Carnaval das águas: a voz do imaginário caboclo

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Casa FdE Amazônia · Belém, PA
18/2/2013 · 27 · 1
 



Por Viviane Menna*


Noites repletas de estrelas, praias de rio, barcos de madeira e trapiches. Entre a floresta e o rio, brincantes mascarados em comédias protagonizaram o que seria nossa aventura de carnaval no rio Tocantins em 2013. Carnaval caboclo nas ilhas de Cametá. Enquanto na cidade multidões se dividiam nos arrastões de blocos de rua, nas ilhas pudemos vivenciar um carnaval tranquilo, acústico, mega colorido e centenário.

Veja cobertura fotográfica completa: http://bit.ly/WLe3ch

O município, que possui mais de 500 ilhas é palco do “Carnaval das águas” quando cordões de mascarados saem com suas fantasias de cetim colorido brincando sobre barcos ao som de marchinhas e parecem criar uma espécie de videoclipe, repleto de cenas surreais que projetam na paisagem de rio e floresta um encantamento que faz a gente perder a noção do tempo. É natural que numa região que abriga a maior bacia hidrográfica do mundo, com cerca de 20 mil quilômetros de rios permanentemente navegáveis, as águas atraíssem tanta atenção. Mas durante estas festas as águas ganham corpo, alma e voz que fala do imaginário caboclo.

Essa experiência foi uma re-edição das pesquisas que realizei em 2003 em Juába. Na ocasião, viajei no catamarã “Pará” a convite do projeto IFNOPAP (Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia Paraense) da UFPA como artista viajante. As festas foram por dez anos meu itinerário e o resultado foram cerca de quarenta aquarelas sobre seda, algumas exposições, inclusive fluviais, e o “Mapa pictográfico da Cultura Ribeirinha da Amazônia Paraense: tradições e mídias” dissertação de mestrado desenvolvida no programa de Comunicação e Semiótica da PUC SP sob orientação da Professora Dra. Jerusa Pires Ferreira.

Com base em meus cadernos de campo do verão de 2003, partimos para re-encontrar os festeiros que entrevistei no passado no distrito de Juába: Mestre Zenóbio organizador do Cordão da Bicharada que na época residia na vila; Vital Batista cantador da banda Engole Cobra famoso por suas letras de denúncia e morador de um sítio no Arari e o Vital 2 que coordena o cordão Última Hora e mora na região das ilhas do Tentem. Todos amigos, que moram em frente ao rio Tocantins e acima de tudo parceiros nas brincadeiras carnavalescas. Neste carnaval contamos com apoio da faculdade Estácio FAP onde leciono e com parceria da Casa Fora do Eixo Amazônia. Juntos montamos um edital relâmpago e selecionamos as pessoas que iriam captar imagens, sonoridades e memórias desta festa. Outra equipe de mídialivristas do Fora do Eixo montou uma arquitetura de divulgação multimídia desta vivência que ocorreu quase imediatamente após nosso retorno e que incluiria imagens desta manifestação tradicional postadas no flickr, facebook o que foi gerando uma circulação nacional muito interessante para difusão desta tradição.

No encontro destes dois momentos nos deparamos com muitas diferenças. Desta vez viajamos com GPS, compartilhamos quase em tempo real nossas narrativas quando ainda era possível estar conectado a rede, substituímos os equipamentos analógicos por digitais, fotografamos muito mais e construímos novas metodologias graças ao know-how de mobilização da Casa Fora do Eixo e as novas compreensões de mundo decorrentes da nossa incisiva inserção na cultura das mídias. Sentimos muita falta de um gerador, fomos reféns das baterias e dos cartões de memória. Mudaram os meios e também as realidades que encontraríamos no rio Tocantins e em Juába.

Mestre Zenóbio, agora mora em um casarão na cidade velha em Belém. Estava produzindo alegorias para o carnaval de Parauapebas. Seu filho artista plástico, que antes o ajudava na confecção das fantasias, agora passou em um concurso público e trabalha como perito criminal. Triste, me informou que por falta de apoio não colocaria a Bicharada na rua este ano,mas se apressou em incentivar nossa viagem facilitando nossas conexões, criando roteiros e articulando com os festeiros os locais e datas onde poderíamos assistir as comedias.

