Hoje me perguntei: Como pude fazer e pensar documentário, sem ter visto o Crônica de um Verão?
O Jean Rouch entrou na minha vida assim, sem querer querendo. Lembro quando comecei a me interessar pela Antropologia Visual e comentei com a minha irmã. Em uma tarde qualquer, ela me ligou e disse que seria legal se eu assistisse o documentário que estava passando na TV Cultura. Tudo começou ali...a minha paixão pelo audiovisual. O documentário em questão era o “Subvertendo Fronteiras†uma produção do Lisa, Laboratório de Imagem e Som da USP. O filme falava sobre a vida de Jean Rouch, sobre o cinema verdade e antropologia. Acho que foi o meu start para um olhar mais sensÃvel e preocupado com a “verdadeâ€.
O cinéma verité é questionado até hoje. A busca pela verdade, pelo real por Jean Rouch , instigou aqueles que não acreditavam que isso fosse possÃvel.
No “Crônica de um verãoâ€, de 1960, Edgar Morin e Jean Rouch inicia com a seguinte pergunta : “Você é feliz?â€.
Antes de ver o filme, apenas com a pequena sinopse na cabeça, imaginei mil coisas....distantes do que seria o filme. A nova experiência com o cinema verdade deixa várias dúvidas, como diz Morin: Existem duas formas de tratar o cinema verdade, uma é tentar capturar a verdade, e outra é discutir a questão da verdade.
Com os diferentes personagens e suas histórias de vida, baseadas em pesquisas sociológicas e antropológicas, pensei na maneira como as entrevistas foram feitas.Em plena década de 60, Rouch e Morin, apresentam novos recursos de captação de áudio, de ângulos e posições diferentes de filmar as situações.
As respostas para a indagação sobre como as pessoas levavam a vida, foram as mais variadas possÃveis, que permeiam entre a alegria e melancolia, a depressão e a esperança.Passa também por questões interraciais e pelo pós guerra, como por exemplo, Marseille,personagem judia e sobrevivente dos campos de concentração. Temas como o mundo operário, a visão de que as pessoas são escravizadas e vivem pelo trabalho, como diz um personagem “Nós trabalhamos 24 horas por dia, porque quando chegamos em casa, dormimos porque temos que trabalharâ€. A insatisfação do ser humano com o sistema,quais os caminhos que a juventude francesa iria percorrer.
Por outro lado, o filme apresenta uma atmosfera da ficção, da Nouvelle Vague,do cinema de observação. Como diziam os comentaristas, no filme há interferências, a busca pelo real que acaba se resultando em uma verdade cinematográfica.
Os personagens interagem, expõem seus sentimentos e suas impressões sobre o filme, quando os diretores projetam a obra para eles. Após as falas, Morin e Rouch conversam sobre os efeitos, sobre o que funcionou e o que não funcionou. Um exercÃcio de entendimento da aproximação entre o real e a ficção.
De qualquer forma, hoje vou dormir pensando nessas questões sobre ser feliz ,na verdade, queria me questionar mais sobre isso, porque essa dúvida surge como uma reação a realidade, a monotonia, ao tédio. Uma pergunta que me parecia tão simples, mas no fundo é bem complexa.Talvez porque tenha medo de entrar em contato comigo mesma, com as minhas dores, frustrações, alegrias e realizações, isso tudo incomoda e pode resultar em sensações nem sempre agradáveis,enfim...
“ Em suma, querÃamos fazer um filme de amor, e fizemos um filme da indiferença...Um filme de reação, que não é necessariamente simpática,essa é a dificuldade de comunicar alguma coisa...nós já sabÃamos disso.â€
Edgar Morin (último diálogo do filme entre Morin e Rouch)
texto extraido do blog da LetÃcia Fiochi
http://leticiafiochi.blogspot.com
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