O livro O que é cultura popular, de Antonio Augusto Arantes publicado em 1980 na série Primeiros Passos da Editora Brasiliense, permanece um dos mais significativos ensaios sobre o assunto.
O estudo de Arantes está dividido em três capÃtulos. Inicia com o texto Um aglomerado indigesto de fragmentos, segue com As culturas aqui e agora, múltiplas e em constantes transformação e termina com Na dimensão polÃtica do “popularâ€, a questão da “participaçãoâ€.
Para o autor cultura Popular não é um conceito bem definido pelas Ciências humanas e pela Antropologia social. Seus significados são heterogêneos, remetendo a um amplo aspecto de concepção. Pode-se atribuir à cultura popular o conceito de saber, como também a função de resistência a dominação de classes.
O termo saber refere-se, em geral, ao conhecimento do universo e a aspectos de tecnologia, como técnicas de trabalho e procedimentos de cura. Os eventos são pensados no passado ou que logo serão superados.
Já a resistência à dominação de classes ocorre com os diversos modos de expressão artÃstica, como a literatura oral, a música, o teatro e a poesia. Nesse caso os eventos são pensados no futuro, vislumbrando neles indÃcios de uma nova ordem social.
No dicionário Aurélio a palavra cultura é registrada como saber, estudo, elegância, e esmero. Evoca, portanto, os domÃnios da filosofia, das ciências e das belas-artes. Nas sociedades estratificadas em classes esses campos da cultura são, na verdade, atividades especializadas que tem como objetivo a produção de um conhecimento e de um gosto. Tal conhecimento parte das universidades e das academias. É difundido entre as camadas sociais como os mais belos e os mais corretos. Ser culto, nesse sentido, é ter bom gosto, razão ou saber, ter conhecimento e estar informado.
Na cidade de São Paulo grande parte da população é descendente de estrangeiros e migrantes rurais. Aà vários modos de vida são recriados. A inspiração rural, por exemplo, está presente nos infalÃveis tomateiros e pés de chuchu plantados nos quintais de pequenas dimensões. Isso mostra que embora as escolas, as igrejas, os meios de comunicação e os museus ensinem as pessoas a ter um modo de vida refinado, civilizado e eficiente – isto é, culto -, elas não conseguem evitar que muitos objetos e práticas qualificadas como populares pontilhem seu cotidiano. Nesse aspecto o refinado, civilizado e eficiente refere-se ao culto e o mau gosto, ingênuo, pitoresco e ineficaz refere-se ao popular.
A ambivalência, em relação ao que é identificado como popular, não decorre apenas do desconhecimento da beleza, eficácia e adequação insuspeitas do que é culturalmente alheio para aqueles que tomam para si e para os seus semelhantes a tarefa de catequizar o resto da sociedade.
As atitudes contraditórias em relação à cultura popular resultam em grande medida a alguns paradoxos. Nas sociedades industriais, sobretudo nas capitalistas, o trabalho manual e o trabalho intelectual são pensados e vivenciados como realidades profundamente distintas uma da outra. Há um enorme desnÃvel de prestÃgio e de poder entre essas profissões decorrentes da concepção generalizada na sociedade de que o trabalho intelectual é superior ao manual. Para a sociedade capitalista o que é popular é necessariamente associado ao fazer desprovido de saber.
Grande parte dos autores pensa cultura popular como folclore, ou seja, como um conjunto de objetos, práticas e concepções – sobretudo religiosas e estéticas -, consideradas tradicionais. Outros concebem as manifestações culturais tradicionais como resÃduo da cultura culta de outras épocas e, à s vezes, de outros lugares, filtrada ao longo do tempo pelas sucessivas camadas de estratificação social. Diz-se: o povo é um clássico que sobrevive. Pensar em cultura popular como sinônimo de tradição é impossibilitar a compreensão das sucessivas modificações por quais necessariamente passaram esses objetos, concepções e práticas do povo. É pensar as modificações como empobrecedoras ou deturpadoras.
A cultura popular surge, portanto, como uma outra cultura que, por contraste ao saber culto dominante, apresenta-se como totalidade embora sendo, na verdade, constituÃda através da justaposição de elementos residuais e fragmentários considerados resistentes a um processo natural de deterioração.
Ao procurar reproduzir objetos e práticas supostamente cristalizados no tempo e no espaço, acaba-se por reproduzir versões modificadas, no mais das vezes esquemáticas, estereotipadas e, sobretudo, inverossÃmeis – aos olhos dos produtores originais -, dos eventos culturais com os quais se pretende constituir o patrimônio de todos. Embora se procure ser fiel à tradição, ao passado, é impossÃvel deixar de agregar novos significados e conotações ao que se tenta reconstruir. Ao se produzir o espetáculo, cortam-se as raÃzes do que, na verdade, é festa, é expressão de vida e liberdade. Vida que recusa identificar-se com as imagens que o espelho culto permite refletir e que grande maioria dos museus cultua.
São equivocadas as concepções de que o povo não tem cultura, que a cultura popular á a tradição da elite. São concepções etnocêntricas e autoritárias. Pensam a cultura como passÃvel de cristalização, permanecendo imutável no tempo a despeito das mudanças que ocorrem na sociedade, ou, quando muito, que ela esteja em eterno desaparecimento.
A cultura é um processo dinâmico de transformações positivas que ocorrem, mesmo quando intencionalmente se visa congelar o tradicional para impedir a sua deterioração. É possÃvel preservar os objetos, os gestos, as palavras, os movimentos, as caracterÃsticas plásticas exteriores, mas não se consegue evitar a mudança de significado que ocorre no momento em que se altera o contexto em que os eventos culturais são produzidos. É preciso pensar a cultura no plural e no presente.
Significação de valores é da essência da cultura. Pó isso, o ponto de partida usual do trabalho do antropólogo é a observação direta de indivÃduos se comportando face a outros indivÃduos e em relação à natureza. A cultura constitui os diversos núcleos de identidade dos vários agrupamentos humanos, ao mesmo tempo em que os diferencia dos outros.
O ser humano realiza no dia-a-dia operações mentais de codificação e decodificação de mensagens que requerem o conhecimento desses significados implÃcitos nas ações e nos objetos, e de suas regras de manuseio. Um exemplo são as roupas com que as pessoas do sexo masculino cobrem o seu corpo. Elas constituem um grande número de afirmações simbólicas, sociologicamente significativas. No trabalho os gerentes, diretores e chefes usam paletó e gravata. Nas oficinas, linhas de montagem, serviços de limpeza e manutenção usam-se macacões. Os trajes possuem significação simbólica e carregam fragmentos de um código com o qual se constroem afirmações metafóricas a respeito das relações sociais vigentes.
Todas as ações humanas – sejam na esfera do trabalho, das relações conjugais, da produção econômica ou artÃsticas, do sexo, da religião, das formas de dominação e de solidariedade -, são constituÃdas segundo os códigos e as convenções simbólicas que denominamos cultura.
Em lugar de tomar os sÃmbolos abstratamente, como se eles estivessem vagando no vazio, convém interpretá-los como produtos de homens reais que articulam, em considerações particulares, pontos de vistas a respeito de problemas colocados pela estrutura de sua sociedade.
Malinowiski contribuiu com a acepção de que os detalhes da cultura precisam ser vistos sempre em seu contexto e como partes inter-relacionadas. Foi demolida a concepção de cultura como colcha de retalhos – própria dos difusionistas e evolucionista. Estabeleceu-se, então, a tese de que a cultura é constituÃda por sistemas de significados que são parte integrante da ação social organizada. Recuperou-se a noção de que, mesmo em sociedades relativamente homogêneas, os sistemas culturais comportam incoerências. Permite-se, justamente, a articulação do desacordo nos termos de e com os elementos próprios a um mesmo e único sistema simbólico.
Há a tentativa, segundo Eunice Durhan, de criar a ilusão da homogeneidade sobre um corpo social que, na realidade, é diferenciado. A sociedade de classes, inerentemente diferenciada, produz mecanismos homogeneizadores que permitem criar uma ilusão de unidade e que é a condição de sua permanência.
A resistência e a participação ocorrem quando nos espaços alternativos, fragmentários e dispersos, como um teatro no fundo do quintal, embora conquistados a duras penas e com muito empenho, pequenos grupos de vizinhos, amigos e parentes, companheiros de trabalho, de igreja ou de partido desenvolvem as suas formas de expressão, a partir das suas maneiras de pensar, de agir, de fazer e, sobretudo, de organizar conjuntos de relações sociais capazes de tornar viáveis, polÃtica e materialmente, as suas atividades. Nesse sentido, fazer teatro, música, poesia ou qualquer outra modalidade de arte é construir, com cacos e fragmentos, um espelho onde transparece, com suas roupagens identificadoras, particulares e concretas, o que é mais abstrato e geral em um ser humano, ou seja, a sua organização, que é condição e modo de sua participação na produção da sociedade. Esse é o sentido mais profundo da cultura, popular ou outra, defende Arantes.
[por Rudinei Borges]
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