No carrossel do Skank gira experimentalismo

Divulgação
Lelo, Haroldo, Samuel e Henrique formam o Skank
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Alisson · Formiga, MG
26/9/2006 · 70 · 0
 

Eles voltaram. E em grande estilo. Os mineiros do Skank, uma das principais bandas do pop nacional desde o princípio dos anos 90, voltam à ativa lançando seu sétimo disco de inéditas – “Carrossel†– três anos após “Cosmotronâ€, álbum conceitual na carreira do grupo que, desde “Maquinarama†(2000), vem focando sua sonoridade em influências no rock britânico e no experimentalismo. A grosso modo, o Skank dos dias atuais lembra uma mistura dos anos 60 dos Beatles, aliado ao rock Madchester do Stone Roses e com uma pitada do som alternativo de bandas ‘novas’ como o Travis ou Wilco: guitarras suaves, teclados viajantes e letras muito bem elaboradas, bem diferente do pop blasé que botava numa só panela o dancehall e o reggae no início da carreira. Uma das chaves dessa mudança se dá ao fato de o grupo ter gravado justamente seus três últimos álbuns no estúdio próprio da banda, em Belo Horizonte, um espaço independente onde a banda pôde desenvolver, mais do que nunca, todas as suas influências, aspirações e inspirações.

Essa ‘independência’ do Skank reflete não só na sonoridade do grupo, que completa 15 anos de estrada, mas faz também com que a banda mineira consiga percorrer no limiar do mainstream e do alternativo com segurança e propriedade. Apesar de “Carrossel†(que chegou às lojas neste mês de setembro) se apresentar, na grande maioria de suas 15 faixas, como um álbum cheio de experimentações sonoras, o primeiro single – “Uma canção é pra isso†– já toca no rádio a cerca de um mês, e a receptividade do público foi instantânea.

Não é arriscado dizer que “Uma canção é pra isso†é a faixa que destoa um pouco em relação às outras 14. É a de pegada mais pop, de letra mais simples e de sonoridade mais direta. Mesmo assim, não foge à identidade do disco. É a porta do álbum que tem condições de cair no gosto popular. É uma música sofisticada e simples, com uma assinatura do Skank, ou melhor, com a assinatura de Samuel Rosa e o eterno parceiro Chico Amaral. “Pra consertar, pra defender a cidadela; pra celebrar, pra reunir o bairro e favelaâ€, é o que diz um trecho crucial da música ‘carro chefe’, como diz o próprio co-autor.

Mas se uma canção é pra reunir bairro e favela, um álbum é pra reunir os riscos e as pretensões de uma banda. “Carrossel†fecha uma trilogia de um Skank lúdico, amadurecido e libertino. Mesmo com o hiato de três anos sem lançar um álbum de inéditas, a banda continuou tendo forte foco na mídia e atraindo novos fãs.

Um álbum é pra isso: sonoridade vigorosa, sem medo de ser feliz. É este “Carrosselâ€, álbum que definitivamente faz com que o Skank finque sua bandeira dentro do cenário musical no Brasil. Se na ‘primeira fase’ da banda (1991-2000), a crítica torcia o nariz para o trabalho dos mineiros (que alheios a isso eram sucesso de mercado), hoje em dia a banda pode se vangloriar por ser bem aceita não só pelo público, mas também por boa parte da ‘classe letrada musical’. Fruto de um trabalho friamente calculado ao longo dos anos, fato que tornou a banda ainda mais homogênea. “Carrossel†explicita isso em forma de canções.

O disco começa com “Eu e a felicidadeâ€, parceria de Samuel e Nando Reis. Levada pop, com grande incidência de teclados que culmina com um solo de guitarra curto e... stonner. “E eu não passo de um brinquedo desmontável; ela não passa de um desejo inflamávelâ€, canta o vocalista. A faixa seguinte, “Uma canção é pra issoâ€, já foi falada aqui, você viu.

“Carrossel†segue com uma trinca beatle. “Até o amor virar poeira†é a banda de Liverpool na fase “Rubber Soulâ€. “O som da sua voz†tem potencial pra tocar no rádio, uma boa aposta para um futuro single. “Cara Nua†é psicodelia ao extremo e mais uma letra viajada: “Eu saí de casa, a rua colorida; fantasias, foliões conseguem me mostrar; que um rosto sem máscara esconde mais com a cara nuaâ€. A faixa 6, “Mil Acasosâ€, é no estilo de “Vou Deixarâ€. No começo é legal, mas depois enjoa. Ficou meio perdida em meio à trinca de sons que a precede e às quatro seguintes que estão por vir...

As faixas 7 até 10 resumem a riqueza do álbum e o tal amadurecimento do Skank. “Lugar†é a sucessora do hit “Respostaâ€. “Notícia†entraria fácil em Cosmotron. “Garrafasâ€, a única das 15 canções que não tem a assinatura de Samuel (é escrita por Lelo e Chico Amaral), é Mutantes botando o pé nos anos 70. “Panorâmicaâ€, pra resumir, é linda e é a melhor do disco: “E no lago azul da noite imensa meu corpo segue vertical, pensando em vocêâ€.

A reta final do álbum apresenta “Balada pra João e Joanaâ€, daquelas canções que só o Skank sabe fazer. “Trancoso†é mais Stone Roses do que nunca. “Antitelejornalâ€, uma música meio... Lenine. “Seus Passosâ€, balada bem britpop. O encerramento fica por conta de “Um Homem Solitárioâ€, outra balada; lembra o lendário Pulp do ‘Deus’ Jarvis Cocker. Com honestidade ao som do Skank, fecha “Carrossel†e faz deste provável melhor álbum do ano do pop nacional.

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