Nesta sexta-feira, 20/02/2009, pela manhã, a APAE-BH realizou, a partir de sua sede no tradicional bairro boêmio de Santa Tereza, um desfile carnavalesco, que contou com uns 500 participantes. Convite disponível aqui.
Esta foi a segunda vez que tive o privilégio de me emocionar e me comover com esta iniciativa, a primeira registrada aqui.
Numa sociedade egoísta, capitalista, consumista e materialista como a nossa, eu jamais imaginaria encontrar uma estrutura tão boa como a que vi na sede da instituição.
Meu pessimismo em relação ao ser humano de uma forma geral sofreu uma razoável redução, reconhecendo, mais uma vez que, de uma forma específica, há exceções.
Felizmente, ainda há quem se interesse em destinar recursos para uma atividade como esta!
Enquanto esta forma tão peculiar de carnaval não se iniciava, eu refletia sobre a certeza de que, mesmo esta maravilha que me sensibilizava profundamente não seria o suficiente para atender todos os que dela necessitam.
Trata-se de um trabalho digno de maior atenção por parte da sociedade belorizontina e nacional, por proporcionar a elevação da auto-estima de um grande número de crianças e adolescentes portadores de talentos especiais. Um exemplo disto é Sílvia, telefonista da organização que supera suas limitações, dando assim, uma função social à sua existência.
Do alto do carro-de-som, Yé Borges me traz à realidade:
"A Escola de Samba Unidos da Diversidade da Apae saúda a comunidade de Santa Tereza e pede passagem!"
O para-choque traseiro do veículo, batizado de Trio Elétrico Ipanema, pregava: "Somente Jesus Salva!", ostentado um versículo bíblico para reforçar esta advertência.
Chamou-me também imediatamente a atenção, até mesmo por seu tamanho se destacar naquela multidão de crianças, adolescentes, pais e monitores, um cantor negro e cego, bastante conhecido aqui em BH, José Carlos Dias Filho, titular da Coordenadoria Municipal de Apoio e Assistência à Pessoa Portadora de Deficiência (CAAPPD-BH).
Várias pessoas proclamavam, orgulhosamente, em suas camisetas, o lema: "O normal é ser diferente!" Como sou considerado e também me considero um estranho no ninho, um ET, etc., sentia-me em casa. Esta é a minha turma!
Moradores das ruas pelas quais passávamos se ajuntavam nas janelas, portas e passeios para admirar tão peculiar manifestação.
O Bloco dos Inocentes, conhecido há anos na região, aguardava o desfile na Praça Duque de Caxias, com dezenas de crianças e adolescentes batucando energicamente seus tambores, integrando-se aos demais.
Foi ali que se deu encerramento da atividade, onde o pároco local, Padre Tiago, entregou a chave do bairro ao Rei Momo Fernando Magalhães Santos, portador de Síndrome de Down, conhecido carinhosamente por seu amigos como Shrek, em função de alguma semelhança física com o personagem de desenho animado.
A rainha da Escola de Samba Unidos da Diversidade da APAE, Rosilene Francisca da Silva, deficiente auditiva, declarou aberto o carnaval na região.
Sanderleia, Graça, Terezinha e os demais membros da direção da APAE-BH se esmeraram em produzir esta extraordinária manifestação que, em sua terceira edição, trouxe um sentido mais elevado à folia que preencherá nossos próximos dias, merecendo nossos mais efusivos aplausos por tamanho despreendimento e abnegação.
Em minha mente, computava aspectos comuns e incomuns deste com o espetáculo gigantesco que veria pela TV e seu valor para aqueles excepcionais, bem como para a grande massa de insensíveis ao sofrimento alheio.
Recém-chegado de um outro carnaval, tinha por termo de comparação também o ideal e a luta dos que experimentaram o calor físico e humano de Belém do Pará, durante o Fórum Mundial de Mídia Livre e o Fórum Social Mundial 2009.
O popular Bira, Presidente da Associação Comunitária do Bairro Santa Tereza, ao encerrar a atividade, convidou os presentes para a tradicional seresta Minas ao Luar, que seria realizada à noite, naquele mesmo espaço público.
Os organizadores registraram por algumas vezes sua gratidão a algumas organizações que contribuíram para sua realização, sem as quais ele não teria sido possível: Prefeitura de Belo Horizonte - Regional Centro-Sul, Polícia Militar de Minas Gerais, Guarda Municipal, BHTrans, Escola de Samba Cidade Jardim, Escola Estadual José Bonifácio, Igreja Católica do Bairro Santa Tereza, Escola de Samba Bem-Te-Vi, Associação de Capoeira de Angola "Eu Sou Angoleiro", CAAD - Coordenadoria de Apoio e Assistência à Pessoa Deficiente, dentre outras que não consegui anotar.
(*) Heitor Reis é um adolescente mesocentenário ou um centenário meso-adolescente. Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (www.cmqv.org) e articulista. Nenhum direito autoral reservado: Esquerdos autorais ("Copyleft"). Contatos: (31) 3243 6286, 9208 2261 - heitorreis@gmail.com - 20/02/2009
Heitor, entendo bem seu texto tão adjetivado sobre o carnaval da Unidos da Diversidade. Tive oportunidade de conviver com alunos e profissionais da Apae durante 2 anos, quando fui coordenadora de comunicação da Federação das Apaes aqui. Quando a gente convive com os meninos e com os dedicadíssimos profissionais (médicos, fisioterapeutas, psicólogos, educadores, prestadores de serviço e administradores das Apaes) é impossível não se contagiar com o espírito de luta e a alegria deles. Aprendi muitas lições com todos eles. Principalmente com os alunos, com os quais me surpreendi muito. Esse carnaval ai deve ter sido mesmo dos bons.
abraços!
Heitor,
Unidos da Diversidade... Muito bom!
O Carnaval, ele mesmo, é a busca de um sentido extraordinário.
Obrigada pelo texto.
Abraços!
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