Em Nome das Pessoas Comuns

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bacamarte · Santos, SP
18/9/2007 · 38 · 1
 

Tem um poema em que se repete uma estatística sobre a mortalidade de crianças do Piauí, e é só nisso que consiste o poema: na afirmação reincidente do mesmo dado, até que ele consiga se transportar além da voz que lê, além do som que ecoa na garganta, subindo o corpo oco até o cérebro. Lá pela décima-terceira repetição, sinapses (de classe média?) finalmente compreendem o que se diz. Funcionou assim com este que escreve, e tenho comigo a vergonha que o poeta soube que iria criar no momento da leitura. A frase que segue precise talvez da mesma técnica: o presidente do senado, Renan Calheiros, ontem foi absolvido das acusações que lhe faziam, por 40 votos a 35.
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Embora se saiba assim por cima que nem todo trigo é joio e vice-versa, acontecimentos como esse dão a impressão (que é com certeza útil para alguém) de que este país só se presta à desonestidade, e seus políticos só servem aos seus próprios umbigos. Mas eu vi o deputado Fernando Gabeira ser atacado por um segurança para poder assistir à sessão. Também ouvi, na discussão que antecedeu a votação, a proposta do senador Cristovam Buarque – queria ele que o primeiro dos julgamentos de Renan fosse gravado em vídeo. Mesmo que os brasileiros não pudessem assistir naquele momento, poderiam talvez em dez, cem anos, e desta forma não haveria essa “lacuna†na história nacional. Do blog dele, retirado do O Globo: “um dia o povo tem que saber o que aconteceu aquiâ€.
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Se não pelos políticos, a idéia de que o Brasil inteiro não presta deve ser enfrentada em nome das pessoas comuns. Desconheço dia nesse mundo em que o meu avô Antônio de Oliveira tivesse sido corrompido por qualquer mala de dinheiro. D’outra forma não iria ser, já que ele é o homem que repetia que se a mão esquerda pensa em roubar, a direita pegue um machado e a corte fora. Não se soube também de nem sequer um centavo que minha avó Margarida Gomes de Oliveira tivesse pego de quem quer que fosse, e eu não contaria outra história dela, ela que era submetida a teste por patrões que deixavam aqui e ali jogada uma jóia, uns mil cruzados, pra ver se pega, pra ver quem é quem. A origem que tenho é idônea. Fui criado por pessoas que trabalharam a vida inteira e agora, diz o poeta, não tem mais direito a nada.
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Lembro inclusive de um documentário que vi e não me lembro o nome. Havia marido e mulher e todas as suas crianças. Moravam na rua, catavam lixo, viviam sob lonas e sacos de lixo. Entrevistados, a mulher reclama: que se tivesse casado com um “mafiosoâ€, não estaria naquela situação. Mas era revolta boba e não creio que ela própria quisesse mudar. Afinal, não largou o esposo. Ele, simples e magro e mais nobre do que eu ou você, leitor. O homem disse que não, preferia acordar todos os dias às três da manhã. Preferia trabalhar sem futuro e sem glória até o fim dos séculos, a se tornar um ladrão. O eco disto transpassa todas as periferias, de João Pessoa a Salvador, do Rio de Janeiro a São Paulo; a arte registra: “dinheiro é bom e quero sim, se essa é a pergunta, mas dona Ana fez de mim um homem, não uma putaâ€.
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E embora as pessoas geralmente se mostrem muito nervosinhas em relação à corrupção, eu procuro e procuro na internet e não consigo encontrar nenhum outro protesto além do realizado ontem à noite na Universidade Católica de Santos. Depois, fizeram uma passeata. O objetivo é que esse protesto fique maior, abrangendo as outras universidades daqui. Vamos ver. É preciso que isso aconteça em outras partes do país, de modo que sejam muitos focos, e que isso se torne realmente uma voz. As manipulações que a revista Veja desnudou em um artigo dessa semana só são possíveis porque não existe opinião pública, não existe povo. A idéia que os políticos são a nossa voz e estão lá pela vontade da sociedade é um objetivo, não um fato consumado apenas porque queremos, apenas porque votamos. É precisamente porque nos permitimos ser nada que todo esse absurdo acontece.

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Felipe Obrer
 

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Abraço,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 19/9/2007 09:34
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