Entrevista - Um dedo de Prosa Têxtil com Juan Ojea

Juan Ojea
Construção de um tear
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Alex èrza · São Paulo, SP
17/2/2011 · 0 · 1
 

1. Se estou correto são quase quatro décadas de carreira, certo? E pelo que entendí, as primeiras duas décadas (70 e 80) foram intensas, reveladoras, cheia de encontros, estudos e descobertas; já as duas últimas décadas (90 e 2000) – a partir da abertura do Ateliê do Tatu, o que essas mudanças lhe porporcionaram...
R - Realmente, no inicio dos 90, com o fechamento do Atelier Linha Cruzada, dedicado a manufatura de Tapetes encerrei um ciclo.
Comece a sentir um certo incomodo, será que estava cansado do Brasil? Minha vida deu uma virada, viajei para Europa, e por uma serie de motivos descobri que na verdade estava cansado da grande cidade, todas são mais o menos iguais, um monte de luzinhas vermelhas e um monte de luzinhas brancas.
Voltei da Europa com a idéia de morar no mato! Foi daí que surgiu o Sitio do Tatu. Onde montei uma marcenaria, o Atelier do Tatu. Foi este o período em que tive meus filhos, e tenho me dedicado ao Design de moveis por vários anos.
Mais descobri que na verdade meu coração é de pano!…de fios, o têxtil tem para mim uma importância absoluta.
Comecei ai meu retorno ao têxtil.


2. Na entrevista dada ao Jornal O Nó Cego, você diz que em suas obras sempre explora: volume, a luz e a interatividade com o espectador. Como vê os espectadores da arte textil no Brasil e que respostas eles lhe trazem nas suas exposições...? (Se há algum apredizado singular, se há algum feedback interessante que possa me contar)
O espectador da arte têxtil no Brasil é muito aberto,Talvez pela falta de um olhar formado, ancorado e exposto a Tapeçaria Clássica. Isto leva a um publico mais sensorial que racional.
Nunca esquecerei na 3ª Trienal, um índio Surui ,levado pela minha amiga Bety Mindlin ,fascinado com a exposição, vibrava, tinha encontrado algo nessa estranha cidade que o remetia a sua cultura, a sua raiz, algo que ele sabia fazer! Não era mais um marciano, pertencia ao mundo têxtil.
As Trienais, como evento estável do Museu de Arte Moderna forneciam ao publico uma perspectiva diferente. A perspectiva do têxtil como arte. Todo isto alavancado também pela imprensa que difundia essa onda Têxtil mundial. Na época existiam críticos. E, é esta uma pergunta que não acho resposta, porque se extinguiu no Brasil a critica de arte? Cadê os críticos? Cada jornal tinha um staff de críticos, que faziam uma leitura do que surgia no campo das artes. Hoje talvez existam, mas sem mídia!



3. Como analisa a linguagem têxtil nas duas últimas décadas (avançou, se renovou, diminuiu ?
R - Bom, não da para escolher uma das três opções, possivelmente as três simultaneamente.
Claro que teve um retrocesso, não só no Brasil, mas no mundo. Ao ponto que precisou trocar de nome. A tapeçaria ficou estigmatizada, e ressurge com o nome genérico de Têxtil.
Por outro lado como toda coisa primal e profunda, supera os desígnios cíclicos e ondulantes da moda ditada pelas mídias e ressurge, agora ancorada no mundo saturado de tecnologia , num mundo a procura de equilíbrio, de contato com o essencial, cansado do mundo de vidro! Chamo o mundo de vidro a ver o mundo através de um televisor ou um monitor.Esta necessidade pelo olfativo, pelo táctil, enfim, nossa cultura é áudio visual, estão faltando sentidos!
E e nesse espaço que navega o têxtil .Eu criei uma obra em 1979 junto com Eva Soban para a Mostra da Escultura Lúdica, no MASP, que era um labirinto sensorial têxtil. Fiquei maravilhado com a resposta do publico. A arte também se cheira e se toca!!!


4. Aliás, como vai seu processo de observar o mundo e como se traduz, se reflete e se ilumina nas suas produções atuais.
R - Observar é a chave!
Tanto observar o mundo como observar uma vareta nas tuas mãos, forçar ela a se curvar, quando ela vai quebrar? E uma conversa entre vc e ela.,vc pré-sente o instante.
Desta conversa surge o arco que permite caçar e comer. Dessa conversa entre vc e a matéria surge a tua obra.
Por exemplo: Eu não gosto de misturar lã e algodão na mesma trama, porque os dois são macios e nessa concorrência entre macios, a lã ganha, e vc não quer perdedores… quer todos os materiais plenos. Já a lã e Sisal é um bom casamento,a lã macia e o sisal mais agressivo e duro - um da contraste ao outro, os dois plenos com suas características.
A essência da arte e a observação e colocação fora de contexto. Por isso a moldura, para separar, o que esta fora e a realidade, e o que esta dentro...e o sonho, o território livre.



