Ficção Viva explora universo dos brechós em curta-metragem
Mais do que simplesmente lojas que vendem roupas usadas, os brechós são verdadeiros baús de surpresas, com sua moda altamente diversificada, peças raras, fora de catálogo, clássicas, de época, nacionais ou importadas. Atualmente, garimpar peças legais em brechós on-line ou físicos não é mais coisa somente de modernos e descolados. As revistas já cansaram de mostrar e usar em seus editoriais de moda, o que ajudou a acabar com a idéia de um lugar cheio de roupas velhas e cheiro de mofo.
Além disso, é possível achar muito mais que roupas exclusivas e cheias de estilo nas araras dessas lojas. É lá também, que entre um a prova de uma peça e outra, no bate-papo com a vendedora podem ser garimpadas boas histórias, como as que a equipe do projeto Ficção Viva pesquisou para a produção de um filme que leva o título provisório de “Vestido de Noiva”.
Se no curta-metragem, que parte de elementos documentais para criar ficção, a história gira entorno da atriz que pesquisa figurinos para uma peça, a doméstica que compra as roupas usadas da patroa e o a misteriosa relação de uma cliente com um vestido de casamento deixado à venda no local, fora das telas também sobram curiosidades e histórias como essas, como as que Geisa Lombardi, uma das proprietárias do brechó “Trapos de Luxo”, que serve de locação para o filme, tem na ponta da língua.
Já há alguns anos no ramo, a comerciante conta que é bastante comum os clientes levarem as peças e contarem suas histórias, já que no brechó encontram um atendimento mais personalizado, que inspira uma relação maior de amizade. Os casos variam desde pessoas que levam peças que foram compradas por impulso, que não cabem mais ou saíram de moda até àqueles que querem se desfazer de objetos de ex-namorados ou parentes falecidos.
“Um dia uma senhora entrou na loja, olhou para um casaco e começou a chorar emocionada. Ela me disse que conhecia aquele casaco, que havia sido dela, mas alguém o havia levado de sua casa. Ela ficou de vir buscar o casaco e nunca voltou”, lembra Geisa. De outro lado, quem entra em busca de uma nova roupa usada também tem lá suas particularidades. “Tem uma senhora que vem com uma lente de aumento e passa horas olhando peça por peça. Parece ter sido uma senhora muito rica, mas que hoje não tem muitas condições. Ela procura peças de grife, mas nunca leva nada”, conta.
Foram histórias como essas que inspiraram as proprietárias do Brechó a colocar no blog da loja (traposdeluxo.blogspot.com) todos esses causos. “A roupa nova não tem história, ela chega em ‘branco’”, brinca Geisa. Para Marcelo Munhoz, um dos coordenadores do Ficção Viva, ao longo da vidas as pessoas estão sempre tomando decisão em relação aos objetos e vivendo experiências novas intermediadas por eles. “Por isso eles dizem tanto sobre nós. Muito mais do que forma ou função, as coisas têm vida social, são palco de nossas experiências e são impregnadas de emoções. E são uma inesgotável fonte de pesquisas”, diz.
Sobre o Ficção Viva
Iniciativa do Projeto Olho Vivo, o Ficção Viva conta com o patrocínio da Petrobras para produzir três curtas-metragens. Atualmente, os roteiros estão em fase de finalização e o universo ficcional definido pelos participantes do projeto abordará as relações que as pessoas constroem com objetos.
Para isso, a equipe do Ficção Viva dedicou-se nos últimos meses a realizar pesquisas em sebos, brechós e antiquários da cidade, além de conversar com colecionadores. Os curtas-metragens vão girar em torno de três histórias: um brechó, uma casa de família tradicional e outra mais simples. “Os artefatos organizam práticas sociais, influenciam comportamentos, incorporam metas e se tornam inseparáveis daquilo que somos”, analisa o cineasta Luciano Coelho, também coordenador do Ficção Viva.
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