Entrevista - Prosa Têxtil com Henrique Schucman

Henrique Schucman
Henrique Schucman e sua obra
1
Alex èrza · São Paulo, SP
28/1/2011 · 0 · 1
 

Um dedo de prosa com Henrique Schucman
1. Comente: " Será que essa pesquisa de materiais que Henrique vem fazendo já algumas décadas, traz em sua essência a mesma busca incansável pela técnica que seu Mestre Aroztegui lhe passou?"
R: Certamente! A minha primeira tapeçaria com materiais reciclados foi o Retrato de Aroztegui. Lembrava-me constantemente de uma insistência em que levasse sempre comigo sacolas de plástico de compras para catar fios, cordas, fibras que por acaso aparecessem no caminho. Uma vez me fez catar no meio da pista da Av. Paulista um pedaço de sisal “ trabalhado” pela passagem de carros e pneus. 2. Nos conte como foi estudar, aprender, conviver com o grande Mestre Uruguaio Ernesto Aroztegui?
R: Inicialmente não tinha nenhuma referência sobre Aroztegui. Entrei no curso a contra-gosto quase constrangido pela Marina Overmeer que me deu a primeira aula de pente – liço na Clínica Tobias. Na primeira aula nem fui. Mandei uma aluna a ir no meu lugar que pela sorte da Vida não quis fazer e pagar pelo curso e no final da tarde me devolveu o tear semi urdido e falou que o Ernesto só aceitaria um aluno. E ela não iria. Perdi a introdução e até pensei com meus botões que aquilo era uma porcaria de curso. Tinha como critério a quantidade tecida e não a qualidade da informação implícita nos exercícios. Só percebi aonde eu estava e a importância do curso, para mim um atalho de varias encarnações de pesquisa e técnica têxtil, no quinto mês. Foi aí que abandonei meu método de ensino de “manualidades no tear “ por um método que era consistente e completo. Uma linguagem têxtil e não algumas palavras de uma lingua desconhecida mal e mal decoradas. A partir daí a relação foi de pai e filho.
3. Atelier Casa 11 e Pouso do Tapeceiro significam dois momentos distintos na sua trajetória profissional, como era seu processo de criação na Casa 11 e quais transformações ocorreram de lá para cá no seu modo de trabalhar e criar.
R: O Atelier casa 11 começou quando eu estava em processo de formação , na segunda faixa do Aroztegui. Tecer tapeçarias no alto-liço era uma forma de aprimorar a técnica, testar o aprendizado, criar desafios técnicos que me impelissem para frente e ter o que mostrar para os alunos e pessoas interessadas na Tapeçaria. A questão sobrevivencia era forte na composição das forças que somadas davam nas minhas decisões. A partir de 1992 com a mudança para Florianópolis a busca de qualidade de vida virou meu foco principal e não mais a sobrevivência. Desta forma todo o meu trabalho acompanhou esta busca e voltei a contactar os nucleos motivacionais e valores que sempre tive. O interesse agora era qualidade de vida. Isto queria dizer qualidade do ambiente externo e interno. As escolhas de Imagens para tecer deixaram de ser desafios técnicos para serem sobre assuntos que me ocupavam a mente e as emoções. A indicação a representar o Brasil na Trienal de LODZ na Polônia me impulsionou mais ainda para ir de encontro com o que buscava. O próprio curador da Trienal foi quem me deu o toque. Tratava-se de expor os trabalhos de artístas texteis que trabalhavam com seu entorno. De lá para cá foi como entrar naquele espaço-tempo em que o Universo parece conspirar a teu favor.
4. Sua formação Acadêmica é Engenharia Elétrica, com pós-graduação em Engenharia Nuclear Ambiental, também é Designer Têxtil e professor de Técnicas Têxteis; você é um Mestre que "busca renovar na pesquisa de materiais e tem uma profunda obstinação em reaproveitar tudo que possa ser cortado em tiras e ser tramado" - Nos fale sobre suas idéias de sustentabilidade, reciclagem, matéria prima, preservação do meio ambiente
R : Do ponto de vista econômico, ecológico e expressivo o material reciclável que encontramos é tão superior ao comprável no comércio que não vejo mais porque usá-lo. Ademais, a abundância do material reciclável é tanto que também quase que impõe o seu uso. Estamos entupidos de materiais recicláveis por todos os lados. Além disto não tenho mais apego as minhas ideias e planos mentais que me fariam correr atrás de materiais oferecidos pelo comércio que os manifestassem. Abro mão de uma ideia que precise de apoio deste lado. A Obra de arte ao meu ver não tem compromisso necessariamente com durabilidade permanência satisfação de mercado etc. Há quem queira sair por aí. Há quem ache este caminho apropriado. Para mim compor com todas as possibilidades existentes é mais importante. Sustentabilidade é absolutamente imperioso a estas alturas diríamos da evolução deste planeta. Nem há o que discutir a não ser que estejamos totalmente desconectados da realidade.

5) O exercício manual é necessário para todo tapeceiro, tecelão, artesão, porque as duas mãos trabalham dividindo tarefas, assumindo riscos e buscando equilíbrio... Como nasce seu interesse pela Arte Têxtil e como analisa atual momento da tecelagem?
R: O meu interesse pela Arte têxtil deve provir de fora para dentro num sentido , pois não pertencia ao meu universo de opções e talvez de dentro para fora considerando outro nível de profundidade do ser talvez ligado a outras encarnações ou influências de uma memória ancestral.
Já o atual momento me parece o melhor para tudo, inclusive para a Arte Têxtil. Estamos num momento que me parece nunca antes havido neste planeta. O acesso as informações, ao conhecimento acumulado pela humanidade e aos bens que disto provem é inédito. A quase onipresença dos tecidos na vida humana, nas aplicações utilitárias bem como estéticas ou estruturais é intensa. Usos no campo das terapias ocupacionais e pscicoterapeuticas também são possíveis.
O problema está na escolha. Não é qualquer um que consegue escolher verdadeiramente. Quase tudo é imposto por uma propaganda, uma onda de moda, ou uma invasão do consciente ou inconsciente coletivo manipulado pelos que tem interesse em explorar ao máximo e sem escrúpulos os outros seres humanos.
Daí é que o tempo, matéria prima maior da tapeçaria fica escasso por estarmos atrapados nesta armadilha que o sistema criou. Escolher a arte têxtil hoje é quase uma das formas de se libertar desta armadilha. Mas aí há um cuidado a tomar. Querer concorrer com as opções tecnológicas oferecidas hoje leva mais facilmente a uma escravidão total já que a valorização dada pelo sistema a este metier é algo por assim dizer inexistente. Melhor dizendo : sem registro. Cada um deve criar este valor e demonstrar aos outros que é real. Através da arte têxtil a saída depende totalmente da tua criatividade. O sistema não te dá nada pronto neste sentido.
6. Há vários tipos de teares (Tear de Pente liço, Alto Liço, Tear de prego, Tear de Pedal, etc), poderia nos brindar com explicação técnica e diferenças no uso de cada um.
R: Podes ver assim: Teares são meios de produção de tecidos , sejam utilitários, artísticos ou mistos. Assim como os carros, aviões, cavalos, submarinos, skate, bicicleta são meios de transporte.
Existe um tear melhor para cada fim e alguns que servem para vários tipos de tecidos. Os diferentes teares e não são só estes que foram citados possibilitam criar tecidos com diferentes funções e apresentações. Cada qual tem diferenças pequenas ou grandes na forma e no funcionamento mas compartem o fato de lidarem com dois conjuntos de fios. A Urdidura e a Trama. O importante é saber o que se quer produzir para escolher o melhor tear para este fim. Quem conhece todos pode escolher melhor e quem não conhece deve se aconselhar com quem conheça. As diferenças de cada um, os usos e a tecnologia de cada um necessitaria de um livro ou um compêndio e não pode ser respondido numa entrevista. 7. Gosto muito da sua obra "Cidadíndio", 1986, poderia falar um pouco sobre ela?
R: Cidadíndio foi concebida a partir da suposição de que um índio estivesse vendo o que é hoje o Vale do Anhangabaú , na cidade de São Paulo. Representa o olhar estarrecido da natureza sobre uma obra humana. Um imenso congestionamento na Av. Rubem Bertha chegando ao Anhangabaú, na noite altamente iluminada de São Paulo, chovendo, sendo visto por um índio nu com seu filho no colo. Todo o progresso impedido de fluir. estático, parado, gastando energia, convertendo o Carbono Fixado pelas plantas depois de milhões de anos novamente em parte da atmosfera de onde ele foi retirado. O falso progresso , o absurdo cotidiano e o testemunho da criança que olha direto para o olhar de quem admira a Obra.Tem um poema de Ernesto Bologna feito para esta obra que talvez eu consiga resgatar e te passar futuramente , que divaga sobre esta imagem de forma magistral.