5. Walter Polack, Ana Foss, Maria Helena Chartuni, Ernesto Arostegui, Eva Soban, Noberto Nicola, Nádia Resende, Henrique Schumann... são nomes de pessoas que só muito recente passei a conhecer, estudar (Você sabe que teço apenas nos últimos anos), mas você conviveu com muitas delas, as conhece, partilham da Arte Plástica e Têxtil, e eu era uma criança de colo quando a linguagem através das fibras começou a ser traçada... o quê de mais significativo lhe vem a cabeça agora, que aprendeu com elas, ou que viveram juntos e fora bastante significatico... Qual seu primeiro pensamento ao ler esta pergunta? (eu penso no mar de Iemanjá)
R - Bom, meu primeiro pensamento também é Iemanjá, porque acabei de leer na pergunta, Rs! E, imediatamente veio a imagem. Alem disso apesar de ser Agnóstico, e talvez a única entidade que me resulta simpática, junto com Buda…Mas voltando ao inicio da pergunta, minha primeira referencia têxtil é Ana Foss, foi com ela que comecei a tecer, em Buenos Aires,La pelo 19..73 ou 74.
Norberto Nicola é outra influencia importantíssima. Para mim foi uma grande escola, como artista, como abordagem da questão da fibra, mais também a conciliação com o fazer coletivo. Com ele tive a certeza que o importante é o têxtil como expressão, como movimento coletivo Ele tinha a força de um touro, não só para criar a própria obra mas também para criar o que podemos chamar de equipamento, de entorno para a arte ser difundida. Tive a sorte de trabalhar em diferentes momentos junto com ele: primeiro Centro Brasileiro da Tapeçaria Contemporânea por ele criado junto com Douchez, e Zoravia Betiol,do qual fiz parte da 2ª diretoria.
Organizamos a 3ª Trienal de Tapeçaria no MAM de São Paulo, junto com Eva Soban, e fizemos parte do júri de seleção e premiação, montei com ele Arte plumaria do Brasil, talvez uma das melhores exposições do MAM, que foi um aprendizado e tanto, estético como de política, de costura política, com museus, colecionadores. Como conciliar os egos dos artistas, administrar Patrocinadores e Críticos de Arte. Enfim, de como fazer a maquina andar alem da própria obra.


6. Linha Cruzada e Ateliê do Tatu são dois modos de comunicação diferentes com o mundo, penso, e são movimentos decorrentes do caminho que você percorre como artista e pessoa, comente…

R - Linha Cruzada como falei no inicio era uma manufatura de tapetes em tear. Consegui criar uma linha de tapetes com uma identidade própria.
A época era tomada pelo Kilim, e produzir aqui, eu achava um absurdo, porque vc faz um kilim de 4ª sem a força tribal do original. Criei então uma linha baseada no tear de tecelagem, de 4 quadros mais com a solidez e peso de tapete, utilizando desenhos em sarja dupla, ou seja com a urdidura completamente protegida pela trama.
Já o Atelier do Tatu esta vinculado ao período descrito no inicio, o design de moveis.


7. "Tear: o principio de seu funcionamento é calcado em elementos essenciais: urdume, trama, cala e pente. Que técnicas aperfeiçou, e se puder responder como dica aos apaixanados pela arte da tecelagem, conte-nos seu segredo em tecer bem. (Risos)
R - Acho que só pode se tecer com paixão.
Não existe tecer bem, já vi noutra entrevista tua curiosidade sobre o encolhimento lateral de um tecido, o efeito camiseta, rs! Tem diversos motivos que causam isto, mais o controle sobre isso pode te levar a forçar o efeito para ser utilizado como forma expressiva.
Não tenho uma técnica para dizer: é essa… Tenho desenvolvido tecidos leves, as minhas primeiras tapeçarias eram com urdiduras aparentes e figuras solida flutuando em diferentes planos, tenho utilizado tecidos muito batidos para os tapetes, feito experiências com papel, tanto tecer o papel vegetal ou fazer papel.
Nas primeiras visitas de Ernesto Arostegui ao Brasil, fiz a primeira parte do curso, saber desenhar é importante, como importante é saber ensinar. Tecer bem é como cozinhar, precisa condições básicas como não ter sal demais, não deixar queimar o fundo…mais depois cada características pode ser utilizada como forma expressiva.Tem gente que pode achar que misturar doce com salgado é um erro. O que define o erro ou o efeito e a intenção.


