Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Nós da Roosevelt

1
Pri Basile · São Paulo, SP
26/5/2006 · 55 · 0
 

Priscila Basile e Fernando Ferraz


Uma quinta-feira. 9 e meia da noite. Antes de entrar, luvas, máscara, proteção para os pés e avental. Todos devidamente trajados, os espectadores tornam-se médicos observadores, prontos para presenciar os últimos 50 minutos da vida de um homem e suas reflexões a respeito do que foi ou poderia ter sido. Para entender Os Satyros é preciso vivenciá-lo. Essa é a frase que sintetiza não só a experiência com Cosmogonia, mas também as outras peças as quais estes repórteres presenciaram.

OS IMORAIS
Os Satyros nasceu em um cenário político e cultural bastante conturbado. Era pós-ditadura, época de Fernando Collor e seus marajás. Além disso, predominavam na cena teatral diretores como Gerald Thomas e Antunes Filho.
Ivam Cabral, um dos fundadores do grupo, conta que o teatro na década de 80 era muito formal e colocava o ator como um mero objeto de encenação. “O texto não existia. O ator entrava com uma música, com uma fumaça e, tremendo, repetia uma frase durante uns 15 minutos” – satiriza Cabral. Isso justifica a grande polêmica que a primeira peça do grupo, Sades ou Noites com os Professores Imorais causou tanto nos espectadores quanto na crítica. “Nós nos distanciamos dos dois [Antunes e Thomas] e fizemos um espetáculo pornográfico e violento” – relata Rodolfo Garcia Vasquez, fundador e diretor teatral d’Os Satyros.

EXÍLIO VOLUNTÁRIO
Insatisfeitos com esse quadro, o grupo organizou intervenções culturais estratégicas como forma de reação. Foi daí que surgiu a idéia de criar As Satyrianas, evento que abrigava diversas atividades como o teatro, a literatura, a música e o cinema e que durava 78 horas ininterruptas.
Em 92 o grupo foi convidado para participar de festivais na Europa e aproveitou a viagem para se instalar sua primeira sede em Portugal, remontando a peça que marcou sua estréia no Brasil. Segundo Cabral, Os Satyros decidiram fazer um exílio voluntário porque achavam que não conseguiriam trabalhar por aqui, já que havia uma percepção preconceituosa a respeito deles. “Foi difícil pras pessoas perceberem que a gente não era drogado e nem fazia bacanal no palco. Estávamos tentando responder com o nosso trabalho ao que o país vivia. Era nosso grito de liberdade”.
Após viajar por vários países da Europa e fundar Os Satyros em Curitiba, o grupo começou também a trabalhar em Berlim. Ivam conta que a crítica, mesmo da classe teatral, achava que o sucesso internacional da companhia era mentiroso. “Aos poucos as coisas foram se acertando. A internet facilitou muito” - conclui. Voltaram definitivamente ao Brasil em 99, mas só se reinstalaram em São Paulo no final do ano seguinte na Praça Roosevelt.

NÓS DA PRAÇA
No começo, o encontro do grupo com os moradores da praça, entre eles traficantes, travestis e mendigos, foi atribulado. Ivam E Rodolfo relatam que quando chegaram, tiveram que negociar com os habitantes. Contam que em frente ao Satyros havia um bueiro que levantava a tampa e que os traficantes guardavam pacotes ali. “No começo a gente não entendia muito bem o que era essa transmissão de pacotes e eles nos ameaçavam. Enquanto isso, a gente ia conversando com eles dizendo que precisávamos trabalhar e eles insistiam que precisavam do buraco”. Foi então que decidiram dar uma volta pelas redondezas para achar um outro buraco. Encontraram. “Não adianta você chegar num lugar e expulsar. Você tem que inserir essas pessoas. Até porque eu acho que esse teatro que fala de favela e tal, de uma maneira distante, é uma coisa muito burguesa” – completa.
Um trecho de um dos espetáculos do grupo ilustra a relação que Os Satyros passaria a estabelecer com o lugar onde está localizado: “Roosevelt fez o que, exatamente? E por que essa praça de merda tem esse nome? O que esse Franklin tem a ver com a gente? Onde está a nossa história e onde eu apareço?”. Rodolfo afirma que a inserção na praça foi tão natural que tudo à volta deles os tocava, sentindo assim a obrigação de mostrar o outro lado da vida social, o que não aparece nas novelas. Ainda a esse respeito, Cléo de Páris, atriz do grupo, diz que é inevitável falar do que está ao seu lado, pulsando junto ao grupo e fazendo parte de sua vida. “A denúncia social é papel da arte porque é tudo muito velado. Não podemos ficar em silêncio compactuando com a hipocrisia”.

TERRA DE NINGUÉM
Dea Loher, dramaturga alemã, levaria um tempo para perceber que o que procurava no Brasil era a Praça Roosevelt. Sua vinda ao país objetivava escrever o texto de uma peça para o Thalia Theater, de Hamburgo, Alemanha, cujo conteúdo deveria remeter ao título Terra de Ninguém.
Para tanto, Dea chegou em São Paulo e pesquisou os presídios e favelas a fim de conhecer as mazelas que marcam o país. Neste meio tempo, a dramaturga conheceu Os Satyros, mas sua pesquisa ainda nada tinha a ver com a praça. Foi depois do roubo de seu laptop, contendo todas as informações para sua pesquisa, que se aproximou mais do grupo e, conseqüentemente, da vida na praça. Meses depois o grupo paulistano teria a notícia que o Thalia montaria A Vida na Praça Roosevelt. A peça relata a existência de personagens com suas diversas histórias e dramas. Embora ambientado no Brasil, o seu compreendimento ultrapassa barreiras geográficas. Como disse Rodolfo, Dea soube descobrir nessas personagens a universalidade dos sentimentos como a solidão da cidade grande, o medo e a insegurança. E Cléo completa: “A Dea escreveu sobre pessoas reais, falíveis e intensas e elas estão em todo lugar, não só na praça Roosevelt. Uma pessoa que sente dor aqui é igual a outra que sente dor no Japão; isso é lindo no texto dela”.
Entre essas personagens está Aurora, interpretada por Alberto Guzik e inspirada em Phedra D. Córdoba, uma travesti cubana de 67 anos. Ela conta que ingressou n’Os Satyros logo quando voltou da Europa e sua história serviu de inspiração para a composição de uma entre as diversas personagens que compõe o texto de Dea. “Fiquei muito lisonjeada de ver uma personagem tão bonita como a Aurora de Córdoba. Todo mundo que vê a peça percebe que eu sou mesma”- diz Phedra.
Indagado sobre o porquê das pessoas contemplarem personagens como esses no palco e os desprezarem nas ruas, Rodolfo conclui: o palco lhes dá a palavra e, portanto, a dignidade. Coisa que na vida real eles nunca poderiam ter.



compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados