Bem-vindo ao deserto do real

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Luiz Geremias · Curitiba, PR
6/5/2008 · 62 · 2
 

A prisão do apresentador de TV Ricardo Chab – quando extorquia empresários da empresa de segurança Centronic – é emblemática para entender como funcionam os programas jornalísticos – não é possível dizer que todos, mas pelo menos boa parte deles. Chab apresentava o programa Na Hora do Almoço, transmitido pela RIC, afiliada curitibana da TV Record, e se dedica basicamente a fazer denúncias. Para impedir que uma dessas denúncias fosse ao ar, ele teria tentado faturar 70 mil reais.

Tudo indica que Assis Chateaubriand, o dono dos Diários Associados, fazia isso. Em sua biografia (Chatô, o rei do Brasil), escrita por Fernando Morais, há o registro de um episódio no qual uma empresa de fósforos anunciava haver 40 palitos em cada caixa, mas, em um exame detalhado, se descobria haver geralmente menos do que isso. Chatô teria telefonado para o empresário e resolvido não fazer a denúncia do engodo em troca de certas vantagens. E as empresas de fósforos passaram a cunhar nas caixinhas: "Contém, em média, 40 palitos", além de anunciar nos Diários Associados, é claro.

Parece difícil separar o jornalismo dessas práticas. Todos sabem que a divulgação de uma denúncia é geralmente acompanhada por um tom acusatório, um julgamento que não admite defesa por parte do acusado. Mesmo que lhe seja reservado um espaço para a sua versão, esta ganha, de modo geral, menor ênfase. É prática corrente na imprensa a acusação sem provas, sem contexto e sem responsabilidade. Vide o famoso caso da Escola Base e que se preste atenção a este, que vem se desenhando, relativo à menina Isabella Nardoni.

"Vícios privados, virtudes públicas"

Essa prática se assemelha àquela que sabemos ter existido nos tempos da Lei Seca estadunidense e que vemos em filmes que retratam a época: em um restaurante, subitamente, entram dois ou três homens armados com metralhadoras e executam a vítima. Ao "outro lado" nesses casos, como ocorre na imprensa, cabe aceitar a saraivada de balas/acusações calado ou, no máximo, esboçar um gemido. Não há defesa.

Diante dessa situação, cabe à vítima tentar impedir o estrago. E todos sabem como isso pode ser feito: o cala-boca é geralmente conseguido com cédulas impressas pela Casa da Moeda.

Cabe indignação? Ora, francamente. Indignar-se com o quê? Com essas práticas que são corriqueiras? Como já disse Jean Baudrillard, essa indignação, muito sentida pela pequena-burguesia, leva em conta que as coisas poderiam ser diferentes. Na verdade, essas práticas são parte do grande jogo proposto por uma sociedade que combate o crime apenas nas aparências, mas se alimenta dele, como está bem ilustrado na fábula da colméia escrita por Bernard de Mandeville há mais de 200 anos: as abelhas viviam segundo a máxima liberal dos "vícios privados, virtudes públicas". A indignação leva apenas ao reforço da ilusão de que aquilo que faz a sociedade ocidental ser o que é poderia ser diferente. Se assim o fosse, teríamos que falar de outra sociedade.

E a ética?

Ricardo Chab parece ser apenas mais um dos que usam o jornalismo para encher os bolsos. Faz o que todos fazem. Um empresário usa seus produtos para tirar dinheiro do consumidor e só um tolo pode afirmar que nunca os adultera nem usa de práticas escusas para conseguir seu intento. Eu mesmo já fui vítima, inúmeras vezes, da "maloqueiragem" empresarial. Como no caso das metralhadoras, não me restou muita coisa senão aceitar, não sem gemer, a gatunagem. Do contrário, teria que contratar advogado, gastar não pouco tempo em audiências, enfrentar os advogados contratados pelos empresários etc., sem qualquer perspectiva de sucesso.

Cá para nós, esse é o real que o discurso da sociedade capitalística tenta esconder todo o tempo. Um real desértico, triste, fétido e que não nos oferece muitas esperanças. O caso de Chab não é isolado, muito menos o de qualquer jornalista que assim aja. Tudo indica que essa é a regra. E cabe perguntar onde está a ética que, um dia, Adam Smith julgou que deveria governar as relações econômicas.