8...Moda. Artes Plásticas. Cenografia. Internet... o tempo urge, muita coisa ao mesmo tempo agora acontecendo... Por onde vai navegar profissionalmente em 2011, pode nos contar sobre algum projeto novo?
R - Tem coisas agregadoras rolando como um encontro que estamos organizando com Renato Imbroisi e Marta Meyer, dos Homus Textilus como definiu com humor o Karol Pichler. Este encontro se chamara TENET, e junta alguma velha guarda com gente que esta no metier nos últimos anos.
Será no fim de Abril, e o interessante serão diversas tribus têxteis, a da Tecelagem a da Tapeçaria, Design, Wearble art, Feltragem, enfim, tem festa na aldeia.
Sobre projetos, tenho feito algumas incursões pela escultura em madeira, são pilhas de livros esculpidos em madeira maciça.
Dentro do têxtil estou retomando um ponto que deixei estes anos em suspenso, que é tecer papel fotográfico.
Tenho também um projeto “Tecendo na água”. São fios ou fibras, pequenos gravetos flutuando sobre a água, superpostos. Tenho feito experiências no meu lago. Fotos de isto geram imagens talvez plotters.
Enfim, estou tentando dar forma a estes projetos.


9 Você está montando um leque de opção para desenvolvimento daqueles que se sentem atraidos pelo textil; são cursos para iniciantes ou mais elaborados para quem já tece, correto? Agora pergunto para onde caminha a Arte Têxtil ? Como são seus cursos ou como é para você repassar conhecimentos? E só por curiosidade há chances de de termos Trienais de Tapeçaria novamente? Pensa nisso?
R - Sempre desenvolvi a atividade docente. Fiz o curso de Ernesto Arostegui nas suas primeiras visitas a SãoPaulo, porque alem da técnica de Tapeçaria clasica, era um exelente perfesor e me interesava do ponto de vista pedagógico. Tenho dando cursos e palestras na FAAP, na Facutade Santa Marcelina, muito junto ao SESC. O importante na atividade docente, mais que passar um conhecimento técnico é abrir janelas.
Criei em 1977 com Miguel Paladino uma galeria de arte chamada Galeria da Fabrica no SESC Pompéia antes de virar centro cultural.
Depois de executada a reforma do Projeto da Lina Bo Bardi, idealizado por Glaucia de Amaral , montei a oficina de Tapeçaria, junto com Ana Cordeiro. La ministramos cursos para centenas de pessoas, das quais algumas desenvolveram e exercem até hoje atividade Professional.
Tive também a experiência do Projeto Periferia do Mario Chamie, que foi muito rica, aprendi muito, trabalhando com tecelagem em áreas carentes.
Aprendi que mais que fonte de renda, produção de utilitários, querem fazer Arte!! Que chamam de “Enfeite” mais é arte! A grande parte da população carente precisa de arte para viver!
Sobre a chance de ter Trienal novamente...O MAM nunca mais cogitou , mais isto é coisa de cada diretoria.
A pergunta é, ele ou outra instituição recebeu alguma proposta concreta de continuidade? Talvez o que falta é pressão por parte da classe artística. O grupo têxtil do FB me deixa otimista, embora seja um grupo mais genérico, que junta Artistas, Artesões e Designers ,sinto no ar um movimento revigorante. Você Alexandre com teu Blog e um exemplo de essa efervescência.



10 "A estrutura da tecelagem é a mesma a séculos, embora os métodos tenham se reinventado" TECIDOS, Dinah Bueno... O que anda lendo, estudando, pesquisando. E como é seu engajamento com a sustentabilidade, reciclagem de materiais?
R - Sobre métodos, gosto para tecelagem utilizar lançadeira (que é de 1733) mais os instrumentos não são importantes, ate hoje pintar consiste em esfregar um pincel na tinta e depois na tela! O importante é o que pintar!! Vc quer um tear, para fazer quê? As ferramentas são o menos importante…
Sobre sustentabilidade e reciclagem, eu separo lixo, embora não tenha coleta seletiva, eu separo, e como um exercício de formação individual.
Já teci fita cassete numa obra antiga, mais como procura de reinventar, por isso fico feliz de ver teus tecidos com fitas VHS e fitas do padre Cícero, é uma escolha mais expressiva que ecológica. Tenho um convívio muito intimo com a natureza, vivo no meio dela, num aprendizado diário. Agora, a reciclagem, fazer cinzeiros com garrafa pet, é interessante como exercício, mas o importante é por exemplo fazer asfalto com pneu velho!
O que precisamos e consumir menos plástico! Comprar produtos de fabricantes que já tenham essa consciência e otimizem sua embalagens. O outro dia vi uma noticia de uma maquina que transforma plástico em gasolina! É perversa!! O que temos e que consumir menos plástico e menos gasolina!!


11. É possível o tecelão aplicar sua tecelagem as artes plásticas e moda, seguir os dois caminhos, ou uma vai sobressair sobre a outra naturalmente?
Claro!! É como um circulo virtuoso! Uma alimenta a outra e vice versa.
Claro que em alguns momentos uma vai sobressair, mais esses caminhos não são opostos, são parceiros! Principalmente agora que a moda e considerada patrimônio cultural! A famosa Arte Aplicada!


12. Manipular fibras para você é?
R - Uma conversa, prazerosa e vital.


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Alex èrza
 

Para ler entrevista com imagens e links acessem~:
www.peixesempeixes.blogspot.com

Obrigado
Alexandre Heberte

Alex èrza · São Paulo, SP 17/2/2011 15:03
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