Morro do Baco Baco

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Delman Ferreira · Brasília, DF
22/5/2007 · 83 · 1
 

Morro do Baco Baco
Ah! a falta que faz um morro do Baco Baco...

“Morro do Baco Bacoâ€. Diz a lenda que o nome originou-se num hábito dos meninos de certa época que por ali iam viver os principais eventos de sua formação. Tanto o morro quanto suas histórias foram soterrados pela modernidade de uma via asfaltada.
Era o local preferido pra soltar Pandorga, pra jogar pião ou bolinha de vidro, e pra brincar de “camói†– o aportuguesamento de “cowboyâ€.

Entretanto, não foram apenas as brincadeiras que marcaram o Morro. O que fez do Baco Baco uma passagem “insoterrável†na vida e na memória dos meninos daquele tempo foram os ritos e as comparações que ajudaram a formar personalidades ou aprofundar inseguranças.

Naquela fase em que o indivíduo dá uma “espichadaâ€, fica meio desengonçado e passa a esbarrar e derrubar tudo, a voz fica naquele engrossa/afina, os músculos e os traços masculinos vão ficando mais bem definidos, era ali que os meninos se reuniam para medir e comparar seus “instrumentos†em fase de crescimento. Literalmente, era ali que iam ver “quem tinha o pau maiorâ€.

Quando surgiam os primeiros pelos era um momento de glorificação. Fazia-se de tudo pra garantir um primeiro fiozinho preto. Descobriam-se os remédios mais escabrosos para dar um empurrãozinho na natureza. Tinha gente que chegava a esfregar cocô de galinha tentando dar uma adubada no local.

Outro momento decisivo era a ejaculação – a grande expectativa - uma cruel linha divisória. Separava aqueles que já se consideravam HOMENS dos outros, mortalmente feridos, que eram jogados na vala dos “ainda meninosâ€.

A prova definitiva pra adentrar o “mundo dos homens†era a mais crua e básica possível: o “candidato†tinha que conseguir ejacular na frente de todos os outros – para ajudar, apenas alguns “catecismos†do Carlos Zéfiro ou, muito raramente, umas revistinhas suecas ou dinamarquesas, que se conseguia com uns marinheiros. Estas “revistinhas†eram a coisa mais ousada que se dispunha, filme pornô não existia nem em nossos sonhos mais delirantes.

Mas, o importante mesmo é que o morro do Baco Baco era uma arena sagrada para a disputa mais importante da vida de todos os que viviam aquele momento crucial: “ver quem tinha o pau maiorâ€.

A competição não era um simples “puxa/estica e medeâ€. Havia as mais diversas modalidades. Valia todo e qualquer truque para ludibriar os outros e ganhar uns milímetros a mais. Cada um que levava desvantagem em uma modalidade logo inventava outra na qual a natureza lhe tivesse sido mais favorável. Tamanho, espessura, formato - qualquer detalhe anatômico - o importante era ser maior em alguma coisa.

Pelo Brasil afora, com certeza, existem centenas de milhares de “morros do Baco Baco†– lugares sagrados onde se dão os fundamentais ritos de passagem da rapaziada. Lugares onde o menino se torna um homem muito mais seguro – afinal, ali ele compreende que sempre existe alguma modalidade na qual pode ser o maior.

Entretanto, assim como muitas outras culturas, os “morros do Baco Baco†também estão em extinção, substituídos pela padronização do mundo “high-techâ€. Os ritos de passagem ocorrem sem romantismos, sem mistérios, banalizados e virtualizados numa “second lifeâ€.

É cada vez maior o número dos que não conseguem sair da vala dos “ainda meninosâ€, apesar de já avançados em idade. E isso é grave, muito grave.

Vai-se gerando uma horda dos “sem morro do Baco Bacoâ€. Uma turba desorganizada que avança pela vida tentando chamar a atenção de qualquer maneira.

Compram os carros mais potentes, as motos mais berrantes, a grife mais grife, os cachorros mais indóceis - e ficam desfilando por aí, meio sem destino, acelerando suas motos na madrugada, estacionando carros e arregaçando o som nas praças e nos bares.

Como não tiveram um “morro do Baco Baco†na época certa, passam a vida inventando as próprias modalidades pra provar que “têm o pau maiorâ€.

As conseqüências da extinção desse fundamental rito de passagem têm sido trágicas para a humanidade.

Se tivessem vivido um “morro do Baco Bacoâ€, Bush e seus falcões não ficariam perturbando as madrugadas do mundo tentando provar que “têm o míssil maiorâ€.

Ah! A falta que faz um morro do Baco Baco...
Delman Ferreira
delmanferreira@gmail.com

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Andre Pessego
 

Delman, A grande pergunta é: O que ficou no Morro, na Rua do Cruzeiro, no Terreiro de Mãe....?
- Muito boa reflexão, um abraço

Andre Pessego · São Paulo, SP 20/5/2007 08:31
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