João 75

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Henry Burnett · São José dos Campos, SP
18/6/2006 · 51 · 0
 

Minha primeira lembrança musical consciente foi um rádio-gravador que ganhei de minha mãe junto com duas fitas, uma de Erasmo e outra de Roberto Carlos. Graças a esse rádio e a uns tios cheguei à MPB. Muitos anos depois, lancei meu primeiro, por enquanto único e certamente equivocado CD inteiramente - achava eu - dedicado à bossa nova; estranheza geral da parte dos músicos, que achavam o movimento passado e incapaz de despertar interesses. Estavam certos, em parte.

Hoje, quase uma década depois do 1° CD, sei o que na bossa nova me interessava e interessa: João e Tom. Clichê dos clichês, citação sacal, referência obrigatória conservadora, tudo isso junto e muito mais; que cara chato era e sou eu. Fazer o quê? Nada era mais impressionante para mim que ver João tocando e cantando, mesmo lá na distante Belém do Pará, tão fora de rota, tão cheia de si, tão independente de tudo isso. Mas não adiantava.

Eu queria tocar e cantar assim, mesmo que a geração que mais ouvi e que mais me influenciou diretamente (tome clichê: Chico e Caetano) já tivesse sido influenciada por ele, já fossem portanto seus grandes herdeiros diretos. Quem poderia me fazer mudar de rota? Eu estava fadado a nada criar, apenas me bastava chegar perto de João. Ninguém chega. Só sei disso agora, tarde demais.

Músico de nada, violão vadio, incompetente, amador, ouvia e ouço João centenas de vezes e não consigo enjoar. E vejam, enjoei até algumas coisas do Caetano, cuja obra mais conheço. Mas João? "Desafinado"? Como ouvir ainda isso? Não sei, tampouco posso livrar-me dessas audições infinitas. Estou aqui, escrevendo e ouvindo, tudo novamente, hoje, no seu aniversário, que por pouco não esquecemos: João fez 75 anos sábado passado.

Como fazer o Brasil ouvir isso de novo se nem João parece certo de que valha a pena? Ele imaginou um dia o país que sintetizou quando cantava Jobim, Dorival, Noel, sonhou com essa capacidade da língua portuguesa que diz tudo quase muda, viu o país apontar para um rumo; mais: deu-lhe um leme, inútil. Tudo perdido. Somos um fracasso. Quando ele resolve sair de casa e sentar diante do povo de novo é para fazer lembrar que há algo pelo qual ainda podemos viver, que nosso fracasso não pode ser uma entrega definitiva. Quando aniversaria, diz de longe que estar vivo significa que o país também ainda vive, de alguma forma.

Na contramão da imagem que ganha o mundo hoje via Alemanha, de uma país festivo, jovial, solar, sorridente, competente (no futebol, ao menos) João senta na penumbra e desconfia. Revira essa imagem de dentro, interpretanto a nação como poucos o fizeram. É certo colocá-lo junto a Sérgio Buarque, Guimarães Rosa, Caio Prado, Gilberto Freyre, ele também criou um Brasil que se pensa, que se exige, que se olha. Que triste pensar que ele é quase sempre lembrado como um intolerante. Quando o é, quer apenas que pensemos mais alto do que nossa história parece nos permitir. Somos mais do que ele imagina? Não sei. Teríamos que provar, e aí estamos empacados, ruminando tentativas, em desespero, sem saídas.

Hoje é dia de ouvir João, e tentar sair da menoridade que nos domina.

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