Publicado originalmente no: http://mascandocliche.zip.net
Era estranho ver naquele momento que é verdade o que eu pensei por vários anos ser mentira. Não era, não poderia ser simplesmente uma sensação à venda. Era uma alegria minha, somente minha... não tinha nada a ver com o que a televisão, com o que os outdoors, com o que os panfletos diziam. Talvez fossem os balões, a rua cheia, o sorriso do vendedor ambulante, a coreografia improvisava do casal à minha frente, o pôr-do-sol no Farol da Barra, o cheiro do mar e a sinestesia dos dias em Salvador. Até o aceno sem graça da cantora em cima do trio parecia belo.
Foram segundos, três ou quatro no máximo: parei e olhei tudo a minha volta, como uma cena clichê de filme Ãtalo-americano, à la Gabriele Muccino, em que se resume uma vida, num instante. Deu até para ouvir a trilha sonora. Era uma música que não tinha nada a ver com aquela que fazia a multidão saltar como drogados sem ritmo. Era Batatinha e “é carnaval... é hora de sambarâ€.
Ouvindo e vendo, eu vi ali que era, à vera, verdade o que pensei ser mentira. O carnaval de Salvador tem algo além do desespero comercial que deixa na carne viva o contraste financeiro do Brasil. O coração bateu forte, o arrepio deixou o dedão e sacudiu o cabelo... é inexplicável, mas era real. O carnaval soteropolitano vende abadá; faz de favelados cordeiros; conquista turistas que vêem tudo dos confortáveis altos camarotes; isola os ricos dos pobres; usa o espaço público das ruas para separar os que podem, dos que não-podem; mas naquele 4 de fevereiro, à s 17h50 era impossÃvel não perceber que se existe algo de bom nesse paÃs, esse negócio chama-se perto das 18h, numa segunda-feira de carnaval.
Não posso mais concordar que o carnaval é uma ilusão que acaba nas cinzas da quarta-feira. Também não posso justificar que mudei de opinião porque só agora conheço os festejos daquele mundo de lá. Já estive em Salvador, nessas mesmas condições outros vários anos... já fui pipoca, já fui turista, já estive de fora e de dentro das cordas de isolamento... já estive de cima de um camarote e debaixo de um troca socos.
Ali, eu, o tempo em câmera lenta, o casal dançando, um turista sorrindo, um beijo da cantora saltando para a multidão, um pelotão de cordeiros, o sol entrando no mar, pobres e ricos parados admirando o chegar da noite, pobres e ricos cantando uma música sem letra e uma criança chorando por ver pela primeira vez o trio passar. Espero ver mais vezes, espero que você veja!
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