Durante boa parte da memória da telenovela brasileira, a trilha sonora foi um capÃtulo à parte, por sua precisão em definir em letra e música os personagens de uma trama. Com o tempo, a trilha deixou de ser coadjuvante para se tornar um grande destaque dos folhetins, em especial por uma qualidade que soava como música para os nossos ouvidos.
Mas, de uns tempos pra cá, o time de músicas para as novelas vem sendo mal escalado, fazendo com que a trilha sonora fique relegada ao papel de trampolim para artistas que, geralmente, têm qualidade duvidosa.Antes de prosseguir, deve-se ressaltar que a avaliação será restrita à s trilhas sonoras das novelas da Globo, por ser a emissora que tradicionalmente fabrica e exporta novelas e porque as demais emissoras não têm o hábito de lançar um disco com os temas novelÃsticos.
Desde 1971, com a novela O cafona, a gravadora Som Livre é a encarregada de lançar as trilhas sonoras originais das produções globais.Nos primeiros anos, as trilhas sonoras desempenhavam bem sua função de fundo musical, com a maioria dos discos sendo formada por canções compostas especialmente para a novela. Neste perÃodo, era comum a novela ter toda sua trilha assinada exclusivamente por uma dupla de compositores, muitas vezes de altÃssimo nÃvel.
Os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle são os autores que fizeram o fundo musical da primeira versão de Selva de pedra, um sucesso assinado por Janete Clair e que obteve 100 pontos de audiência. Os Valle são os responsáveis por várias trilhas de tramas globais nesta época. As venturas e desventuras de Odorico Paraguaçu em O bem amado, de Dias Gomes, foram acompanhadas pela música de Toquinho e VinÃcius de Moraes. Roberto Carlos e Erasmo Carlos foram os responsáveis pelo repertório da novela O bofe, de Bráulio Pedroso.
Com o tempo, os produtores da Som Livre perceberam o filão milionário dos discos de novelas, e a trilha sonora passou a trazer uma miscelânea de canções compostas e interpretadas por vários artistas, o que agradou músicos e produtores. Para o artista, uma música emplacada na novela era garantia de que sua música por um bom tempo tocaria no rádio e alavancaria a venda de seus discos. Para as produtoras, foi uma forma de tornar este mercado mais interessante no meio artÃstico, e também a possibilidade de aproveitar um sucesso do momento e integrá-lo à seleção musical.
Durante muito tempo, esta troca foi sadia para ambos os lados. A música que tocava num campeão de audiência ficava na boca dos espectadores, e era a maneira mais fácil de um artista mostrar seu trabalho. Como os discos de novela tinham excelente Ãndice de vendagem, a aposta em lançar as trilhas sonoras originais trouxe excelentes resultados para a gravadora Som Livre.
Só que, enquanto a vendagem aumentava, a qualidade da trilha sonora das novelas caÃa a cada folhetim novo. Em vez de se preocupar com músicas condizentes com a trama da novela, o produtor musical passou a fazer da trilha sonora um trampolim para os artistas brasileiros, transformando o disco numa coletânea de sucessos e de candidatos a sucesso no cenário da música brasileira.
O resultado salta aos ouvidos do espectador, que é obrigado a acompanhar uma novela e a digerir músicas de qualidade duvidosa, e interfere até no trabalho dos escritores. Muitas vezes, os novelistas são obrigados a mudar ou adequar suas tramas de acordo com o repertório designado para compor a trilha sonora.
Cada vez mais, a direção musical, a cargo de Mariozinho Rocha, vem perdendo a direção na hora de escolher as canções que irão embalar os personagens e espectadores da novela. Apesar de ter uma trama complexa, o final desta história é bem previsÃvel: o fundo musical vai acabar mesmo fora dos trilhos.
Legal, Vinicius. Seu texto me fez lembrar da minha monografia de fim de curso, que foi sobre um suplemento musical que saÃa no Correio da Manhã nos anos 70. O Mariozinho Rocha era um dos jovens envolvidos e o engraçado é que ele falava mal das músicas usadas na TV nos seus textos. Tentei entrevistá-lo pra monografia mas ele não quis (aliás, é muito raro ver entrevista dele). Sem querer julgar nada, é curioso que ele tenha se tornado O homem da trilha sonora da Globo depois desse passado, digamos, alternativo.
Só achei que faltou você falar da trilha sonora da 7 Pecados (você só cita na legenda). Pelo visto ela foi o gancho para você tocar nesse assunto, né. Abraço
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