Levantar questões sobre o futuro das quadrilhas juninas era o objetivo das palestras do Professor Paulino, UFS, e do militante cultural e, também, professor da rede pública de ensino, Zezito Oliveira, colaborador da ONG Ação Cultural, no Centro de Criatividade, em maio do ano passado, em Aracaju. O evento foi parte de vários debates sobre cultura promovida pela Secretaria de Cultura do Estado e do próprio Centro. Também participaram do encontro membros e dirigentes de diversas quadrilhas, além de jornalistas e militantes culturais.
Dentro do tema quadrilha, coube a cada um dos participantes mostrarem uma visão particular sobre os problemas que cercam essa manifestação popular colonial. Apesar da liberdade dada aos participantes, as diversas falas, ali, apresentadas giraram em torno do Tradicional, do Moderno e do Espetáculo.
O professor Paulino apresentou um olhar sobre o tradicional. A importância e significados das quadrilhas juninas dentro do ciclo junino. Já o militante cultural Zezito, falou das mudanças próprias da dinâmica cultural e sua influência na modernização das danças juninas, bem como da necessidade de um andar junto entre tradicional e moderno. Olhares distintos, mas semelhantes no entendimento de uma não prevalência do tradicional sobre o moderno ou vice-versa. Não houve uma aceitação ou negação de uma hegemonia, mas apontaram algumas sugestões para a manutenção da tradição frente à força do contemporâneo.
Já a participação dos dirigentes e membros de quadrilhas ou quadrilheiros, como se intitulam, foi revelador. Para os quadrilheiros o momento é de Espetáculo. De abandono do tradicional para algo que se apresenta como moderno. “Devemos deixar de lado a tradição, pois o momento é de espetáculoâ€, afirmou um dirigente de quadrilha. Posição compartilhada por vários dirigentes. Mas a visão sobre o que é ser moderno está restrita a espetacularização de um momento: a apresentação em concurso. Ninguém ganha concurso vestindo calças remendadas com chapéu de palha e camisas de xadrez, por isso a necessidade da modernização.
Sabemos que concurso de quadrilha não é novidade. Ele é tão tradicional quanto à própria dança. Nem tão pouco existe concurso sem disputa. A competição é condição da sua realização, ou seja, a escolha dos melhores ou da quadrilha vencedora. No entanto, o sentimento da brincadeira não era afetado pelo espÃrito de competição, como hoje se percebe.
Os concursos são organizados como parte dos festejos de junho. Aqui, em Aracaju, podemos citar como exemplos a competição da tradicional Rua de São João, do Arraial Arranca Unha, Centro de Criatividade, e o Levanta Poeira da TV Sergipe. Este último, pela notoriedade dada à vencedora e, também, pela disputa regional, tem chamado mais atenção dos quadrilheiros. Cabe a nós, tentarmos identificar essas mudanças. A fim de entender melhor esse momento de espetáculo.
Acredito que profissionalização do concurso e a notoriedade dada ao Levanta Poeira, Rede Globo, contribuiu para preocupação somente com a espetacularização. Hoje se escolhe um representante estadual para disputa regional, no qual sairá a melhor do nordeste. O que mexe ainda mais com o sentimento de competividade. Outro ponto importante é a mudança espacial da festa. O enfraquecimento do São João nos Bairros onde se dava, originalmente, as brincadeiras de quadrilhas. E ainda a redução do entendimento de Tradição para questões puramente estéticas.
O esclarecimento dessas questões podem nos levar ao entendimento da passagem da brincadeira ao espetáculo. Pois o momento, de fato, é do Espetáculo e da Modernização. É uma competição. E, ali, naquele tempo de apresentação, todos querem fazer bonito. É hora não só de sincronizar os passos, mas principalmente causar deslumbramento. AÃ, sem dúvida, não cabe mais a camisa xadrez.
Primeiro, a descaracterização, que pode ser entendida, como mudança própria da dinâmica cultural ou desaparecimento do tradicional. O que se busca nas danças juninas quando se fala em tradicionalismo é o aspecto visual. Uma forma de se vestir. Os detalhes da caracterização do brincante. Aquilo que o identifique como o matuto e a moça da roça. Nesse aspecto, penso que, mais uma vez, vem à interpretação de tradição como algo estético. Pensando no mundo real, o matuto usa hoje celular e internet.
A modernização é inegável. Desde as vestimentas até a escolha dos temas das apresentações. Mas não estaria o desaparecimento do tradicional ligado a perda da tradição enquanto história e memória coletiva? O carnaval do Rio de Janeiro é hoje o melhor exemplo de festa popular que virou espetáculo. Mas o que está por trás dessa festa é a Comunidade. E a Comunidade é tradição enquanto história, enquanto memória. Ela não se apresenta mais como o Morro romântico de décadas passadas. Contudo, não se esquece de que aquele lugar é berço do samba e de grandes compositores da música popular brasileira.
