Prosa Têxtil com René Scholz

Rene Scholz
Tapeçaria
1
Alex èrza · São Paulo, SP
8/2/2011 · 1 · 0
 



Olá Rene Scholz
aqui estão perguntas para nossa "primeira entrevista"....

1. Você é um artista muito curioso, sempre une pesquisa e trabalho, que procura experimentar diversas possibilidades da arte: desenha, pinta, esculpe, faz tapeçaria e ainda um pouco de música - nos conte como é seu processo criativo hoje após tantos anos de estudo, dedicação, trocas de experiências, práticas, viagens? O que te inspira.

R: Inicialmente deixe-me cumprimentar todos seus leitores e também o entrevistador pela iniciativa de contribuir a pesquisa da Arte Textil em nosso País. O que se tem registrado sobre este assunto, na internet, na nossa lingua, é muito pouco. Cabe a todos aqueles que tem um mínimo de capacidade de redação e conhecimento do assunto, dar sua parcela de contribuição.
Quero avisar também aos leitores que respondi esta entrevista usando hipertextos, ou seja, palavras em azul sublinhadas que remetem a imagens, textos e sites que complementam as idéias aqui lançadas. Quanto ao meu processo criativo, o que acontece é que além de artista-artesão sou também um professor de Artes Plásticas e tenho a sorte de trabalhar numa escola, há muitos anos, que me propicia uma sala onde posso explorar as inúmeras possibilidades deste campo. Assim, posso desenhar, pintar, gravar, tecer, etc. Mas sempre e por trás de toda esta pesquisa está o processo educacional. Existem alunos observando este trabalho e aprendendo com isto. Em outras palavras, minhas obras são um subproduto do trabalho educativo.Minha inspiração vem dos alunos, da liberdade, do campo, das matas, dos rios. Também me comovo com as mazelas dos animais, humanos e não humanos.


2. Sua Bisavó "A Mãe pai Chico", sua Mãe D. Zélia Scholz e seu irmão Marcelo Scholz fizeram você experimentar a tecelagem e a decidir que rumo tomar, "de ser artista ou operário"- nos conte a importância de sua família para sua carreira e trajetória profissional e o papel de cada um nessa história.
R: Em 1972 minha bisavó esteve em Curitiba e minha mãe lhe pediu que tecesse um bacheiro . Foi mandado fazer um tear primitivo em conformidade com suas instruções e ela começou a tecer. Me interessei e sentei ao seu lado para aprender. Mas, dentro da família um adolescente é influenciado pelos seus. Assim, para nós que viemos do interior para estudar na capital, o "normal" foi procurarmos a Escola Técnica Federal do Paraná. Caminho já percorrido com sucesso por um primo influente na família. Assim, aos 14 anos "escolhi" a Eletrônica. Fiquei nesta escola por 7 anos. 4 do Curso Técnico e 3 de Engenharia Eletrônica.
Os anos do curso técnico foram mais suportáveis pois estávamos em turma. Eu e mais dois irmãos mais velhos. Existiam atividades extra classe disponíveis, nelas encontrei refúgio para ficar por lá: natação, diretório estudantil, Banda Marcial e Teatro. Esta escola e as pessoas que lá encontrei foram muito importantes em minha vida e continuam sendo até hoje. Muitos amigos que lá conheci ainda mantém contato até o presente. Mas chegou um momento em que a tecelagem falou mais alto e resolvi ser artista. Meu irmão Marcelo me influenciou nesta escolha pois ele trilhou o caminho das Artes Visuais na faculdade e estava obtendo relativo sucesso. Minha mãe também foi decisiva pois ela estava atuando no Centro de Criatividade de Curitiba, ensinando Tecelagem Primitiva em Lã de Carneiro. Sempre estava na mídia. Precisava de um auxiliar e eu me apresentei para o serviço. Mesmo na feira de artesanato, onde eu ia auxiliar a Dona Zélia, as pessoas paravam, ainda param, para observar a roda de fiar, conversam conosco falando de suas avós e de seu passado. Ví nisto um sinal da importância do nosso trabalho. Foi mais ou menos assim o processo pelo que passei para tornar-me artista.


3. A produção dos seus tecidos podem ser vistos na Feira do Largo da Ordem, aos domingo, em Curitiba, desde 1985. O que o movimento da Feira lhe ensina, fale um pouco dessa experiência, das alegrias e dificuldades de "estar na rua", do ser artesão tecelão, da sua visão do ARTESANATO brasileiro de lá para cá.
R: Aqui em Curitiba o movimento artístico da Feira do Largo da Ordem é muito importante, pois é a Praia dos curitibanos. É um programa obrigatório para visitantes e para os habitantes da cidade se aquecerem nas frias manhãs de domingo daqui. Quase todos os artistas a utilizam para mostrar e vender suas obras. Na feira as pessoas veem nosso trabalho, fazem encomendas e procuram aulas. Na feira também sofremos influência do público, que atua no sentido de aceitar ou rejeitar determinado produto. Estou lá há 25 anos. Minha mãe há 35 anos.


4. Nó Cego e Pequeno Museu da Tecelagem são dois projetos lindos, agregam e propagam conhecimento a todos apaixonados e interessados pela Arte Têxtil; poderia falar sobre esses canais de comunicação. Está escrevendo algum livro sobre o assunto?

Uma coisa brotou da outra. Quando descobri a internet em 2002, ví logo a sua potencialidade para divulgar nosso trabalho. Estive em Florianópolis para conversar com o Colega Áquila Klippel que então já havia criado o www.tecelagemanual.com.br, e suas orientações me foram importantes. Cheguei até o MSN Grupos e lá criei o grupo "Handweavers". Minha idéia inicial era trocar informações com o mundo todo, por isso o nome em Inglês. Como este grupo permitia a criação de pastas para armazenamento de material digitalizado tais como fotos, textos, documentos em PDF, etc, me veio a idéia de criar um Museu Têxtil. Fiquei com esta idéia na mente até que encontrei um amigo artista, o Hélio Leites, criador e portador do Museu do Botão, o qual ele carrega numa bata que veste. Pensei então em colocar a palavra "Pequeno" antes de "Museu" e assim estaria livre para colocar o projeto no ar. Horas mais tarde estava pronto o museu. O interessante da idéia de museu é que ele se expande a cada novo link anexado às suas páginas. Então, ele de pequeno, só tem o nome. O Jornal Nó Cego eu escrevia e o mandava pelo e-mail. Depois descobri ser mais fácil deixá-lo na internet e mandar só o link, sem incomodar ninguém, penso eu. Os outros blogs surgiram naturalmente.
Sobre livros, ainda não o fiz. Mas é uma idéia que ronda meus pensamentos correntemente. Até agora escri somente monografias . Escrevi sobre as Tecelãs Zelia Scholz e sobre Margarete Depner.


5. Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e,
ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um...
... porém, se dois homens vêm andando por uma estrada cada um carregando
uma idéia, e, ao se encontrarem, eles trocam as idéias, cada homem vai embora
com duas..."
Você é formado pela Faculdade de Artes do Paraná... atua como professor de artes, já esteve no interior do Tocantins, em São Salvador, para ensinar cooperados pelo Ateliê Nossa Senhora Auxiliadora, também trabalha com detentos que o obriga a limitar material de trabalho, ou leciona para leigos e demais interessados - o que queremos saber é - qual a importância de ensinar, qual as percepções e sensações que essas trocas lhe possibilitam, e futuros projetos como professor?

Ensinar é uma missão divina. Deus age através de nós. Nossa influência pode mudar a vida de uma pessoa. Eu mesmo tenho na memória as palavras e ações de meus mestres. Também nos possibilita conhecer pessoas que têm interesses comuns. Nos dá desprendimento e facilidade de falar em público. Seria a melhor profissão do mundo não fossem os salários...
Minha vontade este ano é achar um lugar para formar um grupo de estudo têxtil. Preciso deste contato. Na escola onde trabalho quero continuar com a Radio São Francisco onde estou aprendendo mais do que ensinando. Também estou interessado na área de vídeo e cinema.


6. Sustentabilidade, preservação do meio ambiente, novo modelo social de usar melhor e com responsabilidade os recursos naturais - como essa questão está se refletindo nos seus trabalhos e como observa movimento sustentável?
R: Sempre achei muito importante esta questão, desde os anos 80 quando comecei. Até mesmo por isso quiz aprender o trabalho com a lã pois é um produto natural e biodegradável. Ao contrário da maioria dos belos fios que temos por aí e que no futuro serão poluição. Também tenho trabalhado com reciclagem de tiras de tecido para produzir tapetes. Não tenho trabalhado com tingimentos pois não sei e não teria como tratar a água colorida que resulta deste processo.
Em nosso trabalho há uma parcela ínfima de perdas, que são as pontas aparadas dos xales. Aqui em Curitiba existe a coleta seletiva, chamada de "Lixo que não é lixo", o caminhão passa dia sim, dia não. Quando existe possibilidade de reaproveitamento encaminhamos a sobra para este serviço. Sobre a questão do uso de produtos animais recomendo a todos os leitores que assistam o filme "Terráqueos" para assim repensarem suas práticas. Também recomendaria o "História das coisas" , um filme muito importante para valorizarmos os produtos artesanais. Por falar em filmes deixo aqui o endereço da minha coleção de filmes no youtube .

