No cerrado tocantinense a Missa do Vaqueiro, tradicional festa realizada no sertão pernambucano em julho para homenagear o vaqueiro Raimundo Jacó, assassinado dia 8 de julho de 1954, ganha uma nova leitura.
A Missa do Vaqueiro em Monte do Carmo, a 89 km de Palmas, assemelha-se à festa pernambucana porque ambas são celebrações religiosas para o homem sertanejo, aquele que lida com o gado no interior do Brasil. Os vaqueiros vão à missa montados em seus cavalos e assim permanecem até o final da celebração: outro ponto de parecença. As divergências estão nas datas: no Tocantins a festa acontece em 20 de janeiro, dia de São Sebastião - padroeiro do Rio de Janeiroe considerado, pelos sertanejos de cá, protetor dos vaqueiros. Os motivos do evento religioso são diferentes, enquanto em Pernambuco a missa é uma criação, datada de 1971, do padre João Câncio e de Luiz Gonzaga - primo de Jacó - , no Tocantins não há um registro de quando começou a comemoração do dia de São Sebastião.
Sabe-se apenas que a festa religiosa teria sido interrompida nos anos 80, sendo retomada em 1998. A última celebração aconteceu no dia 20 de janeiro deste ano e reuniu cerca de 700 vaqueiros e mais 1.300 fiéis na Praça de Nossa Senhora do Carmo, principal da cidade.
Gente simples, de mãos calejadas e olhar sofrido. Alguns percorreram quilômetros de distância entre suas fazendas e a cidade, no lombo dos cavalos, para rezar para o santo. Esta é a principal ligação entre a missa de Pernambuco e do Tocantins: a fé de seu povo.
O vaqueiro Honorato Souza, 72 anos, percorreu 14 quilômetros até a cidade. Foram quase duas horas trotando no sertão, que não pesaram em suas costas. Ele diz que faz esse mesmo percurso todos os anos. "Sou devoto. Venho aqui agradecer as graças que recebi no ano".
Doralice dos Santos, 46 anos e vaqueira há 27, já se acostumou com as dificuldades da lida. "Nunca quis outra profissão", afirmou ela que era uma das poucas mulheres na celebração.
A missa tem suas curiosidades: em vez do sino, como nas convencionais, o som do berrante marca a passagem da liturgia e da oração da hóstia consagrada; o padre celebra a missa com um chapéu de vaqueiro. "O bispo também usa um chapéu só que com o nome e o formato diferente, chamado mitra. Faço isso porque tenho que entrar na cultura do outro, tentando aproximar ao máximo no linguajar e no modo de vestir", disse o padre Edmilson Costa. Segundo ele, a ligação de São Sebastião com o homem do campo é antiga. "A devoção a São Sebastião está ligada à s pessoas fracas e vulneráveis. Na nossa região, o santo é celebrado em janeiro, mês das chuvas, por ser o perÃodo de plantio. Por isso o homem do campo vem pedir a bênção", explicou.
Nos momentos de louvor, as músicas são cantadas em ritmo de forró: triângulo, bateria e teclado - imitando a sanfona - fazem até os mais tÃmidos se remexerem nos cavalos. Os sucessos da Missa do Vaqueiro tocantinense estão em um CD, lançado recentemente pela prefeitura. Dezesseis faixas trazem as canções animadas e de gratidão a Deus. A distribuição é gratuita.
O hábito religioso é antigo - a história de Monte do Carmo começa a partir do descobrimento das minas de ouro, na primeira metade do século XVIII - e passa de geração em geração. Valdivam Pereira, 8 anos, não entendia muito o que se passava na missa, mas já estava lá montado em seu burrinho para homenagear São Sebastião. O prefeito da cidade Condocert Cavalcante conta que toda a festa, que começa no dia 18 de janeiro, tem um significado muito grande para a região.
"Não se sabe a origem exata da festa, mas, ela acontece por causa da relação do municÃpio com a vida sertaneja", disse. Atualmente, a população de Monte do Carmo é de 4.348 habitantes (IBGE 2005). O municÃpio vive da pecuária e da agricultura, são mais de 88 mil cabeças de gado. "A festa em si é um resgate de cultura, mas a essência mesmo é a fé cristã do nosso povo que vem agradecer ao santo as graças que alcançou", ressaltou Cavalcante.
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