eu preciso de um homem! - E eu digo:- Ah, Leila, eu também! - E a gente ri.”
“Longe do meu lado”, uma parceria do Renato Russo com o legionário Marcelo Bonfá, é a mais perfeita tradução da decepção amorosa e da dificuldade de se recompor os sentimentos após uma perda afetiva. A paixão é retratada com um algoz da alma, estar apaixonado uma opção a ser evitada: “A paixão já passou em minha vida/Foi até bom, mas ao final deu tudo errado/E agora carrego em mim/Uma dor triste, um coração cicatrizado/E olha que tentei o meu caminho/Mas tudo agora é coisa do passado/Quero respeito e sempre ter alguém/Que me entenda e sempre fique a meu lado/Mas não, não quero estar apaixonado”.
“Soul Persival”, parceria do Renato Russo com a cantora e compositora Mariza Monte, demonstra ser mais uma canção psicossomática da doença terminal do Renato Russo, a dor física e sofrimento reaparecem em versos como “Estive cansado/ Meu orgulho me deixou cansado/Meu egoísmo me deixou cansado/Minha vaidade me deixou cansado/Não falo pelos outros/Só falo por mim/ninguém vai me dizer o que sentir.”
A belíssima “Quando você voltar” é a faixa redentora do álbum, o desgaste da relação afetiva que leva a brigas intermináveis se dissolve em versos de reconciliação, em meio a tanta angústia e tristeza, a esperança do amor que pode renascer é uma espécie de alívio perante a dor e a solidão: “Vai, se você precisa ir, não quero mais brigar essa noite {...} E quando você voltar tranque o portão, feche as janelas, apague a luz e saiba que eu te amo.”
Melancólico, Renato Russo se despede dos amigos e da família, em “Esperando por mim”, agradece pela solidariedade e pelo apoio, guarda os bons momentos e pede respeito pela sua memória: “Hoje à tarde foi um dia bom, sai prá caminhar com meu pai/ Conversamos sobre coisas da vida/ E tivemos um momento de paz/É de noite que tudo faz sentido/No silêncio eu não ouço meus gritos/ E o que disserem meu pai sempre esteve esperando por mim/ o que disserem minha mãe sempre esteve esperando por mim/ E o que disserem meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim/ E o que disserem agora meu filho espera por mim/Estamos vivendo e o que disserem os nossos dias serão para sempre.”
Em “O livro dos dias” Renato Russo, lamenta seu definhamento e espera passivo a própria morte, questiona o pecado e o preconceito, e, em seu juízo final absorve a si mesmo: “Ausente o encanto antes cultivado/ Percebo o mecanismo indiferente/ Que teima em resgatar sem confiança/ A essência do delito então sagrado/ Meu coração não quer deixar meu corpo descansar/ E teu desejo inverso é velho amigo/ já que tenho sempre a meu lado {...} O indulto a ti tomasse como benção/ Não esconda a tristeza de mim/ Todos se afastam quando o mundo está errado/ Quando o que temos é um catálogo de erros/ Quando precisamos de um carinho, força e cuidado/ Esse é o livro das flores/ Esse é o livro do destino/ Esse é o livro de nossos dias/ Esse é o dia de nossos amores”.
A grande Dificuldade em falar sobre um álbum da Legião e ter que escolher trechos das canções da banda, não há verso que se possa desprezar nas letras do Renato Russo, tudo é belo, tudo é profundo e tudo se completa.
Renato Russo partiu aos 36 anos, vítima da AIDS, doença que escondeu do público até o ultimo instante, A tempestade (a doença) e o livro dos dias (onde a vida está escrita), chegaram ao clímax, agora só restou a calmaria do repouso final. Em 11 de outubro de 1996, o Brasil se tornou um país cheio de arvores e de gente dizendo adeus ao maior poeta do Rock nacional.
A Legião Urbana a tudo vence, ouça no volume máximo!!!

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