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A última viagem do Negão Motora

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Tylon Maués · Belém, PA
26/7/2006 · 70 · 1
 

Um dos ingredientes mais interessantes do futebol são suas peculiaridades. Entre elas está a classe de jogadores folclóricos. Para o bem ou para o mal eles entram no imaginário do esporte e, na maioria das vezes, pela porta da frente. Não à toa Garrincha, o maior exemplo, sempre foi e sempre será muito mais amado que Pelé. Na quinta-feira, dia 20, o Pará perdeu o mais folclórico de seus jogadores. O centroavante Alcino faleceu aos 55 anos em decorrência de câncer generalizado - o diagnóstico foi feito tão tarde que já não se sabia onde a doença havia começado. Entre outros ele defendeu Paysandu e Clube do Remo, mas foi neste último que fez sua história e ganhou um latifúndio no coração do torcedor local.

Os feitos do Negão Motora - apelido ganho ao ter pegado um ônibus em Manaus e atropelado um pedestre (Alcino estava bêbado) - são tantos que dariam para escrever um livro dos mais bacanas. Tragicômico. O mais notório foi ter sentado na bola quase na linha de gol. Logo abaixo está a mostra da genitália pra a torcida adversária ao comemorar um tento. Nas duas ocasiões ele defendia o Remo diante do Paysandu. Fora de campo ele não deixava por menos. Amante da bebida e das noitadas, nessa ordem, era figurinha carimbada nas boates das cidades onde jogou. Gastou o que tinha e o que não tinha, por isso morreu na miséria, amparado por pouquíssimos amigos e totalmente esquecido pelo clube ao qual mais deu glórias. Era uma espécie de popstar.

No dia que começou o velório, a tal quinta-feira, quase ninguém compareceu à capela. Lá estavam apenas seis pessoas quando o corpo chegou. Três deles eram da imprensa: eu, um fotógrafo e outro repórter. Alcino era chamado de Gigante do Baenão (estádio do Remo) por conta de seus 1,94m. O caixão media 2,10m e era pesado demais. Só os dois funcionários da funerária não seriam capazes de carregar o trambolho. O clima me pareceu mais melancólico ainda quando eu e mais o amigo Adriano Barroso tivemos que nos oferecer para ajudar nas alças.

Lá estava o maior ídolo do clube que divide a torcida de um estado e não havia ninguém a reverenciá-lo. É verdade que no dia seguinte muita gente apareceu. Mas, pelo menos para mim, os primeiros momentos contam demais e o que via era o abandono por parte de todos. Somente a família mais uns dois amigos se fizeram presentes. A exceção foi o ex-jogador e agora médico Aderson, companheiro de time por apenas um ano.

Dizer que Alcino merecia mais é clichê. Todos disseram. A alegria que mostrava em vida, mesmo já devastado pelo vício no álcool, deveria ter sido mais bem reverenciada. Se fosse enterrado no interior seu féretro seria ladeado com bebida e comida em profusão. O clima de velório seria pontuado pelas histórias que ele deixou e as risadas seriam as vírgulas das lágrimas.

PS: Brincalhão como era, o que notei na única e breve entrevista que fiz com ele uns cinco anos atrás, Alcino pregou do além uma última peça. No local do velório havia duas capelas. Lógico que fui parar na errada. Eu e os outros repórteres ainda fomos tachados de penetras de velório.

Texto publicado no Ressaca Moral

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Rodrigo Teixeira
 

Opa Tylon. Parabéns pelo serviço. Ser jornalista é tomar na cara fatos como este. E vc irradiou bem pacas. O Vlad escreveu um texto sobre o Alcino e é legal ler os 2 textos. Aí tá o link!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 24/7/2006 22:30
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