Perfis avulsos

Fonte: Google Imagens
Peixe: pela manhã, ainda fresco - depois, amarelo e mole
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
14/3/2007 · 94 · 0
 

“Nesse tempo que eu parei aqui tantas pessoas passaram por mim: empresários, mendigos, boys... e até o zé doidim, que eu mesmo reconheci! Pessoas com mundos totalmente diferentes, mas que, naquele momento, naquele cruzamento, se cruzaram! Interessante, né?!! Todos os dias, em vários lugares, milhares de pessoas se cruzam mas não se falam, pois não se conhecem, e nem ao menos se importam com isso”.
Fernando Catatau (Cidadão Instigado)

“Avulsos, caminham sob o mesmo sol, a mesma lua e um céu sem holofotes, apenas céu, estrelas e demais astros. Avulsos”. (Henrique Araújo, "Avulsos")


O nome dele é Francisco, tem 30 anos, três filhos e uma carteira de índio. “Tapeba”, diz o documento emitido pela Funai e exibido com orgulho. Palmilha, a cada dois dias, a distâcia que separa a aldeia Ponte da casa de um amigo que mora no Icaraí, litoral de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. “Sem tomar café nem comer nada, me larguei na estrada às cinco da manhã”, diz e solta um riso nervoso, cheio de expectativa pela reação do interlocutor. Lá, Francisco deixa parte da produção artesanal da aldeia – cordões, brincos e pulseiras feitos principalmente de sementes. “Hoje ele não tava em casa, andei um pouco por aí e agora tô voltando”.

Na estradinha asfaltada que corta a cidade de ponta a ponta, Francisco aguardava à sombra do extenso muro caiado. Do lado de dentro, um grande jardim e uma área de lazer excepcionalmente arborizada se punham em desacordo com a paisagem da rua, dominada por pequenos alpendres sob os quais homens e mulheres bebiam ruidosamente. Um pé suspenso, outro servindo de apoio ao corpo extenuado, o índio, em meio à poeira que se ergue do acostamento, vê o Santana verde aproximar-se devagar. O veículo estaciona atrás de um dos ônibus da empresa Vitória, única a realizar o transporte de passageiros entre Caucaia e Fortaleza. Metido nuns trapos, Francisco carrega uma sacola que, quando aberta, revelaria uma segunda e uma terceira. Dentro desta última, um peixe ainda fresco.

“Entra aí, Chico”, convida o motorista. Antes, ainda no Icaraí, em frente a um condomínio a poucos metros da praia, o Santana encostara num ponto de ônibus. Como Francisco e debaixo do mesmo sol, aguardava a condução para casa. Eram 12h30, e o homem de aparência exótica retornava de uma corrida. Após informar-se sobre o preço da passagem cobrada nos ônibus que seguiam para Fortaleza e já com o carro em movimento, confidenciou: “Comprei esse carro apenas pra fazer lotação, mas, hoje em dia, é difícil, a gente tem que pelejar pra fazer pelo menos o dinheiro da gasolina”.

“Não entrei naquele ônibus porque tava muito cheio”, explica-se Chico sentado no banco de trás do carro. Retornava, finalmente, para a aldeia onde o aguardavam a esposa e três crias – uma de três meses, uma de 6 anos e outra de 9. “Hoje tá difícil de conseguir alguma coisa”, emenda o índio. O motorista aproveita a deixa e costura a sua própria cantilena. Os dois conversam, escutam e lamentam. Mais lamentam, cada qual a seu modo, do que conversam ou escutam. A miséria de Chico, entretanto, é magnética como os olhos azuis de Maria Sharapova.


Peleja do “artista” quando vivo

O espaço – mercado persa – é amplamente ocupado por famílias vivendo em casas de taipa, catadores de material reciclável e algumas lanchonetes erguidas precariamente sobre declives. Muitos passageiros de pé, outros tantos sentados ocupando as cadeiras de plástico encardidas dos estabelecimentos. Ao lado, uma agência da Caixa Econômica Federal. No início de cada mês, filas intermináveis se formam na entrada do banco, chegando até o escuro sob o viaduto. Lá, a fuligem é uma espécie de segunda pele, que só sai com muita água e sabão. Na avenida, entre ônibus intermunicipais e coletivos que circulam em Fortaleza, o fluxo é intenso.

Dois anos enfurnado no desvão logo abaixo do viaduto que corta a avenida Mister Hull (BR-222), ao lado do terminal de ônibus do Antônio Bezerra, no bairro de mesmo nome, disputando passageiros “à tapa”, cobrindo viagens ao seco interior do Estado e retornando com alguns “gatos-pingados”. Um pouco antes, mototaxista. Chegou a comprar duas vagas, mas desistiu do negócio. “Não sou morredouro, saio logo antes do fim”, confessa o homem de bigode ralo e barba de três dias. Agora, havia empreendido viagens, ganhara o suficiente para viver e adquirir, a prazo, um computador novo. “R$ 2,4 mil, faz tudo. Comprei mesmo com uma única intenção”. Da porta do Santana, o motorista retira um feixe de CDs de bandas e cantores famosos. Os discos, cerca de trinta, eram envoltos por capas impressas em preto e branco. “Tenho agora de comprar uma multifuncional e uma moto. Depois, é sair pelo mundo vendendo CDs”.

Largar antes do fim, ser imorredouro, ir adiante. Às cinco, sem café-da-manhã. “É assim que tem sido, mas a gente tem que ir em frente. Quando escuto histórias como essa do índio, dou graças a Deus por ter este carro velho mesmo, de ganhar, todo dia, meus vinte ou trinta reais”, consola-se.

Chico descera há bem pouco, sem pagar, deixando para trás um rastro de não sei que sentimento. Era uma vida injusta com todos. Ainda no carro, o membro da aldeia Ponte, filho do cacique e homem de pernas muito bem aprumadas havia apontado até onde, há muitos anos, se estendiam as terras indígenas em Caucaia. Dos dois lados da via que conduz, a cada carnaval, levas de turistas vindos dos mais variados lugares do Brasil, largas faixas de uma terra parda, hoje ocupadas por construções diversas e muitos postos de gasolina.

“Aquele ali não foi pra frente, foi impedido. Mas tem o vizinho, que conseguiu autorização da justiça. Não entendo é como um consegue e o outro, não, já que é tudo terra do índio”, questiona-se Chico, que vive apenas do artesanato tapeba. Naquela manhã, porém, os cordões feitos com sementes não haviam garantido nada para o almoço, e o peixe que, na sacola, exalava um odor apurado, lhe tinha sido dado por um homem que encontrara na rua. “Quando ganhei dele, ainda de manhã, estava bem fresco, duro. Agora, parece que amoleceu”. Chico, porém, insiste em permanecer duro. Pedra.

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