Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

O DJ da literatura

1
Cristiane Costa · Rio de Janeiro, RJ
7/8/2011 · 5 · 0
 

Jovem autor carioca criou site em que transforma a literatura num surpreendente jogo de corta e cola de frases dos outros

Leonardo Villa-Forte tem apenas 26 anos, mas já fez escola. Suas oficinas de remix literário, baseadas na experiência do site MixLit, apontam para um experiência radical de narrativa literária, baseada no sampler e na recombinação de trechos de obras alheias.

Formado em Psicologia, com a monografia “Redes sociais virtuais: troca de informação e formação de identidade na internet”, estudou também Filologia na Universidad de Salamanca, na Espanha. Premiado na categoria de contos no prêmio Off-FLIP 2009,  Leonardo Villa-Forte tem contos publicados em sites e revistas virtuais como o Portal Literal. Atualmente, trabalha como tradutor, copidesque, e com preparação de originais, além de coordenar as pesquisas literárias da produtora Plumagenz.

Qual a proposta do MixLit?

Criar textos narrativos/literários a partir da seleção, edição e recombinação de trechos de diversas obras de diferentes escritores. Geralmente são pequenos contos, coerentes e homogêneos, sempre citando todas as referências de onde saíram os trechos, como o autor, nome da obra, editora, ano, e tradutor no caso de ser obra estrangeira. É uma forma de radicalização da figura do leitor, e procuro ressaltar a sua liberdade e o seu papel ativo na criação de sentido de um texto.

Vale também como uma provocação às fronteiras entre leitor e autor, pela intenção de fazer um jogo com a literatura, usando a sua base, ou seja, o texto propriamente dito, para ressaltar a possibilidade de criação sem limites, explorando o leque infinito de interpretações ao deslocar e encaixar trechos de uma forma que os mesmos, em conjunto, produzam novos significados ao habitar outros espaços.

Com essas ligações, pretendo proporcionar algo como uma vida bastarda aos trechos utilizados, jogando-os entre irmãos de diferentes pais, e de alguma forma tentando ver nisso a máxima de que a literatura nasce do mundo para o mundo.

O projeto serve também como uma pequena homenagem a tantos escritores que admiro, dentre os quais alguns estão nos textos, e a tantos outros que ainda estão por conhecer. Gosto de pensar que há uma proposta de dessacralização da literatura, o que considero fundamental para que se amplie a superfície de contato entre a sociedade em geral e as narrativas literárias.

Como surgiu a ideia?

Da percepção de que alguns trechos de livros poderiam ter continuidade narrativa em outros trechos de outros livros. Não foi uma ideia anterior que se concretiza posteriormente, mas uma percepção que fui testando na prática, vendo se era realmente possível fazer essas ligações que enxerguei. Nesse momento inicial, quando organizei o primeiro texto, eu estava deitado com vários livros espalhados ao meu redor. Eram livros novos e eu pegava um, lia um pouco, pegava outro, lia mais um pouco, e assim ia passando de um para o outro para decidir qual deles eu leria primeiro por inteiro, mais ou menos como fazemos às vezes nas livrarias. Eu tinha por volta de dez livros ao redor e então, nessa passagem de um livro para outro, fui percebendo que uma frase de um livro poderia ser continuada pela frase de outro. Então marquei com lapiseira os trechos nos livros e depois fui transcrevendo-os no computador, organizando-os numa ordem narrativa e cortando-os para um melhor encaixe das palavras. Foi um tipo de investigação. Eu queria ver se era possível. E aí fiz o MixLit número 1, que depois inaugurou o site.

Mas antes mesmo do site eu mostrei esse primeiro texto para algumas pessoas e elas gostaram bastante, o que me animou a testar a construção de outros e então criar o site. Tanto era uma investigação que, na medida em que fui fazendo mais textos, sentia que meu olhar e minha mão ficavam melhores para essa construção.

Apesar de ser um projeto digital, perfeitamente de acordo com as perspectivas do remix e do sampler, você identificou suas origens num passado remoto. Quem foram os precursores?