O rio também mudou, vem perdendo a mata ciliar, aquela formação vegetal que fica nas margens e protege contra assoreamento, enchentes e funciona como berçário para os peixes. Vital Batista, num desabafo, comentou que a barragem de Tucuruí não foi a única responsável pelo desaparecimento dos peixes. O próprio ribeirinho quando a família vai aumentando desmata as margens para construir novas casas. Destroem os aningas (Montrichardia arborescens) e aturiás (Machaeriumlunatum) que formam espécies de ilhas que graças a emaranhados de raízes submersas protegem os peixes de predadores como o boto. Os aturiás desaparecendo somem também, e os peixes, que não têm onde se proteger, não conseguem procriar.

Em 2003 fui para Cametá de navio e passei a noite viajando em meio a centenas de redes. Desta vez fomos de carro pela alça viária no sentido de Igarapé-Miri e Carapajó e, após três balsas, chegamos em Cametá. Vale a pena cada uma das sete horas gastas no percurso. A grandiosidade dos rios, o colorido da festa, a estética dos figurinos, as conversas com os mestres , sempre tão modernos em sua concepção simples de mundo, os passeios de barcos e a alegria dos festeiros, no mínimo, nos fez rever valores pois viajar pelas ilhas da Amazônia significa abandonar nossa zona de conforto - e esquecer a conexão com internet, luz elétrica, banheiros confortáveis. Entra-se em outra temporalidade e nessa imersão a gente vivencia esse impasse entre a exuberância da natureza e sua destruição; a realidade geohistórica e a utopia; a dominação e a resistência cultural.

Em 2003 viajei no mês de julho, no verão. Os campos ainda estavam secos com estradas transitáveis. Cheguei em Juába de moto-taxi. Agora com o período das chuvas o rio é a única opção de deslocamento. Os donos de vans que no verão fazem a linha Cametá-Juába possuem barcos amplos para transportar os passageiros no inverno. Na percurso rumo as ilhas, pequenas casas aparecem em meio a florestas de açaizais. São mais de uma hora e meia de barco para nosso destino. Na paisagem das margens cenas de crianças brincando nos trapiches são recorrentes mas sempre surpreendem pela poética. Outra cena encantadora de se ver, são as longas canoas onde ribeirinhos viajam e para protegerem-se do sol ostentam suas sombrinhas multi-coloridas.

Um pouco antes de Juaba fica o Arari, onde mora Vital Batista, cantador e compositor da banda de banguê ecológico denominada Engole Cobra e também um dos fundadores do Cordão Última Hora e compositor das músicas da Bicharada. Sua casa fica em um sítio paradisíaco. Na pequena praia erguem-se duas construções de madeira, bambuzal, diversas plantas frutíferas. Alguns patos, porcos, e um cachorro que vagueiam pelo terreno. Logo ali fica o Igarapé central de águas geladas. Por três dias este cenário foi nossa casa. Dormíamos em redes que, penduradas na varanda, possibilitava-nos que observássemos a paisagem do rio como se estivéssemos em um barco. Nossos banhos aconteciam no próprio rio e a noite, além escutar casos e canções, gastávamos nosso tempo observando as estrelas. Nesta rotina a hora teimava em não passar. Na amazônia fluvial, às vezes nos vemos inseridos em outra temporalidade.

Como não tem luz na casa do Vital, uma vez por dia recarregávamos as baterias das câmeras e notebooks na vila de Juaba. Sempre de barco, viajando rente a água, nos habituamos a sentir o vento e o sol batendo no rosto, mas o constante descer e subir dos barcos revelavam nossa falta de familiaridade com este meio de transporte.

Juaba é uma vila quilombola famosa por concentrar dezenas de manifestações culturais tais como a bicharada do Mestre Zenóbio, o samba de cacete e o banguê do rosário. Um quinto da população do distrito vive na cidade, o resto está espalhado pelas ilhas e pelo interior. Aos domingos, acontece uma feira que reúne os moradores de todas redondezas que chegam cedinho de carro de boi, bicicleta e barco para comprar e vender produtos como farinha, peixe, frutas e roupas.

O ato de se deslocar na busca de energia elétrica para carregar o equipamento revelou-nos a generosidade das famílias juabenses. Sempre somos recebidos com café, biscoitos, fotos, vídeos e muitas histórias. Com as baterias recarregadas, partíamos para nosso próximo destino: a ilha do Tentem, território das apresentações do cordão Última Hora, que este ano comemora 70 anos de existência.

Eulálio Tenório dos Santos, 52 anos, conhecido como Vital 2, trabalha com seu barco comprando e vendendo mercadorias ao longo do rio, mas sua paixão é o cordão Última Hora. É ele quem faz as máscaras dos brincantes e todo vestido de preto coordena as apresentações. A casa do Vital como de muitos ribeirinhos é composta por palafitas e pontes, de forma que ele não sofre com as variações do nível da água. Sala, dois quartos e cozinha. No fundo, há a horta suspensa de temperos, o cercado para o porco além e outro para o macaco de cheiro da casa, Chiquinho,que divide seu espaço com dois gatos. Só bem longe da casa no final da ponte há o banheiro que não possui vaso sanitário.

Vital 2 constrói suas máscaras em casa. Antes trabalhava a partir de um molde de barro o qual recobria com jornal utilizando-se da técnica de “papel marche”. Hoje consegue fazer máscaras mais duráveis reciclando embalagens plásticas de 5 litros de vinho e isopor. Artista das formas e das cores, com ambas técnicas obtêm um lindo resultado que nas apresentações encanta a plateia composta por crianças e adultos que se reúnem nos salões onde ocorrem as apresentações do cordão carnavalesco.

Os cordões multicoloridos navegam o dia todo se apresentando para as comunidades ao longo do rio, entoando marchinhas tradicionais. São compostos por dezenas de brincantes mascarados e alguns cabeçudos que dançam em cima do teto da embarcação , balançando bandeiras e estandartes em um desfile que transforma o rio em passarela. Os brincantes desfilam com roupas, máscaras e perucas muito coloridas. Quando chegam nos trapiches os carnavalescos são anunciados pelo dono do cordão e se apresentam nos salões comunitários que sempre estão lotados.

Durante cerca de quarenta minutos, eles ironizam a plateia - é certo que já não tecem as criticas politicas como faziam no passado - mas, vibrantes, fazem piadas e fofocam sobre a vida cotidiana da comunidade, em teatralizações alternadas pelas apresentações da banda composta por metais e tambores. Senti falta do saxofone do mestre Zenóbio mas a comédia ainda é apresentada com muita empolgação e com rimas pelos palhaços, o falador, o bêbado, o namorista e o psiqueiro, aquele personagem que durante o tempo todo se mete na conversa dos outros. Às gargalhadas, a comunidade ribeirinha celebra o carnaval.

Depois de assistir as apresentações voltamos ao barco e retornamos à casa de Vital 2 para o almoço coletivo onde foi servido galinha caipira feita no fogão a lenha, arroz e farinha grossa. Na cozinha chama atenção as panelas simetricamente penduradas sobre a pia. Após o almoço saímos para novas apresentações. No carnaval as famílias previamente contratam as apresentações e assim se constrói o roteiro do barco que chega a 5 ou 6 destinos. Às vezes, os cordões se encontram mas parece que cada qual de certa forma respeita o território do outro e, assim como acontece com a brincadeira dos bois juninos, há uma certa rivalidade entre alguns grupos que pode ser sentida de alguma forma no encontro dos barcos.

Para acabar nosso dia com chave de ouro teve o banho de rio, desta vez no trapiche, na agua quente do Tocantins, junto com as crianças que mergulhavam exibindo sua destreza em saltos de costas e cambalhotas. Diante de nossos olhos nada mais para se observar além das cores do rio, a maré, os barcos que vez ou outra param no trapiche para vender castanhas e outras frutas exóticas da região ou para pegar algum passageiro que mal espera o barco atracar para embarcar. O verde da floresta ao longe não permite discernir as espécies de plantas que compõem a vegetação das margens . A maré cheia aos poucos vai cobrindo o trapiche e faz parecer que as crianças andam sobre as águas. A despeito de sua simplicidade e das dificuldades da vida ribeirinha que muitas vezes faz com que não tenham garantido o alimento para sua mesa, nestes momentos aquelas crianças parecem Deuses brincando num olimpo Amazônico.


*Viviane Menna, é coordenadora de Criação e Extensão da Faculdade Estácio FAP do Pará; docente dos cursos de Jornalismo e Publicidade, Publicitária, mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005) com o Mapa Pictográfico da Cultura Ribeirinha da Amazônia Paraense: Tradições e mídias. Pesquisa os seguintes temas: Cultura, Festa Popular, Amazônia, Novas Técnologias. Atua na formação de professores indígenas na disciplina Cultura e Tradição e como consultora de comunicação junto ao Terceiro Setor. Especialização em Docência do Ensino Superior com ênfase no ensino de Pesquisa (2007)

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Hermano Vianna
 

Muito obrigado por tanta informação bacana!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 19/2/2013 23:52
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