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Cultura de Okinawa: sucursal Campo Grande

Informativo Associação Okinawa
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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
6/3/2006 · 183 · 1
 

Campo Grande respira o ar de Okinawa. É isso mesmo! A capital de Mato Grosso do Sul possui a maior colônia de imigrantes okinawanos do Brasil depois de São Paulo. São pelo menos 1.800 famílias originárias de Okinawa, uma espécie de Caribe japonês. A ilha-continente que pertence ao Japão, já foi independente, depois da China, caiu nas mãos dos japoneses e desde a Segunda Guerra abriga bases norte-americanas. Aproximadamente 70% da colônia japonesa de Campo Grande são de okinawanos.

Apesar de ser uma das maiores do Brasil, a colônia japonesa em Campo Grande é pequena se comparada com a paraguaia, que tem 100 mil integrantes. Mas mesmo reduzidos, os okinawanos são extremamente organizados na Capital. Mais que isso. Existe um trabalho de base muito forte para manter a tradição cultural de onde vieram. A cidade possui três associações: Associação Okinawa de Campo Grande, Associação Esportiva Cultural Nipo-brasileira e Associação Campo Beisebol. A Associação Okinawa mantém contato com 500 famílias de okinawanos. Ela existe há quase 70 anos e é presidida pelo senhor Tetsu Arashiro, que está no final de seu terceiro mandato. Tetsu é nissei, ou seja, nasceu no Brasil e pertence à segunda geração de okinawanos.

O objetivo de Tetsu é marcar o centenário da imigração japonesa no Brasil em grande estilo em 2008. "Gostaria de montar um ambulatório médico na associação. Não só para os okinawanos, mas para toda a população", anima-se o presidente. A programação da entidade já é intensa. Duas vezes por semana, os professores Jorge Myashiro e Usafumi Shimada ensinam shanshin, uma espécie de violão de três cordas. Nas segundas e domingos aulas de danças típicas e na quarta ensina-se kuto, um instrumento grande de 13 cordas que lembra uma harpa. "Estas atividades são fundamentais para manter a cultura viva entre os mais jovens. Se os mais novos não conviverem com a tradição, ela vai se perder com certeza", afirma Tetsu.

Um exemplo vivo do que prega o presidente da Associação Okinawa são os irmãos Marcelo e Daniela Nakao. Os dois participaram de programas de intercâmbio entre Okinawa e Mato Grosso do Sul. Daniela foi duas vezes para a ilha, em 2000 e 2001. Ela conta que a experiência foi fundamental para finalmente absorver a cultura okinawana, mesmo tendo sido criada na colônia em Campo Grande. "Não tinha a consciência do que representava ser descendente de okinawanos. Só em Okinawa descobri a minha ligação com esta terra e entendi o valor de se preservar a cultura em Campo Grande", avalia Daniela, de 34 anos.

O irmão de Daniela, Marcelo Nakao, passou 100 dias em Okinawa no final de 2005. Dois mil brasileiros vivem em Okinawa atualmente. Mas a surpresa foi constatar que os jovens de lá estão mais distantes da tradição que os descendentes de Campo Grande. "Simplesmente percebi que nós preservamos muito mais a cultura okinawana em Campo Grande do que as próprias pessoas de Okinawa. O jovem de lá não sabe o que eu sei sobre a ilha, os antepassados, os rituais, os costumes...", garante.

A questão é que Okinawa é controlada pelos norte-americanos desde a Segunda Guerra. Passados anos, a ilha ainda abriga 39 bases militares dos EUA e um contingente de 17 mil norte-americanos. Resultado: a cultura de Okinawa foi sufocada e os jovens acabaram sendo muito influenciados por tudo que vem dos EUA. Bem ao contrário de Campo Grande, uma cidade que se mostrou perfeita para a fixação dos okinawanos no Brasil. Para começar o clima é quente, o que agradou a colônia. E a população campo-grandense abraçou um dos símbolos da culinária de Okinawa que é o sobá, prato típico da ilha que acabou virando iguaria popular de Campo Grande.

Segundo seu Tetsu, ao contrário do que a maioria pensa, o sobá é uma herança originária do período em que a China dominou Okinawa. Todos sabem que existe um segredo que faz com que o sobá fique realmente saboroso. Ele não chega a revelar, mas dá a dica. "O verdadeiro sobá é feito com macarrão artesanal. E este macarrão tem de ser feito com água de cinza de madeira", entrega. Com segredo ou não, o fato é que o sobá gera uma verdadeira indústria em Campo Grande, desde pontos acanhados de venda até restaurantes inteiros dedicados exclusivamente ao prato. "Não existe mais controle da colônia com o sobá, virou comércio. Mas sempre o que vai contar é o preço, a qualidade do produto e o atendimento. Sem estes três fatores não dá certo", pondera Tetsu.

Se o sobá foi o ícone cultural de Okinawa que mais se destacou em Campo Grande, outras atividades artísticas e culturais passam desapercebidas. Ficam no âmbito da colônia apenas. Para Marcelo Nakao, a maioria da população de Campo Grande não sabe muito bem a diferença de Okinawa e Japão e nem percebe que a maioria dos japoneses que estão em peso nas feiras e no mercado municipal é de Okinawa. Um trabalho silencioso, por exemplo, é realizado por Hiroshi Gushiken. Ele fundou a Academia Gushiken Cultura Okinawa em sua própria casa e mantém atividades constantes para a colônia.

O senhor Gushiken, de 72 anos, é um dos fundadores da colônia em Campo Grande. Seu pai era japonês, ele nasceu nas Filipinas, foi criança para Okinawa e veio para o Brasil em junho de 1958 em um navio com destino a Santos. O mesmo porto em que chegou a primeira embarcação trazendo japoneses ao Brasil em 1908. Veio com a família para esta região de trem e se instalou em Mato Grosso para se dedicar à agricultura. Não deu certo e eles voltaram para Campo Grande em 1959. Desde então, Gushiken se transformou em um desbravador. Sua família foi uma das primeiras a criar frango para abate em granjas. Foi o primeiro açougueiro japonês da cidade. Vendeu sobá na feira entre 1986 e 1995. Há alguns anos é o principal produtor de tofu - queijo de soja - da colônia.

Gushiken também é um dos que fabricam os tambores típicos de Okinawa. Ele explica que tem vários tipos. O taiko, que é grande, o shimay, que é dividido por uma cordinha, e o pananku (tipo pandeiro) são alguns deles. O taiko grande sai por uma média de R$ 500,00. "Comecei a fabricar o taiko em 1984 com a intenção de manter a tradição mesmo", diz com seu português quase indecifrável. Da primeira geração da colônia, chamada de isseis, Gushiken mostra bem o conflito de gerações que a colônia enfrenta. "Os isseis são unidos. Já os nisseis pensam diferente. Nós montamos a base e eles agora têm que dar prosseguimento à tradição". reclama.

Para a turismóloga Mércia Kayori Yamamoto, de 34 anos, e que viveu 12 anos em Okinawa, um dos motivos dos jovens daqui estarem se desligando da cultura da colônia é o fato de ser muito caro ir para Okinawa. Uma passagem de ida e volta para a ilha custa $ 2 mil. Na sua agência, especializada em pacotes para a comunidade nipo-brasileira, a ida para Okinawa de campo-grandenses acontece quando ocorrem os festivais tradicionais da ilha, em maio e outubro. "É muito caro. E não existe trabalho em Okinawa para os dekasseguis, os descendentes de japoneses que emigram ao Japão, pois não há indústrias. Por isso, quem vai ou é para estudar ou para turismo mesmo", explica.

Uma forma de conhecer a ilha e trazer os okinawanos para Campo Grande é através de intercâmbios como o Programa de Treinamento Além-mar. O governo de Okinawa disponibiliza bolsas para descendentes que vivem na América Latina desde 1993. São sete descendentes por ano que vão para Okinawa e o mesmo número de okinawanos vem para o Brasil. Para participar do programa, é preciso ter formação em qualquer área, descendência okinawana e uma família responsável nos respectivos países. "A minha família recebe todos os anos alguém de Okinawa. Já ficaram quatro aqui. Eles se sentem em casa. A única diferença é que em Campo Grande não tem praia", compara Daniela Nakao.

Proporcionalmente, Campo Grande possui a maior colônia de okinawanos do Brasil, só perdendo para São Paulo. O grupo de 50 jovens que tocam taiko da Associação Okinawa roda o Brasil fazendo apresentações. Daniela e Marcelo lembram também que existe uma banda campo-grandense, a Uchinanchu, que segue a tendência dos músicos de Okinawa, como a cantora Natsukawa Rimi. "Lá a onda agora é reinterpretar clássicos. Dar uma nova roupagem. E agora tem bandas em Campo Grande fazendo o mesmo", conta Marcelo.

A mistura de cultura do Brasil com a de Okinawa, na verdade, é um caminho sem volta. Se de um lado os fundadores da colônia querem manter a tradição de forma mais pura possível, como o senhor Gushiken, de outro está seu Tetsu, já nascido no Brasil e que tem uma postura não tão radical. "O futuro da colônia é o abrasileiramento. É uma questão de sobrevivência", vislumbra o presidente da associação.

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marcelonk · Campo Grande, MS 17/11/2006 02:10
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