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Luiz Carlos Garrocho
 

Luiz,

Seu texto contém denúncias sérias. Permita-me apenas discordar de um tom generalizante: "faz o que todos fazem". E quando você diz que o produtor quer, assimi como o jornalista sem ética, tirar dinheiro do bolso das pessoas. Igualar tudo sob o mesmo patamar parece-me pouco elucidativo do que ocorre nesse "deserto do reatl". O mercado é troca e não necessariamente roubo ou um reservatório de atitudes não éticas. Parece-me que sua intenção não é esta, mas há trechos que levam a tal entendimento.

Tenho inúmeros exemplos de empresários que trabalham com honestidade. No dia-a-dia encontro muitos comerciantes que me prestam excelentes serviços, com muita atenção e cuidado. Não dá para generalizar.

Quando você mostra o comportamento de outras estratégias de imprensa, torna-se sim um momento para repensarmos o poder das mídias etc. Mas a generalização, presente em algumas partes, é preocupante.

No mais, parabéns pela coragem em focalizar o assunto.

Abraços

Luiz Carlos Garrocho · Belo Horizonte, MG 8/5/2008 10:49
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Luiz Geremias
 

Olá Xará,
Obrigado pelas ponderações. Meu questionamento é justamente sobre a ética de uma sociedade pautada pela ordem do Mercado, como procurei deixar claro na última frase do texto: “E cabe perguntar onde está a ética que, um dia, Adam Smith julgou que deveria governar as relações econômicasâ€. Compreendo que muitos tentem agir com ética, mas a lógica do sistema que chamo de capitalístico, aceitando a sugestão de Feliz Guattari (o capitalismo que se generaliza para as sociedades do dito Terceiro Mundo), me parece ser a da “mão invisívelâ€: “privatizar lucros e socializar prejuízosâ€.
Em tese, não há como refutar que o Mercado “é trocaâ€, mas, na prática, ou na práxis, essa entidade corresponde a uma estrutura na qual há uma clara hegemonia de alguns – a troca tende para beneficiar quem tem mais o que trocar. Tendo a não aceitar a afirmação de que o Mercado é livre e que todos têm igual peso na sua estruturação. Assim como não me parece possível aceitar a tese liberal de que as oportunidades são iguais para todos. Aceito, sim, a proposta de Marx de que o lucro é retirado dos trabalhadores e que o capital determina as relações econômicas, indo mais longe e afirmando que, hoje, determina comportamentos, pensamentos, sentimentos e, inclusive, o desejo, o que tem levado ao grave enraizamento da lógica comercial no campo subjetivo.
A lógica comercial leva a distorções éticas graves e o resultado é o que se constata na fábula da colméia, citada no texto. É a compreensão que orienta o texto. Como dito, concordo com Baudrillard ao dizer que se indignar com a corrupção e outras mazelas é inútil, pois apenas reforça a ilusão de que uma sociedade que se orienta pelo Mercado pode ter uma ética que não a da obtenção de vantagens – na qual a tentação da corrupção é quase irresistível. E, para isto, quando a pressão econômica é intensa, como em nossos tempos, o empresário – hoje muito mais do setor terciário do que do secundário, logo não é “produtorâ€, mas “intermediárioâ€, ou, nos piores casos, “atravessador†– faz todo o possível, inclusive adulterar produtos e ludibriar o consumidor. Compreendo que isso faz parte do jogo das abelhas da colméia dos “vícios privados, benefícios públicosâ€.
Respeito tuas ponderações, entendo que há empresários que fazem força para não entrar “no jogoâ€. Mas, como a prática vinda “de cima†(veja o excelente documentário “Corporationâ€, de Mark Achbar e Jennifer Abbott) costuma ser mais influente do que a que vem “de baixo†– provoca muitas vezes uma pressão muito forte – compreendo que, infelizmente, o jogo aético tem predominado. É uma posição que tenho. Gostaria de que me fossem apresentados argumentos que a alterem, mas até hoje não as conheci. Muito pelo contrário.
Veja que não há generalização, mas a constatação de uma regra. Isso não significa que todos, sem exceção a sigam. O “faz o que todos fazem†é uma expressão que tenta dizer que essa é a regra predominante. Nem todos precisam acreditar nela, muito menos resumir sua práxis a ela. Talvez essa expressão não devesse ter sido usada, concordo. Mas, foi usada nesse sentido.
Desculpe a pressa em te escrever estas linhas. Com mais vagar, poderia ter sido mais abrangente e preciso, mas tive o cuidado de te responder o mais rápido possível. Qualquer dúvida ou sugestão, me fale que volto ao tema com o maior prazer.
Abraço e novamente obrigado.

Luiz Geremias · Curitiba, PR 8/5/2008 12:23
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