Morro do Baco Baco
Ah! a falta que faz um morro do Baco Baco...
“Morro do Baco Baco”. Diz a lenda que o nome originou-se num hábito dos meninos de certa época que por ali iam viver os principais eventos de sua formação. Tanto o morro quanto suas histórias foram soterrados pela modernidade de uma via asfaltada.
Era o local preferido pra soltar Pandorga, pra jogar pião ou bolinha de vidro, e pra brincar de “camói” – o aportuguesamento de “cowboy”.
Entretanto, não foram apenas as brincadeiras que marcaram o Morro. O que fez do Baco Baco uma passagem “insoterrável” na vida e na memória dos meninos daquele tempo foram os ritos e as comparações que ajudaram a formar personalidades ou aprofundar inseguranças.
Naquela fase em que o indivíduo dá uma “espichada”, fica meio desengonçado e passa a esbarrar e derrubar tudo, a voz fica naquele engrossa/afina, os músculos e os traços masculinos vão ficando mais bem definidos, era ali que os meninos se reuniam para medir e comparar seus “instrumentos” em fase de crescimento. Literalmente, era ali que iam ver “quem tinha o pau maior”.
Quando surgiam os primeiros pelos era um momento de glorificação. Fazia-se de tudo pra garantir um primeiro fiozinho preto. Descobriam-se os remédios mais escabrosos para dar um empurrãozinho na natureza. Tinha gente que chegava a esfregar cocô de galinha tentando dar uma adubada no local.
Outro momento decisivo era a ejaculação – a grande expectativa - uma cruel linha divisória. Separava aqueles que já se consideravam HOMENS dos outros, mortalmente feridos, que eram jogados na vala dos “ainda meninos”.
A prova definitiva pra adentrar o “mundo dos homens” era a mais crua e básica possível: o “candidato” tinha que conseguir ejacular na frente de todos os outros – para ajudar, apenas alguns “catecismos” do Carlos Zéfiro ou, muito raramente, umas revistinhas suecas ou dinamarquesas, que se conseguia com uns marinheiros. Estas “revistinhas” eram a coisa mais ousada que se dispunha, filme pornô não existia nem em nossos sonhos mais delirantes.
Mas, o importante mesmo é que o morro do Baco Baco era uma arena sagrada para a disputa mais importante da vida de todos os que viviam aquele momento crucial: “ver quem tinha o pau maior”.
A competição não era um simples “puxa/estica e mede”. Havia as mais diversas modalidades. Valia todo e qualquer truque para ludibriar os outros e ganhar uns milímetros a mais. Cada um que levava desvantagem em uma modalidade logo inventava outra na qual a natureza lhe tivesse sido mais favorável. Tamanho, espessura, formato - qualquer detalhe anatômico - o importante era ser maior em alguma coisa.
Pelo Brasil afora, com certeza, existem centenas de milhares de “morros do Baco Baco” – lugares sagrados onde se dão os fundamentais ritos de passagem da rapaziada. Lugares onde o menino se torna um homem muito mais seguro – afinal, ali ele compreende que sempre existe alguma modalidade na qual pode ser o maior.
Entretanto, assim como muitas outras culturas, os “morros do Baco Baco” também estão em extinção, substituídos pela padronização do mundo “high-tech”. Os ritos de passagem ocorrem sem romantismos, sem mistérios, banalizados e virtualizados numa “second life”.
É cada vez maior o número dos que não conseguem sair da vala dos “ainda meninos”, apesar de já avançados em idade. E isso é grave, muito grave.
Vai-se gerando uma horda dos “sem morro do Baco Baco”. Uma turba desorganizada que avança pela vida tentando chamar a atenção de qualquer maneira.
Compram os carros mais potentes, as motos mais berrantes, a grife mais grife, os cachorros mais indóceis - e ficam desfilando por aí, meio sem destino, acelerando suas motos na madrugada, estacionando carros e arregaçando o som nas praças e nos bares.
Como não tiveram um “morro do Baco Baco” na época certa, passam a vida inventando as próprias modalidades pra provar que “têm o pau maior”.
As conseqüências da extinção desse fundamental rito de passagem têm sido trágicas para a humanidade.
Se tivessem vivido um “morro do Baco Baco”, Bush e seus falcões não ficariam perturbando as madrugadas do mundo tentando provar que “têm o míssil maior”.
Ah! A falta que faz um morro do Baco Baco...
Delman Ferreira
delmanferreira@gmail.com
Delman, A grande pergunta é: O que ficou no Morro, na Rua do Cruzeiro, no Terreiro de Mãe....?
- Muito boa reflexão, um abraço
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