Segundo, a tal modernidade custa em média 50 mil reais. Ao mesmo tempo em que é desejada, acaba se tornando um problema. Não somente para as quadrilhas existentes, como também, para surgimento de novos grupos. Em 2011, 15 quadrilhas deixaram de se apresentar, segundo a Liga das Quadrilhas de Aracaju. Este ano, na etapa de Nossa Senhora do Socorro, do Levanta Poeira, ouvir dirigente falar que houve uma baixa de 20 grupos, em relação ao ano anterior.
Dessa forma, os problemas financeiros as tornam dependentes do poder público ao longo do ano. Esperando uma ajuda, participações em editais de cultura ou, ainda, convites de Prefeituras ou do Governo do Estado para apresentações com fins turÃsticos. E mesmo assim, nem todos são contemplados. Daà a importância de se ganhar o concurso, principalmente aquele de maior notoriedade.
As soluções, a meu ver, ou uma tentativa, seria o entendimento de tradição enquanto história e memória coletiva, fruto das quais são as quadrilhas. Dessa forma, reconhecendo-se como elemento da própria comunidade da qual está inserida, como bem lembrou Professor Paulino.
Não se trata da invenção de uma impossibilidade. Mas apenas de reconhecer que é de algum lugar. Ter o sentimento de pertencimento, sentindo de novo o estar junto. Acredito assim, que poderá criar uma rede de relacionamentos com a própria comunidade, de ajuda mútua. Sair do significado de concurso como competição para cooperação.
Será preciso também seguir o caminho da profissionalização. As quadrilhas juninas ainda são vistas como manifestação popular presa ao ciclo junino. E precisam ser percebidas como grupos artÃsticos. Possivelmente, nem os quadrilheiros se veem dessa forma. Vários grupos da dança tradicional gaúcha, por exemplo, têm agendas de apresentações artÃsticas em teatros, restaurantes, churrascaria, festas em cidades e escolas. Então, vai ser necessário serem mais que brincantes, mas gestores, administradores, comunicadores culturais e, com preparo, saber tirar proveito da indústria da cultura.
Até mesmo porque transitar pela indústria cultural não é pecado. É imprescindÃvel. Mas tem que saber fazer esse percurso, ir e voltar. A gestão cultural se apresenta como um aliado nas relações profissionais entre grupos e mercado. E a profissionalização é o caminho obrigatório para sustentabilidade. Pois as indústrias culturais estão preparadas e sabem tirar proveito, usando as manifestações populares apenas num momento de espetacularização ou audiência. Em apresentações, muitas vezes, em troca de cachês que não cobrem sequer os custos de deslocamentos e o tempo individual gasto.
Para finalizar, reapresento as soluções apontadas, como possÃveis caminhos, para sobrevivência das quadrilhas juninas. Primeiro, pensar tradição como história e memória coletiva, reconhecendo como parte de uma comunidade. Construindo laços de afetividade e cooperação. Segundo, constituÃrem-se, profissionalmente, como gestores culturais para tentarem manter uma relação mais equilibrada com a indústria cultural, se isso é possÃvel. Enfim, transformar a criatividade, utilizadas na composição de figurinos e enredos para os concursos, numa força capaz de construir sua sustentabilidade, dentro da tradição sem esquecer o Espetáculo.
Excelente reflexão, Antonio! Na teia da cultura emaranham-se invenção, tradição, modernidade, reinvenção, contemporaneidade, raÃzes, antenas, e outras séries de "...ades"e "...ões". Concordo contigo quanto à perspectiva da gestão cultural, e acrescento que ela pode ser o fio condutor para o exercÃcio dos direitos culturais, para que as pessoas exerçam o direito de participar da vida cultural com liberdade para (re)criar e (re)inventar. Para engrossar este caldo, segue um trecho do verbete "identidade cultural", do Dicionário CrÃtico de PolÃtica Cultural de Teixeira Coelho:
"... a identidade cultural, se ainda for possÃvel usar essa expressão, transforma-se em processo de construção continuada (montagem e desmontagem, formação e reformulação), deixando de apresentar-se como entidade estável a ser descoberta e endossada tal qual. O processo de identificação apontaria para o fato de que todo indivÃduo compõe-se de uma série de camadas de significação, aproximadamente equivalentes a suas personae, ou personalidades, que podem ser vividas seqüencialmente ou, no limite, concorrencial mente, num mesmo tempo..."
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