A Cia. de Teatro Rock e Marcos Ferraz são a parceria perfeita do teatro contemporâneo.
Por Jardel Teixeira
Eles estrearam no último dia 5 o esperado musical Lado B - Mudaram as estações e encerram temporada do engraçado Na cama com Tarantino.
São dois espetáculos que agradam tanto aos jovens como aos mais velhos, eu diria que a Cia. de Teatro Rock é uma trupe de jovens artistas com espÃrito de quarentões. Isso sem contar, o excelente A sessão da Tarde ou Você Não Soube me Amar que é o lado A de um projeto maior da Cia. de Teatro Rock. O lado B estreou agora, leiam a entrevista exclusiva de Marcos Ferraz. Ele conta a trajetória dos três espetáculos e da Cia. de Teatro Rock.
Lado B - Mudaram as estações
De 5/9 a 31/10 (90min, 12 anos) - Musical.
grupo: Cia. Rock - texto: Marcos Ferraz - direção: Marcos Okura, Fábio Ock e Fezu Duarte - direção musical: Cláudio Calunga - elenco: Bruna Guerin, Felipe Caczan, Laura Carolina, Luiz Araújo, Paula Bressan, Rosy Aragão, Thais Uessugui, Velson D´Souza, Vinicius de Loiola e Willian Anderson
História de uma banda que está à beira do sucesso e o que este fato implica em todas as suas relações com a fama, a mÃdia e seus fãs. A trilha traz canções do pop-rock brasileiro dos anos 1980. terças e quartas, à s 19h - R$10,00 - Sala Adoniran Barbosa – Centro Cultural São Paulo, Rua Vergueiro, 1000, Liberdade, São Paulo, SP, tel. (11) 3383-3402.
Vejam o vÃdeo:
http://www.centrocultural.sp.gov.br/webtv/bastidores_lado_B.htm
Na Cama com Tarantino encerra temporada no próximo sábado.
Por Jardel Teixeira
Um telão no palco apresenta a ficha técnica do espetáculo, como uma montagem cinematográfica. Baseado em filmes de Quentin Tarantino, como Pulp Fiction e Cães de Aluguel. O autor e também atua na trama, satiriza o gênero e traça os personagens e pequenas historietas de forma ágil e inteligente. O elenco entra em cena com goma de mascar na boca e aÃ, tudo começa... Como se fosse um musical, os atores intercalam as cenas com dança. Um pacato segurança de banco apaixona-se pela personagem da ótima Priscila Oliveira. A dupla planeja roubar uma pedra valiosa e deixar duas gangues criminosas a ver navios. A montagem empolga a platéia e rende boas risadas, devido à s cenas ágeis e ao cinismo dos personagens, interpretados pelo ótimo elenco. Texto: Marcos Ferraz. Direção: Fábio Ock, Fezu Duarte, Marcos Okura. Cenário e figurino: Chris Aizner. Iluminação e sonoplastia: Fábio Ock, Fezu Duarte, Marcos Okura. Preparação Corporal: Joyce Roma. Produção Executiva: Carol Guedes. Realização: Cia. de Teatro Rock. Elenco: Daniela Cury, Débora Vivan, Fabiano Amigucci, Fezu Duarte, Jonathan Faria, Joyce Roma, Marcelo Diaz, Marco Aurélio Campos, Marcos Ferraz, Marcos Okura, Mariana Elizabetsky, Nicolas Trevijano, Priscila Oliveira, Tatiana Bolt, Tiago Adorno e Veridiana Toledo. Teatro Aliança Francesa, Rua General Jardim, 182, Vila Buarque, São Paulo, SP, Tel. (11) 3129-5730, até sábado (29), à s 19h.
Jardel diz: Na Cama Com Tarantino é seu primeiro texto? Certo?
Marcos diz: não, o primeiro foi o Sessão, escrevi em 2001. O nome era River raid, mas eu achava que não representava a peça, então mudei para A Sessão da Tarde. O primeiro a ser montado foi A Borboleta Sem Asas, que tinha sinopse do Sofredinni.
Jardel diz: por isso na cama tem uma veia de musical? Ele é quase um musical? Como vc o classifica? Na cama foi à primeira peça encenada então? Ela estreou no tbc, não foi?
Marcos diz: eu procuro, como linguagem dramatúrgica, o pop. Minha inspiração vem muito da música. Eu classifico o Tarantino como um anti musical, mas dentro dessa linguagem popular moderna que eu faço questão de preservar nos espetáculos. A primeira, como disse, foi a A Borboleta Sem Asas, em 2002. No mesmo ano fizemos a primeira versão do Na Cama. Esta é a segunda versão, com novas cenas e personagens. Essa história de versão 2 é uma alusão aos filmes comerciais americanos que sempre tem uma continuidade. Esta primeira versão estreou no TBC.
Jardel diz: é que eu vi sua primeira versão. E quando assisti o espetáculo eu lembrei por causa do seu personagem da espanhola... hehehehhe...
Marcos diz: pois é. Ela tinha um caráter mais estético. Nesta segunda versão, conteúdo e estética ganharam o mesmo peso, acredito.
Jardel diz: a atriz é a mesma? Na verdade vc satiriza os filmes do Tarantino ou é impressão minha?
Marcos diz: a Gabriela Rodrigues é um personagem muito marcante. A atriz, Priscila Oliveira, que deu vida a esta personagem é abordada na rua até hoje.
Jardel diz: ela é ótima. Ela me fez lembrar da sua primeira versão
Marcos diz: na verdade é uma reflexão sobre a cultura americana imperialista vista pelo ponto de vista do colonizado. Com humor, é claro.
Jardel diz: quando seu personagem a conhece e se apaixona por ela
Marcos diz: é amor à primeira vista. Como todo arquétipo do apaixonado e sua musa.
Jardel diz: próprio do Tarantino tb, que de certa forma satiriza os americanos em seus filmes ou vc o admira e o homenageou o cineasta?
Marcos diz: eu não tive (nem os diretores) uma preocupação pudorada em homenagear o Tarantino, se fizéssemos isso cairÃamos numa armadilha. A obra dele me inspirou, mas poderia ser outro cineasta. O assunto da peça, a meu ver, é a cultura de massa americana e seus desdobramentos. A escolha pelo Tarantino é exclusivamente pela sua proximidade com a linguagem pop que eu te falava. Os dois. Sou fã. E uma das razões disso é essa visão que ele tem do seu próprio povo e cultura.
Jardel diz: vc está num momento bom agora, vc está com dois textos em cartaz, como se sente? De qual vc curte mais? Ele na verdade era do povo que de uma hora pra outra virou estrela e que agora ta meio apagado com cineasta né? Eu gostei bastante do Na cama com Tarantino, mas me apaixonei por sessão da tarde...
Marcos diz: acredito que a obra artÃstica só tem finalidade, só se completa, quando chega no público. Mas não há deslumbre nisso. O que há é muito trabalho.
Jardel diz: mas isso é uma opinião minha, OK? Concordo com vc. Vc tem outras peças na manga da camisa? Vc acha que na cama com Tarantino retrata o nosso mundo polÃtico? Da mesma forma que vc colocou os personagens?
Marcos diz: sei que é um lugar comum, mas é a pura verdade o que vou dizer. As duas são como filhos. A Sessão da tarde tem um apelo emocional muito forte. Crianças , adolescentes, jovens e adultos saem do teatro modificados. Tivemos várias experiências de grupos que foram ao teatro pela 1ª vez e se disseram surpreendidos. Tinham a idéia que teatro era chato. Hoje eles já assistiram mais de 10 vezes, a peça. A Sessão tem essa pegada de fãs que voltam e assistem 30 vezes e escrevem cartas e fundam fãs clubes. O Na Cama com Tarantino, embora popular, tem um humor mais refinado. Atinge outra parcela do público. É engraçado porque as opiniões também são divididas, todo mundo gosta das duas, mas sempre apontam sua preferência.
Jardel diz: eu apontei a sessão. Por me fazer relembrar uma época maravilhosa e nessa época vc era um bebe... hehehehhe... Eu ia no Radar Tantã no Bom Retiro e assistia o show de todos os cantores que vc ilustrou em sessão. Vc conversa com os espectadores sobre suas peças? E voltando, vc acha que na cama ilustra um pouco os polÃticos brasileiros?
Marcos diz: Pode ser que Na Cama com Tarantino reflita um pouco do nosso mundo polÃtico, mas acredito que isso possa vir indiretamente. A reflexão central é sobre os valores de uma sociedade que está cada vez mais se americanizando, absorvendo tanto as coisas boas (como a Bossa Nova fez na década de 50, por exemplo) quanto à s coisas ruins, como a cultura da violência e da intolerância.
Jardel diz: foi por acaso simplesmente? Eu achava que tinha um elo de ligação.
Marcos diz: nossa próxima estréia está marcada para o dia 4 de setembro. Será o lado B da Sessão da Tarde. Mudaram as Estações traz assuntos um pouco mais densos, mas ainda no universo juvenil. Os temas como a homossexualidade, a vida polÃtica do paÃs e armadilha do sucesso estão mais aprofundados.
Jardel diz: então esse é seu próximo projeto?
Marcos diz: acho que um dos segredos do sucesso da Sessão foi ter contado minha história. Este é um espetáculo que eu dedico ao meu pai. Ele morreu em 82 e talvez isso tenha me tornado uma criança muito reflexiva. Era feliz, mas sempre tive esse olhar observador e um pouco melancólico. A personagem Paulinha, narradora da história, é meu alter ego. Eu converso com todo mundo. Hoje o Roney Facchini foi assistir o Sessão e ficou impressionadÃssimo. Ele dizia que a peça não podia sair de cartaz, que ali está tudo o que tem que se fazer em teatro e tal. Eu ouço tanto esta opinião quanto a do carinha que tem 13 anos quanto à do velhinho que nunca tinha ido ao teatro. Sem o público não há teatro. Teatro é comunicação e isso é bilateral. Não adianta eu fazer meu trabalho, minha "obra de arte" e não comunicar e não querer saber o que o público pensa. Tem gente que acha que ser artista é ser especial e que só isso basta. Quando eu falo da obra se completar com o público, isso também é estendido para a crÃtica. Não é puxa saquismo, não. A crÃtica é um olhar técnico sobre um trabalho, e na maioria das vezes questiona alguns pontos fundamentais do resultado de um processo. Tanto a crÃtica “boaâ€, quanto à “ruimâ€, se é que podemos classificar assim. Tem uma música do Arnaldo Antunes que diz assim: Antes de mim vieram os velhos, os jovens vieram depois de mim. “Estamos todos aqui, no meio do caminho...†Forever Young!
Jardel diz: vc tb é de santos né?
Marcos diz: eu nasci lá. É aquela história: por mais que eu não viva mais lá, tudo aquilo está dentro de mim. Sempre vou ser o garoto do canal 2, que gostava de pegar jacaré, e jogar bola à tarde na praia. E depois ficar olhando o horizonte, sonhando em ser um grande artista. Como o Nelson Baskerville, o Oscar Magrini... O Nelson é um cara muito presente na minha vida. O pai dele era proprietário da casa onde eu nasci. E era ele que cobrava o aluguel do meu pai. Então nós nos conhecemos assim. Claro, ele era um adolescente e eu uma criança. Nunca nos falamos, mas anos depois ele foi meu professor de teatro e descobrimos esta história! O Oscar Magrini tinha uma vÃdeo locadora (olha que coisa mais anos 80) perto de casa. Ele tava começando a ficar famoso. Então o bairro inteiro ia alugar fitas de vÃdeo lá. Eu não o conheci o Oscar. Mas a fama corria. Santo era, ainda é uma cidade provinciana nesse sentido. Ao mesmo tempo em que tem uma forte tradição de inovação, experimentalismo e ruptura (embora seja uma contradição de termos) ainda se deslumbra com o ator que faz a novela da Globo. É curioso.
Jardel diz: muito obrigado pela entrevista Marcos.
Marcos diz: apareça no teatro quando quiser. Valeu.
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