O heroísmo jovem sob controle

divulgação
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Paulo Gois Bastos · Vitória, ES
7/5/2010 · 0 · 0
 

Assisti ao longa metragem As melhores coisas do mundo (2010, 107 min.) recente produção da diretora Laís Bodanzky, em uma sessão especial promovida pela ArcelorMittal para profissionais da educação da grande Vitória. A empresa é uma das patrocinadoras do filme, que traz em sua proposta de marketing e distribuição, uma espécie de manual de leitura e aplicação político-pedagógica. Confesso que fico incomodado com esse tipo de orientação do público e com esse “direcionamento” no sentido de uma obra feita para entreter e que aqui parece se transformar num manual ou fábula pedagógica (por mais redundante que isso seja!). Assim, contaminado por esse discurso para-fílmico ou extra-fílmico, quero tencionar outros sentidos que relativizem ou até se oponham a algumas das orientações propostas pelo marketing pedagógico claramente assumido pelos patrocinadores da produção.

Após a exibição, cheguei a ser interpelado se o filme não seria uma espécie de Malhação (novela da TV Globo) no formato longa-metragem. Tal inferência não deixa de ser coerente, muito menos pela atuação de Fiuk – que parece está interpretando o mesmo personagem que ele protagoniza no seriado global, ou seja, sua mesma performance de cantor e ídolo adolescente: o galã romântico e melancólico que embala o coração das meninas com músicas de um amor doído e o olhar de menino tristonho. Aí, como não querer cuidar dele e não me perguntar se tal postura tem algo de hereditário? A proximidade com Malhação está justamente na proposta ideológica das duas produções (o filme e o programa televisivo) de mostrarem histórias e situações exemplares da vida dos jovens com intuito de fazer-lhes identificarem-se com seus personagens e depreenderem daí lições éticas e morais.

O roteiro de As melhores coisas do mundo elege Mano, um adolescente de classe média interpretado pelo ator estreante Francisco Miguez, como o jovem herói que viverá dilemas comuns à qualquer garoto nessa idade. Trata-se, pois, de uma pretensa universalidade – mesmo descontando os demais personagens que “colorem” o enredo – formatada e reforçadora de um modo de percepção subjetiva individualista. É sobre o olhar da primeira pessoa do herói que a narrativa é construída. E mais do que a posição do sujeito narrador, é o desfecho e a resolução de um, também pretenso, conflito existencial do protagonista que a história se sustenta. Nada novo, pois temas como afeto, família, sexualidade, autonomia, identidade sempre estiveram presentes em obras que tematizam o jovem. Assim como não é nova a narrativa cinematográfica que apresenta o percurso do herói por provações, conflitos éticos, que tem titubeios de caráter, que redime-se no final, aprende uma lição e faz o público projetar-se no final feliz.

Talvez tivesse sido mais inovador tencionar de que forma a singularidade de Mano o leva a vivenciar trajetos apenas seus. Mano é um garoto, um pré-homem, e tem a sua masculinidade posta em teste pelos amigos em uma casa de prostituição. Seria o dia de perder a sua virgindade – não é preciso ir muito longe para dizer que a iniciação sexual com uma mulher continua sendo uma prova que assegura aos meninos a sua masculinidade por parte dos seus pares etários e dos homens mais velhos. Com as meninas, a vivência sexual ainda é cercada de um controle mais intenso e pouco é o incentivo a sua autonomia. Aquelas que se atrevem a romper com o “romântico” resguardo sexual que lhes é imposto tornam-se as meninas para “pegar” e são tratadas como meros objetos eróticos pelos garotos – essa é a postura de Mano e de seus amigos – já as meninas “com conteúdo”, ou seja, aquelas que posicionam-se de maneira franca e igualitária com os meninos, não são dignas de qualquer investimento erótico-afetivo.

O conflito em torno da autonomia sexual dos jovens também não é novo. O prazer sexual ainda é um monstro, um interdito. Não é à toa que pesquisas recentes apontam que a palavra “sexo” e conteúdos relacionados ao tema são os mais acessados e procurados por crianças e adolescentes na internet. A curiosidade gerada pela interdição, aliada ao anonimato proporcionado pelo mundo virtual, criou o ambiente contemporâneo e ideal para a experimentação clandestina do sexo – um tipo de vivência resultante da ainda conservadora moral sexual vigente. A atitude da mãe de Mano, na excelente interpretação da atriz Denise Fraga, ao oferecê-lo preservativos ou incentivá-lo a arranjar uma namorada ao invés de continuar masturbando-se diante das imagens erótico-pornográficas vistas no computador nada mais é do que a extensão, digamos, liberal do controle adulto sobre a sexualidade do jovem. Controle que leva a direção da escola a demitir um professor devido a um único beijo trocado com uma aluna – para a instituição escolar está claro que tal investida partiu do homem adulto e não da menina cheia de vontades.

No filme, incomodou muito o marchandising que abriu-se num primeiríssimo plano de uma tela de computador mostrando o site da empresa patrocinadora e promotora da referida sessão especial – imagem sem qualquer ligação com o restante do roteiro que não a pura e simples função publicitária. Incomoda o final feliz em que o afeto virginal da mocinha – personagem Carol, interpretada por Gabriela Rocha – é dado como recompensa ao herói redimido. Incomoda a concepção de que os jovens “normais” até podem experimentar drogas legais (bebidas e tabaco), mas não se aventuram no uso de psicotrópicos criminalizados como o irmão maníaco-depressivo e suicida do herói que guarda melancolicamente a ponta do seu baseado numa caixinha “cemitério”. Porém, o que me incomoda mais em As melhores coisas do mundo é o reforço da idéia de que juventude e adolescência são, marcadamente, um momento de crise e incertezas existenciais e que o trajeto até a vida adulta gerará a experiência necessária para a constituição de um sujeito equilibrado e pleno – o que explica a tentativa de suicídio de um jovem angustiado e deprimido ser o clímax do filme. Tal argumento serve para justificar a ação tutelar das gerações adultas sobre os jovens tolhendo as suas vontades e a constituição de sua autonomia de fato.

Texto originalmente publicado no Portal YAH!

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