8. Além do Mestre Aroztegui, que outros Artistas e Designer Têxteis foram ou são importantes nas suas pesquisas, encontros e estudos?
R: Atualmente o mais importante está sendo o lado plástico ( ceno e sono) da própria realidade. Vejo arte em tudo, em todos e não canso de admirar a infinidade de formas que passam em frente aos meus olhos. Qualquer ser humano é uma Obra de Arte aos meus olhos , independente de ter sido feita pela Evolução, Pelo Museu de Cera, por um estudio de cinema, pelos “ carnavalescos “ de uma escola de samba, etc. Vejo tudo mais ou menos maravilhado. Nisto tudo, os artistas , assim chamados, músicos, escritores, interpretes, performers, pintores, escultores, cozinheiros, perfumistas, baristas, equilibristas, shakesperianos ou circences, web designers, palhaços ou cantores líricos ou populares, tem a maior importância. Para mim os artistas são seres humanos com um parafuso a mais e não a menos como querem crer alguns. A maior arte para mim é sobreviver criativamente, fato que para mim é estar “vivo com saúde”. Concordo com quem disse que inventar uma recita que alimente melhor e mais saudavelmente a humanidade é mais importante que muita invenção e para mim isto é mais arte que muita coisa assim chamada. Tenho meus preferidos , mas são muitos. Muitos mesmos. Gente do tipo Calder, Guimarães Rosa, Cora Coralina, Escher. Concha Buika. Crianças Felizes ! Gosto de gente, de artistas que viveram muito. Que faleceram de tanto lutar. Que resistiram ao desespero. Que driblaram o sistema e não se suicidaram,. Admiro alguns heróis que viraram mártires mas não tanto como os que teimaram em viver. 9. Disserte um pouco sobre "Falange dos Tecelões".
R: Ouvi falar pela primeira vez desta falange espiritual, considerada a mais antiga do planeta, através de Vera Helena Camará grande amiga, mestra, terapeuta, psicóloga que vive em São Paulo. Não tive curiosidade nem achei necessário na época pesquisar sobre o assunto. Simplesmente me senti parte da mesma como se fosse uma religião que se nasce nela. Acabo de pensar que seria interessante entrar mais profundamente no assunto e investigar um pouco.
De todas as formas além de saber que é uma falange de tecelões, também chegou junto a informação de ser espiritual e de ser a mais antiga do planeta terra. Acredito que foi esta a primeira “ profissão “ e não aquela outra de que se faz piadas.
Desde sempre o trabalho têxtil foi feito cooperativamente. Quem fiava, eram os pastores que aproveitavam o tempo do pastoreio e com tudo na mão, a lã , os tubérculos e os galhinhos voltavam com uma meada pronta para o tingimento. Quem ficava em casa cuidando tingia e tecia e assim o trabalho era dividido e a necessidade e vantagens da união grupal ( uma falange ) se confirmava. O mesmo se dava com o algodão, os agricultores ou a seda. Sempre houve a necessidade de união grupal, cooperação e creio até que o sentido de justiça vem destas atividades cooperativas, pesca e arte têxtil. Comida e Proteção contra as intempéries.
Podemos juntos investigar este assunto e creio que acharemos muito material interessante.
10. Ainda sou um aprendiz na Arte da tecelagem e assim como eu há muitos iniciantes apaixonados pela arte - na manufatura do tecer o que mais importa?
R: Encontrar o que te dá tesão de fazer. Aquilo que teu ser interior põe fogo. Aquilo em que tuas emoções apostam. Como em tudo e “meter a cara” e TRABALHAR. Cora Coralina , artífice das palavras , dizia que não há palavra mais bonita em todas as linguas que a palavra TRABALHO. 11. Uma pergunta recorrente que me fazem é sobre a perda de centimentros na laterais entre o começo da trama e seu fim; há como evitar essa perca ou é normal? Qual a importância da tensão dos fios e quais principais técnicas da tecelagem?
Há possibilidade sim. Para isto tens que entender o que a causa e como isto é causado. O assunto só é explicável audio-visualmente mas é bem simples.
A Tensão dos fios é um elemento usado na produção de resultados. Determinado tecido pode necessitar mais tensão , e outro menos tensão. Não necessariamente tensão máxima ou mínima.
Há bem mais que 40 técnicas têxteis bem diferentes uma das outras. Novamente é necessário um compêndio para caber todas elas. 12. Nos fale um pouco sobre suas andanças e experiências com Artistas Têxteis internacionais.
