Inhotim e o Barroco Mineiro

1
J R Moreira Melo · Belo Horizonte, MG
31/10/2015 · 0 · 0
 

José Roberto Moreira de Melo - Apesar dos esforços e do entusiasmo de alguns críticos, o Inhotim ainda não logrou ter o seu papel na cultura mineira estudado com a profundidade e a importância que merece. Falta, ao que parece, aquela primeira abordagem, pioneira e definitiva, suficiente para que sejam avaliadas as reais dimensões da iniciativa do empresário Bernardo Paz, ao criar um museu de arte contemporânea em Brumadinho, pondo-se em relevo as suas manifestações e reflexos. Analisado em perspectiva com a cultura e a arte mineiras, estas últimas, criações que sempre cortejaram o barroco a ponto de fazer dele uma de suas principais características, o Inhotim desperta, sem dúvida, acesas discussões. Neste sentido, a primeira verdade que se pode constatar é que Inhotim e barroco são duas figuras que não se combinam, e até mesmo se contrapõem em seus significados e propostas, podendo o museu de arte contemporânea ser considerado uma quase ruptura ou uma novíssima proposta dentro da cultura mineira.

Deixando-se de lado as figuras maiores, próprias do barroco mineiro, como Aleijadinho e Ataíde, é possível afirmar-se, a esta altura, que barrocos sempre fomos e seremos todos nós, mineiros, a começar da nossa forma de fazer política e a terminar pelo legado artístico de boa parte dos nossos melhores artistas, ainda que filiados a outras épocas e a outras escolas da arte.

Barrocos eram, portanto, os nossos poetas inconfidentes, que, presos aos contornos das Minas Gerais, produziram uma arte sem paralelo noutras regiões do País. Deles, teria restado, na opinião de muitos, um certo gosto que os mineiros ainda hoje cultivam pelos clássicos latinos, traço que pode ser encontrado, por exemplo, na obra do nosso poeta maior, Carlos Drumond de Andrade.

Em Drumond, a temática é sempre moderna, mas o verso é seguramente latino, e tem um toque de clássico. Não podemos nos esquecer, por outro lado, da verdadeira adoração de Drumond por Ouro Preto e sua querida Itabira, paisagens por demais marcadas pelo barroco. Nem que um grande número de artistas mineiros do primeiro time, por coincidência, nasceu ou teve estreitos contatos com a nossa Ouro Preto.

Estamos falando, a esta altura, de Drumond, Bernardo Guimarães e Alphonsus dos Guimaraens , apenas para repassar as três escolas mais importantes dos últimos séculos, o modernismo, o romantismo e o simbolismo. Todos eles possuem o traço barroco, obviamente embutido pela genialidade e pela maneira de fazer arte de sua própria escola.

Da mesma forma que Drumond produziu uma arte marcadamente própria e sui generis, dentro do modernismo, Bernardo Guimarães, com o seu romantismo que não fazia concessões à geografia, também logrou inovar em sua literatura. Estamos nos referindo, a propósito, ao distanciamento adotado pelo principal ficcionista mineiro romântico em relação à literatura nacionalista de José de Alencar, que cantou as belezas da nossa paisagem tropical em “O Guaraniâ€. Ao contrário, na “Escrava Isaura†de Bernardo Guimarães a geografia é de uma pobreza, diríamos, quase franciscana, a ponto de não ter maior importância para o enredo do romance.

Ao contrário de Alencar e de o “Guaraniâ€, o que se tem na “Escrava Isaura†é uma preocupação de cunho marcadamente social, temática muito pouco visitada pelos escritores românticos da escola ortodoxa. Traços do barroco mineiro, do qual se aproximava pelo fato de Bernardo Guimarães viver em Ouro Preto ? Quem sabe ? A verdade é que os genes do barroco, que vicejam no nosso maior romancista romântico, parecem também vicejar no nosso maior poeta simbolista mineiro, com o seu declarado amor à paisagem de Mariana. Estamos nos referindo aqui a Alphonsus Guimaraens, com o seu tom intimista e a sua religiosidade, este último traço de sua poética herdado talvez do barroco mineiro.

No que diz respeito ao modernismo, contornos nitidamente barrocos podem ser encontrados na obra de Alberto Veiga Guignard, em especial na parte produzida em Minas, quando o pintor aqui aportou a convite do nosso governador, Juscelino Kubitschek. Aliás, a viva admiração pelo barroco mineiro pode ser considerada um dos motivos pelos quais Guignard permaneceu em Ouro Preto e em Minas até a sua morte, em 1962.

No terreno da literatura, a obra de Guimarães Rosa, nosso ficcionista maior, com o seu culto à forma levado às derradeiras conseqüências, além da integração do estilo à temática, a ponto de o leitor não distinguir os limites e contornos de um e de outro, aproxima-se em muito do barroco. Como alguma coisa que parece iniciar-se e findar-se em si mesma, o romance “Grande Sertão Vererdas†nada mais é que o nosso mineirismo interiorano, quer dizer, o nosso modo de ser do sertão, traduzido em linguagem barroca. Os sons do livro podem soar desconhecidos para uns, mas não soarão estranhos certamente para nós mineiros, acostumados a distinguir os traços mais marcantes da nossa cultura eivada de barroco onde quer que se encontrem.

Restaria falar aqui da obra dos nossos melhores autores mineiros do pós-guerra, tarefa que nos remeteria necessariamente aos contos de Murilo Rubião, Otto Lara Resende e à ficção tipicamente mineira de Autran Dourado, recentemente falecido, com traços que denotam a presença do barroco, seja no extremo cuidado com a forma seja com a temática de fundo, por vezes, religioso, que o modernismo com o seu ateísmo de época não conseguiu afugentar.

Dentro desse cenário, o Inhotim é certamente uma nova proposta além de uma ruptura. Pode ser examinado ao lado de outras propostas mineiras tais como o cinema de Humberto Mauro, que parece querer modernizar a nossa cultura de uma só vez e definitivamente, além de iniciativas esparsas como o movimento literário que se formou em torno de grandes artistas como Rosário Fusco e da revista Verde, em Cataguazes, em meados do século passado. Todas elas apontaram novos sentidos e novas direções para a nossa cultura, sem deixar de trazer, a princípio, dificuldades para os críticos e historiadores que delas se ocupam. Decorre desse mesmo viés de novidade, certamente, a nossa dificuldade em situar o Inhotim. Como o maior legado cultural do nosso Estado e a sua melhor contribuição à cultura do País no presente, pelo seu perfil não só inovador quanto capaz de trazer inovações, o Inhotim continuará a ser tratado com perplexidade por nós todos que nos preocupamos com a cultura. Isto, até ser assimilado inteiramente em suas reais dimensões e significados.

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados