EU, BATE-BOLA - máscaras, desordem, festa, amizade

Still do espisódio-piloto.
Manto de Bate-bola - figurino projeto CLAUN.
1
FELIPE BRAGANÇA · Rio de Janeiro, RJ
12/3/2013 · 18 · 0
 

Eu, bate-bola (máscaras, desordem, festa, aventura e amizade)

1.

O tecido pesa mais quando está molhado de suor. Dentro da máscara, a respiração tem o som amplificado e a rua se parece com um filme bonito, passando atrás de um filtro muito leve. Os meninos ao redor, todos também mascarados e trajando seus mantos, cantam trechos curtos e repetitivos de algum funk afiado e ingênuo, enquanto ao longe explodem fogos de uma outra “turma†de mascarados que está pronta para sair às ruas.

Aqui, somos quarenta, temos em torno de 20-30 anos de idade – alguns um pouco mais velhos, outros ainda muito jovens. Os fogos no horizonte chamam nossa atenção e caminhamos saltando, gritando e fazendo barulho pelas ruas da Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro.

Carregamos uma sombrinha que nos abençoa ou uma bola feita de plástico presa a um pedaço de madeira que ressoa no chão como um estouro. Somos clóvis, somos clowns, somos bate-bolas.

Eu, bate-bola.

...

2.

O que eu vestem, hoje, é mais do que uma fantasia – é um traje de gala, uma armadura simbólica, uma insurreição de beleza em meio à idéia de ruas meramente feitas para nos levar do trabalho para casa, do cansaço para o sono.

Organizados estamos em grupos em torno de um ou mais “cabeças†que nos lideram e organizam, e assim saímos para a rua buscando atuar o nosso lugar único e verdadeiro onde transformamos a diversão e o prazer em um momento de aventura, amores, magia, imaginação, resistência, música e amizade.

Somos tão antigos quanto o desejo do homem de se libertar nessa cidade. Somos tão antigos quanto o desejo das ruas da cidade de serem engolidas por quem realmente as ama.

...

3.

No norte de Portugal, meninos entre quinze e vinte e poucos anos, se reúnem desde a Idade Média dizem os livros, na região da cidade de Bragança, usando máscaras feitas de couro, roupas coloridas feitas de restos de pano e lona, e carregando cajados de madeira e bexigas de bois secas e amarradas e varas de pau.

É a “Festa dos Rapazes†que toma as ruelas, as estradinhas, as matas e bosques frios do inverno Europeu. Sobem pelas ruas, pelos muros, pelas sacadas das casas pedindo em namoro meninas impossíveis, dançando para elas, assustando as crianças, criando algazarra e confusão em uma paisagem rural feita de repetição, disciplina e ordem.

A liberdade de gerar o espanto. O espanto que a liberdade deles cria nos lugares por onde pisam, indo de vila em vila, de igrejinha em igrejinha, desafiando simbolicamente o desejo de colocar a vida nos limites da obediência e da pureza.

São meio demônios? Meio monstros? Meio ruídos nas colinas.

...

4.

Folclore ou invenção?

A idéia de pureza passa longe dessas roupas que se esbarram, cumprimentam e desafiam nas ruas de Marechal Hermes e nos outros coretos da cidade.
O glitter usado para fazer brilhar os tecidos - e que gruda em tudo, na pele, no cabelo, na barba, na boca - são só a última camada de uma cultura toda feita de camadas, de uma cultura de confusão, sobreposições e colagens. Não há pureza em ser um bate-bola, não há pureza em ser um clóvis, não há pureza em ser um clown.

O manto que carregamos é português, é celta, é africano, é de plástico, é japonês, é pop, é feminino, é masculino, é funk, é marchinha, é aventura e é amor e é farra.

O funk de cada turma, gritado por todos, é sujo e brincalhão, é original e imitação, é comum como um hino e é de cada um como uma reza. Somos o mistério e a graça e o mistério e graça são sempre impuros. Folclore?

Cultura a ser preservada? O orgulho que sentimos por sermos reconhecidos como “patrimônio†é a mesma certeza de que nunca vamos aceitar ser colocados em um cabide para mera exposição como uma cultura pronta, como um traje a ser apenas reproduzido.

Bate-bolas não desfilam. Fomos e seremos sempre vultos ressabiados, indo e vindo, aparecendo e desaparecendo, simpáticos e arredios em um mesmo movimento - como o nosso rosto que sempre está e não-está.

Não há obediência possível em ser um bate-bola, um clóvis. Há, sim, fidelidade e lealdade. Há sim, sentimento de um Mundo a habitar.

Qual mundo?

...

4.

A caminho de Nilópolis, nossos ônibus fretado é parado por um cerco policial. Descemos em fila - somos cerca de cinquenta mascarados de dois grupos diferentes que andavam juntos ali. Somos obrigados a tirar as mascaras, colocar as mãos nas paredes e ouvir gritos de ordem de um policial que nos aponta sua arma sem maiores explicações.

Somos revistados um a um, a procura de drogas e de armas. Remexem em nossos mantos e em nossas máscaras. Mas não encontram nada.

As fantasias jogadas nas calçadas escuras e o medo nos olhos dos meninos mais novos incomoda. Um deles leva um tapa no rosto. Um tapa no rosto por ter ficado desorientado sobre onde deveria se colocar para a revista – mãos na parde, perna aberta, sem máscara. Apesar de estarmos “limposâ€, com nada que representasse uma real ameaça a segurança física de outras pessoas, somos obrigados pelos policiais a subir de volta em nosso homem fretado e voltar para casa. São “ordens superioesâ€, nas palavras do policial, que proibiram que qualquer grupo de bate-bolas se aproximasse do carnaval de Nilópolis este ano de 2013. Perguntamos o porquê. O motivo. Perguntamos do direito de ir e vir. Do direito de criarmos algazarra no carnaval se isso não representar perigo real a ninguém. As respostas são secas e evasivas.

A velha luta simbólica da ordem repressora e da alegria desequilibrante (que está o tempo todo nas entrelinhas do Rio de Janeiro) vem à tona sem meios- termos no carnaval. “É uma questão de precaução†dizem os policiais. E perguntamos: usar roupas de bate-bolas é considerado atitude suspeita e agressiva e portanto cabível de desconfiança? Eu poderia dizer o mesmo de uma farda da PM naquelas ruas escuras da Baixada? Ou eu estaria sendo simplista e preconceituoso?

Por fim, somos escoltados por um camburão até Marechal Hermes, como bandidos, e lá encontramos outros dez, vinte, trinta grupos de mascarados também proibidos de ir a Nilópolis aquele dia, e que resolveram se reunir por ali em torno do pequeno coreto do bairro. Há policiamento ao redor, mas ali os bate-bolas e clóvis parecem ser tolerados como em uma zona de segurança cultural, exclusivista nesse teatro da paz-sob-armas.
Nenhuma briga real é registrada, nenhum conflito real é visto. Mais tarde, o estopim da operação nos chega aos ouvidos: um menino, um bate-bola como nós, havia sido morto aquela noite em uma briga entre componentes de duas turmas – dizem que em Bento Ribeiro, não muito longe de nós.

Duas turmas – entre as mais de quatrocentas (400!) que podem ser encontradas nas ruas da cidade – haviam desencadeado toda aquela repressão e colocado todos os grupos no mesmo cerco policial (concreto e simbólico).
É evidente, e os números mostram, que a violência em aglomerações no carnaval carioca não estão limitadas aos grupos de bate-bolas (outras mortes e brigas infelizmente aconteceram sem nenhuma relação com os grupos – em bares, em blocos, em esquinas e até bala perdida de um policial), mas está claro há muito tempo que somos alvo fácil para o exercício da repressão exemplar: somos
desobedientes e bagunceiros por natureza e nos identificamos como tal através de nossos trajes e nossos signos.

Nossos rituais em comum e trajes representando caos e brincadeira nos torna parte de uma massa simbólica que se faz um prato cheio para as soluções policiais generalistas e para a infiltração de indivíduos procurando resolver disputas de poder pessoais sob o manto de nossa tradição. (Já vimos acontecer algo semelhante em décadas passadas com o movimento funk, ou, muito antes, com o universo do samba - antes de sua oficialização e apaziguamento como “bem-culturalâ€).

Entre a raiva da truculência policial e a vontade de chorar, os meninos mais novos dançam com suas fantasias coloridas e os mais velhos esfriam a cabeça com cerveja e cachaça.

Entre um lado e outro, coloco apenas a minha máscara de volta, e danço por cerca de quarenta minutos de camiseta e short e com rosto coberto em meio a massa de meninos felizes.

Por um instante, a noite está salva. A alegria se faz possível no combate contra o medo da morte que sobrevoa a tudo. E eu diria, por fim, aos arautos da paz- armada, que nossa alegria é um tipo de morte momentânea e potente que nos permite amanhã levantar de novo e esquecer os gritos, o tapa no rosto, as máscaras jogadas no chão.

...

5.

“Somos belos. O mais belos.†Dizem uns. “Somos fortes, os mais fortes†- dizem outros. É preciso entender: em todo o carnaval caminhando em mais de dez bairros, vimos muitas discussões, provocações, xingamentos, desafios, cantos, esbarrões entre as turmas. Vi muito sangue fervendo dentro do corpo, das máscaras quentes e do tecido pesado – mas nenhum sangue fora das veias, na calçada – nada além do sangue que nos sai das bolhas que se formam nos pés e por vezes nos calos das mãos por passar quatro noites seguidas carregando nossos objetos de ornamento e brincadeira. Mas é preciso pensar mais: a morte, a dona morte, é, sim, um tema que está em toda representação monstruosa, não- humana, hiperbólica, da qual fazemos parte.

Como os palhaços das Folia de Reis, que tem origens muito semelhantes em nosso fios de história, nós, os bate-bolas e clóvis representamos também o engano, o erro, o ruído, os Exus, os sacis, Loki, a batalha simbólica do homem com o imponderável, o inusitado e o que nos tira do repouso e do conforto e do planejado. As bombinhas estouradas nas ruas, a batida forte das bolas de plástico no chão quando passam correndo no meio da multidão, o mistério das mascaras e das sombrinhas que caminham em linha projetadas como uma tropa de deuses entre foliões perdidos na festa – tudo ali fala também dos espíritos, do invisível e do impoderável – nos lembra dessa silenciosa certeza de estarmos ali para celebrar a vida. As potências da vida.

Arrisco dizer: quando grupos diferentes de bate-bolas se desafiam e nos desafiam, sem partir para agressões físicas, o que vemos é um das mais belas representações teatrais do embate diário de todos os homens e de todas as mulheres diante do desejo de beleza do espírito contra uma política de representação urbana que muitas vezes só quer nossos corpos como objetos eficientes, úteis e bem-acabados para o funcionamento da máquina urbana.

Eis a questão que tanto incomoda a alguns: como clowns, somos inúteis e inacabados – somos parafusos fora do lugar. Todos os bate-bolas são. Como a morte. Como a representação do Egun do candomblé – a morte, sem rosto, misteriosa, bela, maravilhosa, nos convidando a nos agarrar à vida com todo o nosso desejo e vontade de potência criativa, misturando tudo em nossos corpo feitos de pano e glitter e funk e marchinhas e couro dos animais que antes nos vestiam e trilhos de trem e cimento e asfalto e beijo na boca e cerveja e orixás e São Jorge e riso.

E por isso, todos os anos, nossa fantasia é trocada, jogada fora, reinventada, renovada, recriada sempre nesse gesto de insuficiência e desejo e lealdade. A morte e a invenção estão em tudo que vale a pena na vida.

...

6.

Mas que estranhos poderes mágicos nos fazem suportar tanto calor e peso e medo nos dias de Carnaval?

Os mais velhos falam que ao colocar uma roupa de bate-bola você recebe uma entidade, alguma coisa entre Egum, Exu, Ogum ou um anjo divino.

Apesar de todas as humilhações, alguma coisa nos recebe no colo quando colocamos nossas máscaras e nos leva para dançar e brincar e cumprir nossa missão todos os anos: essa defesa caótica e simbólica dos bairros e ruas onde vivemos e onde nossos amigos vivem. Nessa cidade onde, disfarçados de gente comum, caminhamos pelo resto do ano em roupas comuns...

Clowns, clóvis, bate-bolas se escondem em bares, restaurantes, escritórios, lava- jatos, carros, supermercados, metros, trens, ruas, esquinas. Cansados, sabemos que vamos passar agora 11 meses disfarçados. Olhando a cidade, absorvendo a cultura da cidade, seus dilemas, desafios. Olhando nossos amigos, nossos companheiros, enquanto geramos dentro de nós esse sentimento de novo, esse sentimento que parece fazer nosso pulso sair do peito e se abrir em flor em forma de cores e magia e rostos novos e mutantes, como cavaleiros de um desafio maior que começa na farra e vira maravilhamento absoluto.

Nosso juramento, feito antes de sairmos, nossa reza, é para que todos estejam bem ao voltar – nós e todas as turmas – e para que a cidade não esqueça de si, que a cidade lembre do que ela é feita: de caos e mistério e desafios e invenção... e de amizades no meio disso.
Essa é nossa missão. Todos o anos. Uma pequena contribuição que esses homens, mulheres e meninos mascarados dão para o espaço público urbano carioca.

Para que a cidade não se aceite terminada e eficiente, não se aceite apenas cimento e ferro bem colocados, não se aceite apenas útil, obediente e bem sucedida.

...

7.

Flashback: coloco a meia de lycra, depois os sapatos, depois o manto, depois as luvas, depois minha máscara. Explodem mil fogos no ar da pracinha que nos espera cercada de nossos vizinhos, amigos, companheiros de máscara. E corremos todos para a rua. E pulamos e gritamos. Fábulas em torno de guerreiros, festa, carnaval e poderes mágicos me vêm à mente. E pelos cinco minutos em que os fogos estouram, eu acredito absolutamente nas pessoas da minha cidade.

...

Felipe Bragança, cineasta. Desenvolve o projeto CLAUN, que inclui uma web-série de fantasia juvenil , quadrinhos, documentação e textos sobre o imaginário dos clóvis e bate-bolas cariocas.

O filme-piloto da web-série teve estréia mundial no Festival de Rotterdam 2013 e poderá ser visto em breve em www.claun.com.br.

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