Os que tive possibilidade de conviver mais ou mesmo conhecer pessoalmente e por um tempo além do Ernesto Aroztegui por ordem de tempo de amizade e trabalho conjunto são os seguintes. SUSAN KLEBANOFF cuja história e encontro foi dos mais ilustrativos do que é a sincronicidade mas que fica para uma relato oral em outra oportunidade. Susan é para quem gosta uma consulta obrigatória. Não tem paralelo em outras artistas têxteis. A sua criação de obras com inumeras camadas abre uma fatia enorrme no bolo de possibilidades têxteis. JEAN PIERRE LAROCHETTE E YAEL LURIE considerados os pais da nova tapeçaria nos USA , estabelecidos em Berkley na California e com um estudio em EL TUITO, perto de Puerto Vallarta no México . Organizei curso com ambos em Florianópolis e estive em suas casas e estudios. Dois seres de Luz , profundos amantes do que fazem. Uma das filhas, Yasmin Larochette é formada em conservação de têxteis e trabalha nisto veio ao Brasil e esteve visitando Florianópolis, Gamboa e São Paulo. BARBARA HELLER de Vancouver , Canadá é com quem tenho completa afinidade em interesses e técnica. Vale a pena procurar na WEB por seu trabalho. E embora não a conheça pessoalmente como fanático pelo seu trabalho sempre sito a SUECA, estabelecida nos USA , HELENA HERNMARCK. Por fim recomendo fortemente que procurem tudo sobre o Casal ARCHIE Brennan e Susan Martin Maffei http://www.brennan-maffei.com/ . Estive com eles recentemente em seu Atelier em Nova York, na ponta de uma linha de metrô ao Norte e novamente me surprendi com a profusão de informações por m² , encontrada. Archie desenvolveu vários esquemas de teares para usar em viagens que se assemelham aos nossos teares de aprendizagem mas feitos de cobre.

13. Conte-nos um pouco sobre o Pouso do tapeceiro e quais os projetos para 2011.
Tenho aqui além das atividades com turistas que vem conhecer a Região, A Reserva do Tabuleiro, As Baleias Franca cursos e vivências durante o ano. A que mais tem me mobilizado é a que chamamos de TEÇA E ACONTEÇA aonde exercitamos a gestão de imprevistos no cotidiano a par de técnicas têxteis. A próxima está marcada para a semana de 23 a 30 de Julho de 2011 onde juntaremos Alimentação Viva, Sucos Verdes , Leites da Terra com 7 técnicas têxteis, uma a cada dia. Vamos convidar 7 participantes a ensinar cada qual uma das técnicas. Tenho um projeto em andamento de um Mural de Mosaico de 130 m² que leva 350.000 pastilhas de vidro para a fachada de nossa Associação Comunitária BEIRA MAR da Gamboa, Tapeçarias em curso da série RUPESTRES e exposições a começar por Porto Alegre em maio.
A par disto curto cada vez mais o plantio de espécies úteis para a alimentação humana segundo os princípios da Nutracêutica e tenho me empenhado em plantar e manter um viveiro para propagação das mesmas aqui na região.
14. Para finalizar: o que não entra na sua trama, no seu urdume?
R: Em princípio tudo pode participar de uma trama já a urdidura é mais exigente.
Na minha tapeçaria a Urdidura faz o papel mais estrutural e a trama expressivo.
De uma forma geral a rigidez em ambos os casos atrapalha. FIOS , LINHAS, FIBRAS rígidas são quase sempre deixadas de lado. Precisam de uma ocasião especial para entrar no Têxtil. Há um momento para a rigidez como no caso das esteiras, cortinas, nos tecidos limitrofes com a cestaria onde cai bem a rigidez.
Devido a razões de adequação aos papéis não entra em cena o que não é, momentaneamente pelo menos, adequado ao papel. Como numa peça teatral onde um texto é escolhido por seu significado. Há uma intenção de transmitir este conteudo , suas qualidades inerentes, etc.
O que não servir a esta intenção, pelo menos num dado momento, é tratado como obsceno, ou seja fora da cena. Não estava no script escolhido.
A sensibilidade artística é que vai determinar a cada momento o que é mais adequado. O discernimento do artista , racional ou intuitivo é o mais importante para determinar o que entra ou não entra na obra.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Alex èrza
 

+ acessem: www.peixesempeixes.blogspot.com
entrevista com imagens do Mestre Henrique.

Alex èrza · São Paulo, SP 28/1/2011 12:41
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados