Funcionou assim: os produtores do filme deram câmeras hi-8 a 50 fãs que ficaram incumbidos de fazer um registro do show da banda e entrar para a história. Essa foi a sacada de mestre que Nathanial Hörnblowér - ou MCA para os íntimos, o "braço cinematográfico" dos Beastie Boys - encontrou para fazer de um mero registro de show, forte motivo para se ir ao cinema. Soa quase como um contra-senso num momento em que os produtores de mega-eventos musicais andam tentando apertar a cerca contra os “espertinhos” que se valem de “criminosas” câmeras digitais - cada vez menores e de melhor qualidade, ressalte-se - para “roubar” imagens e sons dos seus artistas prediletos e distribui-las pela internet. Mas, os ...Boys nunca foram um grupo de seguir tendências. Pelo contrário, em sua essência, a banda já confundia mais que explicava: após iniciarem sua carreira no punk, os três branquelos começaram a fazer rap, abusando do uso de vocais característicos do rock’n’roll e, pasmem!, usando as guitarras “endemoniadas” para despurificar (!) o som dos negros dos guetos norte-americanos. E, contrariando todas as expectativas, os Beastie Boys sobreviveram e podem ser considerados uma das mais influentes e criativas bandas de rap da história.
O registro do show de 2004 no Madison Square in Nova York que deu origem ao filme "Awesome; I Fuckin' Shot That!" foi apenas mais um passo de uma banda que nunca fechou seu canal de comunicação com o público criativo, disponibilizando faixas na internet para download e remix e participando ativamente de movimentos em prol da flexibilização dos direitos de autor, como o Creative Commons. Basta ver a faixa com que os músicos abriram o “The Wired CD: Rip. Sample. Mash. Share.” que a conceituada revista Wired lançou em 2004 e ainda disponibiliza na internet ou, ainda, as capellas colocadas no site deles, prontinhas para os que quiserem produzir remixes legais das obras. A filmagem do show por elementos da platéia é apenas mais uma ação da relação criativa que a banda mantém com seus fãs.
Além do material produzido pela audiência, uma equipe profissional cuidou de registrar o show da forma “tradicional”. No provavelmente difícil processo de edição, o desafio foi provocar um diálogo entre as duas formas de captação sem desviar o foco para o conflito entre o “profissional” - que pode ser visto tanto pelo ângulo da “qualidade técnica” quanto do “distanciamento com que focaliza a ação” - e o “amador” - cheio de paixão mas sem o apuro que um câmera com carreira consegueria dar. O recurso mais comum nesses casos é alterar as imagens com efeitos, reenquadramentos, filtros e outros artifícios que as tornam mais próximas entre si, eliminando os “defeitos” da captação amadora e “sujando” a assepsia do material profissional. "Awesome; I Fuckin' Shot That!" não foge desse recurso, porém o utiliza mais como elemento de criação do que de pasteurização da imagem. Além dos inúmeros planos, que compõem uma edição ágil e muito mais próxima do videoclipe do que da estética do show-gravado-para-virar-DVD, os editores optaram por fazer interferências nas imagens, embebidos na fonte da pop art, onde cores, repetições, “carimbos” e outros aproximam o concerto da linguagem visual. Ou seja, o filme é completamente diferente da maioria dos shows que chegam atualmente ao mercado doméstico, na fórmula mais atual encontrada pela indústria musical de recuperar os supostos prejuízos com a pirataria e o download ilegal de canções.
No concerto, os Beastie Boys, que estavam divulgando “To The 5 Boroughs”, o sexto álbum de estúdio da banda, fizeram uma releitura de sua carreira, mesclando músicas novas à época como “Ch-Check It Out” e clássicos como “Intergalactic” de “Hello Nasty" (1998), “Paul Revere” de “License To Ill” de 1986 (em bootleg com “Body Movin’”) e “Sabotage” de “Ill Comunication” de 1994. Além do set tradicional - o “3 MCs and 1 DJ” do título de outro sucesso do grupo - os Beastie... se apresentaram com uma banda que contou com os já conhecidos colaboradores Alfredo Ortiz e Money Mark. Foi com a banda que o momento mais político do show se desenhou: “Sabotage”, que encerra o concerto, foi dedicada a George W. Bush.
O DVD do filme já foi lançado nos Estados Unidos e é recheado de extras, como o média de 30 minutos “A Day In The Life Of Nathanial Hörnblowér” onde o comediante David Cross, da famosa série “Arrested Development” e do filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” vive o alter-ego cinematográfico de MCA. Já "Awesome; I Fuckin' Shot That!" retoma um passado de musicais feitos para o cinema, numa época em que os DVDs dominam o mercado de concertos em formato audiovisual com sua fórmula repetitiva e puramente comercial.
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