Muito tempo depois de fazer os textos MixLit, só quando a coisa começou a ganhar repercussão, é que eu fui pesquisar e estudar trabalhos do passado e contemporâneos que tivessem algum tipo de diálogo com o que eu estava fazendo. Acabei encontrando um universo gigantesco. Dentro do meio musical e audiovisual a experiência com remix e sampler é vasta, mas no meio literário nem tanto, ou menos declarada, por isso pude distinguir algumas experiências pontuais, que lidavam diretamente com a palavra. O poema Un coup de dés, de Mallarmé, foi um dos que sempre ouvi falar, mas nunca tinha detido uma atenção maior nele, e me parece que foi um texto pioneiro na disposição espacial das palavras, no diferente uso da tipografia e nos espaços em branco, todos esses elementos que dialogam com o processo do MixLit, mais do que com seu resultado, pois ressaltam a liberdade do leitor, chamando-o para participar da criação do texto quando se lê o poema. Daí cheguei à poesia concreta dos irmãos Campos e Décio Pignatari, com muitos trabalhos explorando um tipo de leitura em que não se determina um lugar para começar e outro para terminar, o que dialoga com a maneira como eu pego um livro quando vou fazer um MixLit. E pesquisei também o método Cut-Up celebrizado pelo William Burroughs, que recortava trechos de jornais e outros textos e os dividia em seções e os remontava num novo texto ou então misturava com a sua própria escrita, usando isso inclusive em livros seus como o Almoço nu.

Gosto de pensar também no romance O jogo da amarelinha, de Júlio Cortázar, no qual o autor narra uma primeira história e depois acrescenta capítulos “dispensáveis” que servem para, misturados aos primeiros e segundo uma nova ordem de leitura, toda pulada e indicada pelo autor, gerarem uma segunda história. Neste livro Cortázar parece dizer: vejamos agora uma nova ordem de leitura, leia primeiro o capítulo 73, depois o 1, depois o 2, então o 116, e depois o 3, depois o 84… e assim por diante, numa nova sequência narrativa também coerente. Penso que a nova ordem de leitura que Cortázar propõe aos capítulos do seu livro, eu proponho às frases e diálogos de todos os livros do mundo (ou aqueles da minha estante). É como se eu dissesse: leia primeiro a frase tal da página tal do livro tal, pare no meio e vá então para outra frase, da página tal do livro tal, em seguida pule para a última linha do página tal do livro tal… e assim em diante, até construir uma narrativa que aos poucos irá criando um sentido diferente pelas ligações dos trechos.

Mas é crucial dizer que todas essas obras eu fui pesquisar depois de começar a fazer o MixLit e que, antes de qualquer leitura literária de contos em hipertexto, poesias sem fim ou começo ou romances que subvertem sua própria ordem, eu lia na internet. Ou seja, meu primeiro contato com um tipo de leitura em que não há começo ou fim e o leitor determina o que ele vai ler/abrir primeiro ou onde ele vai terminar/fechar o conteúdo é a internet. O modo de leitura que faço para elaborar os MixLits é muito semelhante ao modo como lemos na internet, navegando por entre várias informações e escolhendo o percurso de leitura que faremos.

De alguma forma, aqueles dez livros espalhados ao redor de mim, dos quais falei na resposta anterior, são muito semelhantes às dez abas que deixamos abertas num navegador de internet e vamos lendo aos poucos certos pedaços na ordem que escolhermos. Uma hora a aba que líamos tem dez comentários, depois 20, depois 30, e nós vamos, no nosso imaginário, dando um sentido narrativo para todo esse acréscimo de conteúdo, organizando isso para nós, ou fechando e pulando para outra coisa. Por isso a internet e o ambiente digital são enormes atravessadores do projeto do MixLit. É o tipo de leitura que esse ambiente permite e, mais do que isso, estimula, que está presente na forma como lido com os livros com os quais faço os textos do MixLit.

Como fica a questão dos direitos autorais?

A questão dos direitos autorais na internet ainda é bastante nebulosa e não sou um especialista. Já ouvi muita coisa, mas poucas afirmações realmente esclarecedoras. A posição que considero mais embasada é a de que o MixLit é uma sequência de citações, como um dicionário de citações, e assim, tendo todas as referências explicitadas, não há problemas. Além de serem trechos tão curtos que não prejudicam em nada qualquer exploração da obra original, e de eu fazê-los gratuitamente, sem qualquer ganho pecuniário envolvido.

Mais do que isso, acho que o barato do MixLit é exatamente isso, a declaração explícita da participação coletiva de vários autores num novo texto, a ideia simples e clara de um leitor agindo nas páginas daqueles tantos livros de tantos autores diferentes que ofereceram suas palavras a nós. Por isso, nunca pensei em dispor esses textos sem mencionar de onde saíram os trechos, nem tampouco inserir palavras escritas por mim entre aquelas encontradas nos livros. No site há um espaço onde peço que, caso haja qualquer incômodo por parte de algum autor, editor ou controlador, por favor me comunique e retiro o trecho respectivo. Tenho muito respeito tanto por escritores quanto editores, e não quero fazer nada sob desaprovação deles.

Como você escolhe as obras que serão remixadas?

No começo eu fazia os textos com o que eu estava lendo no momento, mas hoje acho que essa é a parte mais aleatória do processo. Às vezes escolho obras que estou lendo, às vezes outras que já li, outras vezes obras que quero ler, e outras vezes livros que sei que nunca vou ler. Geralmente são autores que ou já li alguma coisa ou já ouvi falar, mas volta e meia me dou a surpresa de usar um de quem não conheço nada. Tento usar tanto autores reconhecidos e já estabelecidos quanto gente nova e talentosa, porque gosto da ideia de divulgação de autores novos.

Às vezes, sempre às vezes, olho para os livros que já li e tenho ideia de que tipo de assunto é abordado, qual o estilo de escrita, se é na primeira pessoa, na terceira, se é escrito em tempo presente, em tempo passado, se é mais de ação interna ou externa, e assim posso basear minha escolha nisso. Mas também escolho obras sem pensar em nada e me imponho o desafio de achar as ligações entre elas. Pode dar certo ou dar errado e, no último caso, eu tenho que fazer uma nova escolha, recorrendo a outras obras. Eu escolho primeiro as obras e daí parto para o texto. Se encontro ligações nelas, ótimo, se não acho, parto para outras.

Você não só escreve com as palavras dos outros como também cria suas próprias obras. O que é mais difícil?

Mais difícil é esta pergunta. Acho que a escrita de punho próprio é mais difícil. Quando escrevo diretamente, as palavras ainda não estão buriladas. Preciso fazer sair de mim, fisicamente, as frases, o sentido, o ritmo, o significado, e depois tudo isso passa por um processo longo de revisão e maturação. Quando vou a um livro, o texto ali presente já deve ter passado por todo esse processo e não posso mudar as suas palavras. Ou elas me servem, mesmo que editadas, ou não me servem. Já quando escrevo diretamente, há a tentação de ficar mudando eternamente o texto até mesmo nos seus elementos mínimos, com as palavras e as pontuações. A semelhança entre os dois é que sempre no meio da coisa pode-se descobrir que a história que será contada será outra, que a intensidade será deslocada para outro lugar e o foco sobre outro personagem ou ação. Mas isso, quando faço MixLit é um processo mais leve, no qual já entro completamente desarmado, sabendo que o que vai me guiar serão as conexões possíveis ou não de serem feitas, e que são elas que permitirão o que será contado ou não.

De certa forma, acalma saber que tenho um material base do qual partir. Já quando vou escrever diretamente, há uma expectativa de controle soberano sobre o conteúdo, e a ideia consciente de que tudo depende de mim, o que até certo ponto é uma ilusão, e isso torna o trabalho um pouco mais penoso, apesar de às vezes ser árduo construir uma unidade no MixLit também.

Confira alguns dos trabalhos de Leonardo Villa-Forte aqui no Banco de Cultura.

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados