CABEÇA DINOSSAURO – TITÃS, 1986 (WM BRASIL).

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PENHA DE CASTRO · São Luís, MA
26/8/2015 · 1 · 0
 

“Bichos escrotos saiam dos esgotos, bichos escrotos venham enfeitar meu lar, meu jantar, meu nobre paladar!” Os versos de bichos escrotos revelavam que os Titãs seguiriam um novo caminho, uma nova estética, a mesma banda com outra cara, outra sonoridade, mais punk, com mais acidez, atitude e agressividade. “Cabeça Dinossauro”, o terceiro álbum da banda, mudou a história dos Titãs, marcou presença no rock nacional e se tornou um dos clássicos mais importantes da geração oitenta.
Apontado entre os 100 (cem) melhores discos da musica brasileira ficou na 19ª posição, em 1997, e ainda, a revista Bizz o elegeu como sendo o melhor álbum de pop rock nacional. Vendeu 500.000 cópias recebendo a classificação de disco de platina.
O álbum nasceu de uma urgente necessidade de sobrevivência e afirmação da banda, sem este, os “Titãs”, que já foram um dia, “Os Titãs do Iê-iê-iê” (antes de entrarem no mercado fonográfico é claro, quando ainda se apresentavam em festivais estudantis), e que defendendo os hits dos dois primeiros discos: “Titãs” e “Televisão”, apareciam nos programas de auditório, tipo “Cassino do Chacrinha”, “Perdidos na Noite (Faustão na Band)”, “Clube do Bolinha”, etc, com um figurino exótico, coreografias para lá de esquisitas, visual new wave, e, musicas comerciais, que caiam logo no gosto de público, “Sonífera Ilha”, “Televisão”, “Toda Cor”, “insensível”, “Não vou me Adaptar” (nestes se encontram as versões originais de “hits” como “Go back”, “Marvin”, “ Para dizer Adeus” e “Querem o meu sangue” que só se tiveram o devido reconhecimento em regravações ao vivo e no Acústico MTV de 1997), teriam caído em um possível ostracismo.
A urgência em questão se dava pelo fato de aquele seria o terceiro disco da Banda e que com este se encerraria o contrato com a gravadora. Um possível fracasso poderia tirá-los de vez do mercado fonográfico ou fadá-los a ser apenas mais uma banda, sem pouca expressão, que só seria lembrada por ter feito parte daquele importante momento do rock nacional. Os Titãs já se destacavam pelas suas letras inteligentes e pela ousadia visual, mas faltava alguma coisa, a sonoridade da banda não se sobressaia naquele cenário, eles eram bons, mais tinha muita gente boa, fazendo som de altíssima qualidade. Tinham que encontrar um novo caminho. Havia uma saída, uma saída que pedia ao octeto paulista humildade e coragem para enfrentar novos desafios em termos musicais.
A saída era Liminha, um dos grandes produtores da época, conhecido por literalmente se apropriar do estilo e sonoridade das bandas com quem trabalhava, os Titãs criticavam o produtor pela sua massiva interferência no trabalho dos artistas, deixava nele a sua marca, e isso os incomodava.
Deixaram o ego de lado e buscaram a ajuda do consagrado produtor. Um passo para lá de acertado, se assim não o fosse, não nasceria o “Cabeça Dinossauro”, pelo menos não o que conhecemos, a presença do Liminha foi essencial não só para a concepção do disco como também para a nova e ainda atual sonoridade da banda. De uma só vez, Liminha fez do “Cabeça Dinossauro” um disco referencia, salvou os “Titãs” de um desaparecimento precoce e os transformou em uma das principais bandas do Rock Nacional, unindo-se aos “Paralamas” e a “Legião”, na santíssima trindade das grandes bandas do rock brasileiro.
Em se tratando da sonoridade, os titãs não perderam sua essência, mas a contribuição do Liminha os direcionou para outras possibilidades, as letras ficaram mais ácidas, o som mais pesado, harmonia mais próxima das referencias do punk rock, que influenciaram todas a grandes bandas da época. Musica agressiva, letras inteligentes, misturas com o reggae e com funk e outros ritmos, tudo com muita qualidade, deram uma nova cara ao som dos titãs e foram fundamentais para que o “Cabeça Dinossauro”, tivesse seu lugar de honra entre os grandes monumentos da indústria fonográfica brasileira.
Outro fato que influenciou a busca de uma nova sonoridade para a banda, foi a prisão de dois de seus integrantes, ainda em 1985, Arnaldo Antunes e Tonny Belloto, responderam em liberdade por porte de heroína, pois eram réus primários.
A inspiração para o material gráfico veio da obra de um gênio renascentista, Leonardo da Vinci, um esboço intitulado “A expressão de um homem urrando” foi escolhido para capa e um outro desenho, do mesmo autor, “Cabeça grotesca”, ilustrou a contra capa. Os traço de Da Vinci, que era um excelente anatomista, imprimiu ao álbum a expressão antropológica e visceral do seu conteúdo.
Das treze canções do álbum, onze foram hits instantâneos, exceto as faixas "A face do destruidor” e “Dívidas”.
"Bichos Escrotos", que já fazia parte do repertório da banda desde 1982, só foi gravada neste terceiro álbum. Porém, a censura vetou sua execução radiofônica considerando o afrontoso verso "vão se foder". Ainda assim as rádios a executaram, ora com aquele repressivo “plim” ora a própria versão original, suportando a conseqüente multa.
A faixa titulo “Cabeça dinossauro” é marcada por improvisos percussivos do próprio Liminha, que segundo consta a informação no encarte do álbum foram inspirados em um ritual dos indos do Xingu. Nada mais visceral e antropológico, somado a poesia concretista de Arnaldo Antunes.
Alias o concretismo é a marca poética de Cabeça Dinossauro, estando presente em praticamente em todas as faixas, do próprio Arnaldo Antunes, que a carregou consigo para sua carreira solo e também literária, e, da estética dos Titãs em sua nova fase, notado em suas canções até hoje.
“O que” foi a faixa que deu mais trabalho e levou mais tempo para ser gravada, teve a letra, a melodia e os arranjos alterados durante as gravações, a fusão com o funk vitaminou o que seria uma musica convencional.
Apesar da adesão estética ao movimento punk, os Titãs e o “Cabeça Dinossauro”, escapam ao estereótipo e ao rotulo de punk. É um álbum de referencia, aponta novos caminhos, tanto para a banda como para o rock brasileiro, em efervescência na época. A estrutura poética e a avalanche sonora inaugurada no mesmo, influencia não só todos os trabalhos da banda que o sucederam como também, a outros músicos, compositores e bandas que bebem na fonte visceral, grotesca, antropológica, concretista, urbana, verdadeira miscelânea de ritmos e ideias e força brutal do “Cabeça Dinossauro” que deu a “porrada” que faltava ao pop rock nacional, pelo menos no mercado fonográfico, pois no underground, a galera do movimento já fazia punk rock de raiz, e emergia do submundo com muito, muito barulho...

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