7. Para iniciantes da tecelagem, por onde começar, nos fale um pouco sobre esse valioso e antigo instrumento de trabalho o TEAR, quais são, quantos são .
R: É impossível falar do tear sem antes falar da Tecelagem. Arte que permite a expressão da personalidade criativa do artista utilizando para isto dispositivos chamados de "Teares", alguns de fácil construção. Ao contrário do que se imagina, um tear simples como este, é muito mais versátil que um tear de Pente. Me parece que neste tear simples está a semente de todos os outros tipos de teares. Um tear pode ser classificado em diversas modalidades tais como sua procedência, a matéria prima de que é feita , quanto à posição de sua urdidura, etc, Para que está começando recomendo um tear de pente-liço de 60 cm de largura com cavalete. Num deste se pode ganhar a vida. Quanto à última pergunta - Quantos são- eu diria, são tantos que não se pode contar. Para maiores informações clique aqui.

8. Quem lhe influênciou e influência na Arte Têxtil?
Minhas influências foram : Zélia Scholz - Minha mãe, Maria José Gomes Correa, minha vó, Ana Maria de Jesus - minha bisavó, aTecelã Húngara Margarete Depner e a tecelã Dorotéia Werner.
minha sócia e companheira.

9. O que entra e o que não entra nas suas tramas e urdumes?
Tenho usado fibras naturais, sintéticas e tiras de tecidos reciclados. Não uso couro nem nada que contenha crueldade no processo de obtenção. Até com a lã de carneiro tenho minhas restrições. Na verdade ela me dá alergia. É o calo do tecelão - rinite alérgica.

10. Projetos para 2011?
Reunir um grupo de estudo têxtil no mundo real. Continuar minha Rádio. Tenho um curso a ministrar na Bahia em julho, já está tudo certo. Voltar a estudar a lingua Alemã e violão.

11. Poderia escolher dois trabalhos seus e falar um pouco sobre o processo de criação ou... fique livre na escolha e como apresenta-os
- Cavalo - É uma escultura para ser fixada desde o teto. Ela flutua e gira sob um eixo definido pela fixação. Foi construída para participar num concurso de esculturas, no qual não fui classificado. Ela já não existe mais, somente ficou este registro. Gostei muito de fazê-la e do resultado final.
- Tapeçaria sem título - É um pequeno quadro de 8x13 cm, é tecelagem sobre papelão. Mostra a facilidade do tecer e ao mesmo tempo suas infinitas possibilidades.


12. Que relação você tem com o mar?
Aprecio muito o mar e as paisagens marinhas. Não como mais peixes. Estou fazendo minha parte para mantê-lo saudável.

13. Designer, moda, decoração, artes plásticas, internet - o mundo contemporâneo, como está sua relação com esses universos, consciente e inconsciente... como trânsita nesse mundo?
R: Busquei a internet pela necessidade de me manter informado. Era um meio novo de comunicação que surgia e eu não podia ficar de fora, sob pena de me desatualizar. Ao ingressar no mundo virtual, ví que havia a possibilidade de interagir com as pessoas e com os sites e portais. Assim, essa possibilidade me levou a criar páginas informativas, os sites, grupos e blogs. Para municiar estas páginas de informação fui compelido a me informar. As informações relativas ao Têxtil remetem diretamente ao mundo da moda, da decoração e das artes plásticas.
Para finalizar, quero lhe parabenizar e agradecer pela iniciativa de pesquisar a arte têxtil brasileira e dizer que isto vem de encontro ao trabalho desenvolvido pelo Pequeno Museu da Tecelagem. Estas entrevistas são muito importantes para isto e fornecerão subsídios aos futuros pesquisadores deste tema. Caso não saiba comecei há alguns anos atrás entrevistando alguns colegas. Este material está no endereço www.esnips.com/web/scholzrene-Entrevistas.
Saudações e estou às ordens. Um abraço a todos . Viva a Tecelagem artesanal. Viva a cultura popular brasileira. Vivam todos os artistas.





Para ter acesso aos links sublimados na entrevista, acessem www.peixesempeixes.blogspot.com

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