MULHER COM PÉS DESCALÇOS

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Déa S Melo · Belém, PA
23/3/2012 · 2 · 0
 

*Déa S Melo
Março/2012

Era uma vez uma menina criativa que andava descalça, pois era muito pobre. Um dia fez seus próprios sapatos com retalhos; simples, mas imaginados por ela mesma, os sapatos lhes davam uma grande força espiritual para tocar a vida.
A menina foi crescendo e pelas circunstâncias do mundo moderno e da realidade consensual, acabou conquistando um sapato da moda.
Na antiguidade os sapatos eram um sinal de autoridade – os governantes os possuíam, os escravos não. Até hoje, se aprende a avaliar o “status” e a capacidade de uma pessoa com base no fato dela estar bem-calçada ou não.
Os pés possibilitam nossa mobilidade, nossa liberdade e os sapatos como uma metáfora, representam a nossa base para defender estas possibilidades. Sendo assim, ter sapatos originais é ter convicção de nossa verdade essencial e ter meios para garantí-la com perspicácia, bom senso, cuidado e firmeza.
É por isso que os sapatos “feitos por nossas próprias mãos” nos dão uma felicidade tamanha. Mesmo que nossa vida expressiva seja ameaçada, se resgatarmos ou nos mantivermos fiéis a nossa alegria básica, estaremos com nossos pés a salvo.
É a alegria de conseguirmos colocar as palavras no papel de um jeito exato; de tirarmos as notas de uma música no nosso tom, de realizamos o passo “daquela” dança, logo de primeira. É quando a mulher descobre que está grávida quando é o que deseja; quando realiza algo que precisou de muita auto-superação. É quando cria, faz artes, luta, movimenta sua vida no agora. Esse é o estado natural e instintivo da mulher – da mulher selvagem.
Uma vida vibrante nos convida a sacrifícios, sim. Se quisermos uma faculdade temos que investir tempo e dinheiro e dedicarmos muita concentração. Se quisermos criar, precisamos sacrificar a superficialidade, alguma segurança e, com freqüência, o desejo de sermos apreciadas, para deixar vir à tona os insights mais fortes e as visões mais amplas. Essa é a conscientização que compõe a natureza essencial - a natureza selvagem.
Podemos ser gentis e até nos abrimos a grupos aos quais não pertencemos, mas sem nos esforçarmos demais; sem acreditarmos demais que contendo todos os impulsos e contrações da criatura selvagem, ficaremos felizes. Passar por damas educadas, recatadas, contidas e reprimidas é o tipo de atitude do ego, querendo integrar-se a todo custo. Aí em vez de uma mulher vital, temos uma mulher simpática, bem comportada, com boas intenções, mas nervosa e ofegante no anseio de ser boa - do tipo que destrói o vínculo com a mulher selvagem, pois foram arrancadas suas “garras”.
Se perdemos nossos sapatos originais; perdemos nossos pés - nossa vitalidade e a vida que projetamos para nós mesmas, pois adotamos uma vida excessivamente domesticada. Perdemos a plataforma sobre a qual ancoramos a nossa base - nossa natureza instintual que sustenta a nossa liberdade.
É uma verdade tão urgente, mas tão fácil de ser deletada quando dizemos “ Ah... sim..., é..., entendo...” e seguimos definhando na direção da nossa ruína. Isso desencadeia um anseio, uma obsessão e uma dependência das emoções baratas e velozes, que nos faça sentir melhor; do sexo sem alma, que leva a uma vida sem significado e de relacionamentos com qualquer um que nos ame “pelamordedeus”.
São as armadilhas e os venenos com os quais nos envolvemos com muita facilidade, pois estamos sem a proteção da alma selvagem. Esta é a mulher dominada pelo impulso de dançar, pois perdeu o controle pela dança; perdeu seu equilíbrio, a comunicação com seus próprios pés.
Quando chegamos ao fundo do poço pelas escolhas destrutivas, mas combatemos nossos próprios demônios, travamos uma luta valiosa, pois é justamente no fundo que habitam as raízes selvagens da mulher; o solo fértil para semear e ver crescer algo de novo.
É melhor, mais excitante e muito mais profundo ser o que somos e como somos, deixando que os outros também o sejam. Sendo assim, naturalmente recuperamos nossos pés e nossos sapatos originais. Voltamos a nossa própria dança e o Carimbó sai do jeito que a mestra ensinou, como “o balanço de uma flor e o cortejo de um beija-flor”(D. Onete). Vem pra essa dança, vem!
Inspirado no livro: Mulheres que Correm com Lobos – Clarissa Pinkola Estés

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*Comunicadora Social – Jornalista – Arteducadora – Pesquisadora das Danças Sagradas e Tradições dos Povos como meios de Comunic-Ação Criativa


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